"Encontrei-me com Assad e ele continua fora da realidade"
JONATHAN TEPPERMAN
09/02/2015 - 08:54
Em finais de Janeiro, o director executivo da revista norte-americana Foreign Affairs viajou até Damasco para entrevistar o Presidente da Síria, Bashar al-Assad. O texto que aqui se publica é a descrição do encontro do jornalista com um homem "sem remorsos e inflexível".
Feridos num hospital improvisado em Douma, arredores de Damasco, depois de um raid da aviação síria no início do mês
MOHAMMED BADRA/REUTERS
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Nas últimas semanas, os governos ocidentais começaram a mudar subtilmente as suas posições sobre a Síria. A Administração Obama parece ter deixado cair discretamente a sua exigência para que o Presidente Bashar al-Assad se demita como condição prévia às negociações de paz. Em vez disso, surgem informações de que acatou as propostas que permitiriam a Assad fazer parte de um acordo interino. Esta nova abordagem implica que a Casa Branca e os seus aliados acreditam que o Presidente sírio pode estar disponível para um compromisso capaz de pôr fim a quatro anos de guerra civil.
Encontrei-me com Assad a 20 de Janeiro em Damasco – a sua primeira entrevista a um jornalista americano desde 2013. E se há uma conclusão clara da nossa conversa (publicada na Foreign Affairs a 25 de Janeiro) é esta: Tais esperanças são uma fantasia. À superfície, Assad diz muitas coisas certas, mostrando-se conciliador e ansioso por envolver os governos ocidentais na sua luta contra o terrorismo islamista. Mas por trás das suas palavras bonitas, ele continua tão sem remorsos e inflexível como no início da guerra civil, há quatro anos. Assad parece não ter ideia de como a guerra degenerou, de como soam impraticáveis as suas ideias e de quão desprovidos de significado são os seus gestos de abertura. O que significa que, independentemente do que os líderes ocidentais possam desejar, os combates na Síria vão terminar numa de duas maneiras. Ou Assad derrota os rebeldes, ou os rebeldes o vencem – e penduram-no pelos pés.
Visitar a Síria actual é uma experiência estranha e perturbadora. Os sinais da guerra estão por todo o lado. Damasco está rodeada de montanhas cobertas de neve e círculos concêntricos de postos de controlo do Exército, guardados por soldados nervosos, inseguros sobre como reagir quando têm pela frente um americano solitário – viajei sem segurança e contratei apenas um motorista local. Alguns mostravam-se indiferentes, outros hostis e um chegou a agarrar a minha mão para dizer: “O Exército da República Árabe Síria adora a imprensa americana”. Altos muros de protecção em cimento rodeiam a maioria dos edifícios, veículos de combate com riscas vermelhas e brancas dominam os cruzamentos, cartazes de Assad em uniforme militar pendem dos postes de iluminação, funcionários das Nações Unidas enchem os hotéis, e ouvem-se os estrondos e o ressoar da artilharia e dos disparos de morteiro vindos da frente de combate, a alguns quilómetros de distância.
Mas apesar do cerco, os cafés e os mercados continuam vibrantes. As ruas enchem-se de famílias às compras, de estudantes a caminho da escola – e com as centenas de milhares de deslocados que mais do que duplicaram a população da capital desde o início da guerra.
Na Terra do Nunca
Mas a nota mais dissonante é o homem responsável por tudo isto. Assad é alto, magro e de aspecto delicado, com um queixo que desaparece, nada parecido com as imagens do autocrata sanguinário produzidas por Hollywood. Desde o momento em que me recebeu no seu gabinete privado – com um sorriso, um aperto de mão e com um sonoro riso forçado –, entrei numa espécie de Terra do Nunca da imaginação do ditador.
O seu país pode estar a arder, mas todas essas coisas desagradáveis desaparecem à porta da sua residência em estilo revivalista grego, erguida numa colina sobre a cidade. A luxuosa e moderna sala onde conversámos tem um enorme iMac novo na secretária e uma réplica da Abadia de Westminster numa mesa de apoio (supostamente uma recordação dos anos em que estudou oftalmologia no Reino Unido, mas algo que soa incongruente depois de o primeiro-ministro britânico, David Cameron, ter dito que Assad é um Presidente “completamente ilegítimo”). Foi tudo impecavelmente colocado para criar a imagem de uma civilidade refinada, até o cappuccino que o Presidente vestido com roupas caras serviu. O homem em si é jovial, bem-educado e totalmente relaxado.
E ele foi desconcertantemente bom a apresentar-se como um interveniente razoável e racional. A sua crítica à política norte-americana para o Médio Oriente, por exemplo, é partilhada por muitos ocidentais de esquerda. O papel dos EUA, disse-me, deveria ser “fomentar a paz, combater o terrorismo, promover o secularismo e apoiar economicamente a região” e “não fazer guerras”. “Gerar guerras não transforma ninguém numa grande potência”, afirmou.
Mas por trás dos seus aforismos espirituosos e do seu quase invisível bigode está um homem tão inflexível e profundamente enganador – ou fora da realidade – que é impossível imaginá-lo a negociar uma solução justa para o fim da guerra civil na Síria.
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