sábado, 31 de dezembro de 2022

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

In Internet: Rosa Lobato de Faria

 

Rosa Lobato de Farias


                                 A poetisa e romancista Rosa Lobato de Faria nasceu em Lisboa a 20 de Abril de 1932 e faleceu recentemente, no dia 10 de fevereiro. O livro, "Poemas escolhidos e dispersos", das edições ASA, compila os principais poemas da escritora, que publicou o seu primeiro romance em 1995, "O Pranto de Lúcifer". Seguiram-se "Os Pássaros de Seda" (1996), "Os Três Casamentos de Camila S." (1997), "Romance de Cordélia" (1998), "O Prenúncio das Águas" (que ganhou o prémio Máxima de Literatura em 2000), "A Trança de Inês" (2001), "O Sétimo Véu" (2003), "Os Linhos da Avó" (2004), "A Flor do Sal" (2005), "A Alma Trocada" (2007), "A Estrela de Gonçalo Enes" (2007) e "As Esquinas do Tempo" (2008). Escreveu, também, vários livros infantis. Os seus dois primeiros romances foram publicados na Alemanha e "O Prenúncio das Águas" foi publicado em França. Para o teatro, escreveu as peças "A Hora do Gato", "Sete Anos - Esquemas de um Casamento" e "A Severa".
Rosa Lobato de Faria estreou-se como locutora na RTP nos anos 60. Ficou conhecida do grande público pela sua participação, como actriz, na primeira telenovela portuguesa, "Vila Faia", em 1982, onde interpretava a personagem de Beatriz Marques Vila. No cinema, sob a direcção de João Botelho, participou no filme "Tráfico" (1998) e "A Mulher que Acreditava ser Presidente dos EUA". Entrou em dois filmes de Lauro António: "Paisagem sem Barcos" (1983) e "O Vestido Cor de Fogo" (1986). Apresentou os programas televisivos "Cartas de Amor" e "Chá das Cinco".
A par de José Carlos Ary dos Santos, Rosa Lobato Faria foi a letrista com mais sucesso no Festival RTP da Canção, tendo obtido quatro vezes o primeiro lugar com "Amor de Água Fresca" (interpretado, em 1992, pela cantora Dina), "Chamar a Música" (interpretada em 1994 por Sara Tavares), "Baunilha e Chocolate" (cantada por Tó Cruz, em 1995), "Antes do Adeus (na voz de Celia Lawson, em 1997).
O texto que se segue, escrito por Rosa Lobato de Farias é uma Ode à alegria de viver, é uma grande lição de vida deixada para as pessoas que, equivocadamente, acreditam que a velhice é um tempo obscuro, que é apenas a antecâmara da morte, que representa a cessação de uma existência plena, prazerosa e ativa. Ela mostrou que não é assim, vivendo em plenitude sua juventude interior até a sua partida para uma outra forma de vida. “Mazelas” foi escrito no ano de sua morte.
"Aos 77 anos, como é natural, aparecem-nos todas as mazelas. Insignificâncias: uma dor aqui, uma dor ali, nas costas, na perna, na cabeça, uma pequena coisa na pele, na unha, no olho. Não ligo nenhuma. Porque a minha maior mazela é não acreditar que tenho 77 anos.
Eu bem me farto de dizer aos quatro ventos a minha idade e ver se interiorizo este facto, mas por dentro, estou na casa dos trinta, vá lá quarenta, mas não passo daí.
Setenta e sete anos? Que loucura!
Tenho sempre tantas coisas para fazer, para acabar, para ler, para escrever, tanto lugar para visitar, tanto museu para ver, e depois as mazelas – ai!-, mas vou. Porque tenho trinta anos e, evidentemente, tenho que ir.
Não tenho a noção de ser uma senhora velha. Digo Estava lá uma velhota, ou Imaginem que uma velha... Estou a falar de pessoas provavelmente mais novas que eu, mas não enxergo. Até quando irá durar esta idade subjetiva que não me deixa envelhecer tranquilamente?
Só quando me oferecem o braço (já caí na rua e parti a perna, mas nem assim...), quando me sentam no lugar de honra à mesa, quando me dão o assento da direita no automóvel, quando não me dirigem galanteios (que estranho!), acordo para a realidade: ai, é verdade, tenho 77 anos, que maçada...
Ultimamente, tive (ou tenho, ainda não percebi) cancro de mama. Como acho que Deus não me ia mandar uma doença só para me chatear, abri uma campanha de sensibilização (televisão incluída), para que as mulheres façam mamografias. Transformei a porcaria da doença numa coisa positiva.
Passei os trâmites habituais: operação, radioterapia, etc. Tudo pacífico. Ainda por cima, o médico disse-me que era pouco provável que o cancro me matasse, porque, na minha idade, as células já não são o que eram... Aí, sim?
Tenho 77 anos, que alegria!..."

Autora: Rosa Lobato Farias
Escritora e atriz portuguesa.


Seguem-se uma poesia da autora, impregnada da sensibilidade extraordinária que marcou toda a obra poética e ficcional de Rosa Lobato de Farias, poetisa que deixará uma imensa lacuna na cena literária portuguesa.

SE EU MORRER DE MANHÃ
Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

sábado, 17 de dezembro de 2022

De UM SOPRO...







 DE UM SOPRO…

Indefinível o momento em que a infância deixou-de-o-ser.
recordo a cesta de uvas-passas e nozes maduras
misturadas no sótão, com os velhos legados
de outras gerações-
-o céu era , então, divino, no crepúsculo cravejado de astros brilhantes-
-o baú não tinha outros diamantes que as pedras cintilantes
da-verdade-que-eu-fui- na- inocência-que-era.
-o odor das nozes e das uvas de então, passou…
…morreu nas aragens do vento, que lhes secou a raiz matricial…
-permanece intacto o receio do sonho na escada-em-caracol-
Só por isso, a tenra idade ainda floresce…
Só por isso, a esperança cresce…
Só por isso, ainda oiço a voz das raízes que estremecem
dentro dos sulcos telúricos
onde as sementes amadurecem-
De um sopro…meu corpo desliza nas névoas
que amanhecem…………………………………………………………………………………………
Maria Elisa Ribeiro-MRÇ/014

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

NOTA: em 2009 li qualquer coisa sobre este homem que nos liga ao BRASIL, pelo facto de ter lutado com os seus homens para manter os territórios amazónicos ,no BRASIL. Procurei esse artigo no meu BLOG, por ter visto uma imagem no Facebook, relacionada com este lutador nacional.

Maria Elisa Rodrigues Ribeiro

MEALHADA, 15 de Dezembro de 2022





 terça-feira, 22 de dezembro de 2009

PEDRO TEIXEIRA: O "DESBRAVADOR" da AMAZÓNIA









PEDRO TEIXEIRA: “O desbravador da AMAZÓNIA” (séculoXVII). Não é figura de português que conste dos manuais de História. Nunca aprendi nada sobre este homem, nem nunca ensinei nada sobre ele. Mas… …vivo perto dele, ou melhor, vivo a 15 Kms da estátua que perpetua a sua memória, no largo do centro da cidade de Cantanhede, no Distrito de Coimbra. Sou honesta: nunca me despertou particular atenção aquela homenagem em ferro,( penso!) - até que um dia, há anos, ao sentar-me numa esplanada para ,ali em Cantanhede, tomar “uma bica”, perguntei à dona do estabelecimento quem era aquela personagem. A senhora disse-me o que sabia, que era tão-somente isto:”O homem era um português daquela cidade que, no século XVII, andou pelo Brasil, a mando d’el-rei de Portugal a lutar contra os índios maus e a procurar entender-se com os bons…” Fui, então, falar com um colega amigo, que dá aulas na FACULDADE DE LETRAS, da UNIVERSIDADE de COIMBRA, que me disse o pouco que sabia a respeito do barbudo senhor, mas que, infelizmente, ia dar ao que eu ouvira à senhora de Cantanhede… Há cerca de quinze dias, qual não é o meu espanto! - vejo o nome deste português dos “quatro costados” -referido nos jornais e algumas revistas do nosso meio jornalístico e fiquei a saber mais qualquer coisa, então: Pedro Teixeira era um militar português, oriundo da região que hoje corresponde à cidade de Cantanhede e que partiu, nos finais do século XV para o BRASIL, por ordem de el-rei de Portugal, com a especial missão de contactar com os Índios da região amazónica e preparar o caminho para que novas expedições portuguesas lá pudessem entrar , sem perigo.Com o seu espírito aventureiro e um profundo sentimento humanista,embrenhou-se pelas terras inóspitas da Amazónia e não só preparou ,diplomaticamente, a ida de outros portugueses ao território, como aprendeu algumas das suas Línguas, tendo-se tornado naquilo a que os Índios chamavam, “O homem branco bom”! Palmilhando, com a ajuda dos seus novos amigos, o território amazónico, contribuiu para o nosso enriquecimento sobre aquelas populações, os animais e as plantas que não conhecíamos, novos “fármacos” que os indígenas usavam, (dados pela MÃE- NATUREZA,) usos, costumes e tradições de gentes diferentes, culturalmente rudimentares mas muito ricos! Ao mesmo tempo, descobriu novos cursos de água ligados ao RIO AMAZONAS, dos quais o RIO TAPAJÓS é um exemplo; desbravou terrenos e florestas até, nomeadamente, ao sítio onde hoje está situada a cidade de QUITO, capital do EQUADOR… E,se não fosse ele em conjunto com índios amigos e alguns militares portugueses, o Brasil não seria hoje dono de quase 70% do território amazónico! Os nossos irmãos do BRASIL nunca esqueceram a grandiosidade deste homem! Lembrado, através dos séculos, das mais diversas formas, ainda este ano o SENADO do país irmão convidou o autarca de CANTANHEDE para lá ir receber um prémio, relembrando PEDRO TEIXEIRA! A História de PORTUGAL está em dívida com ele! (quase nunca!)- damos valor a quem nos engrandece com feitos notáveis, que outros povos reconhecem e nós não sabemos aproveitar. Lembra-o CANTANHEDE, com a sua estátua no Largo…lembram-no os brasileiros, homenageando-o através dos séculos…Esqueceu-o a História de PORTUGAL da qual não consta, dada a mediocridade de quem a estuda e/ou a esquece! Lembram-se os amigos, de CAPELO E IVENS que desbravaram os territórios africanos, de ANGOLA à CONTRACOSTA? Esta história é mais recente… mais difícil de “fazer de conta que…” até porque esses territórios foram a causa da inveja dos ingleses - OS TAIS NOSSOS VELHOS ALIADOS! - que nos ameaçaram com a guerra, se nós, “portuguesitos de meia tigela”, não lhes déssemos os territórios conhecidos como “MAPA COR-de- ROSA!” Enfim, passemos adiante… Fiquei feliz e mais rica por ter conhecido mais um “herói” de barba dura, que a( nossa história esqueceu) mas que contribuiu para o engrandecimento do BRASIL, no meio de sacrifícios imensos e enriquecedores! DIZ PESSOA: “ Sem o sonho, que é o homem /Senão uma besta sadia7 Cadáver adiado que procria?”

Autora do artigo


Maria Elisa Rodrigues Ribeiro

Bom Natal e Boas Festas!


 

 






GOTAS DE RUMORES

 

 

Rumores do onírico supérfluo ouvem-se no gemer

das doces melodias

                                   entranhadas no anoitecer.

 

 

É muda essa linguagem sem texto,sem sintaxe elegante,

sem regras de pontuação

 que não sejam gotas de água

do tímido riacho a passar...

 

 

Só o coração permite ouvir aquele céu avermelhado,

de quando o Sol avisa o mundo,

                                     de que vai descansar.

 

 

 

Vai para trás dos montes...para longe dos rios e dos mares,

para lá dos rubros horizontes

 onde até os peixes e as sereias

esquecem as rotas

                                  das ondas milenares.

 

 

 

©Maria Elisa Ribeiro

FEV/2020

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

História de Portugal: D.João iii

 

João III de Portugal

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
João III
Retrato de D. João III atribuído a Cristóvão Lopes, baseado em um original de 1552 pintado por Anthonis Mor
Rei de Portugal e Algarves
Reinado13 de dezembro de 1521
11 de junho de 1557
Coroação19 de dezembro de 1521
Antecessor(a)Manuel I
Sucessor(a)Sebastião
 
Nascimento7 de junho de 1502
 Paço de AlcáçovaLisboaPortugal
Morte11 de junho de 1557 (55 anos)
 Paço da RibeiraLisboaPortugal
Sepultado emMosteiro dos JerónimosBelémPortugal
EsposaCatarina da Áustria
DescendênciaAfonso, Príncipe de Portugal
Maria Manuela de Portugal
Manuel, Príncipe de Portugal
Filipe, Príncipe de Portugal
Dinis de Portugal
João Manuel, Príncipe de Portugal
António de Portugal
CasaAvis
PaiManuel I de Portugal
MãeMaria de Aragão e Castela
ReligiãoCatolicismo
AssinaturaAssinatura de João III
Brasão

João III (Lisboa6 de junho de 1502 – Lisboa, 11 de junho de 1557),[1] apelidado de "o Piedoso", foi o Rei de Portugal e Algarves de 1521 até sua morte. Era o filho mais velho do rei Manuel I e sua segunda esposa a infanta Maria de Aragão e Castela, tendo ascendido ao trono apenas contando dezenove anos de idade.

Herdou um império vastíssimo e disperso, nas ilhas atlânticas, costas ocidental e oriental de ÁfricaÍndiaMalásia, Ilhas do PacíficoChina e Brasil. Continuou a política centralizadora do seu pai. Durante o seu reinado, foi obrigado a negociar as Molucas com Espanha, no tratado de Saragoça,[1] adquiriu novas colónias na Ásia — Chalé, DiuBombaimBaçaim e Macau e um grupo de portugueses chegou pela primeira vez ao Japão em 1543, estendendo a presença portuguesa de Lisboa até Nagasaki.

Para fazer face à pirataria, iniciou a colonização efetiva do Brasil, que dividiu em capitanias hereditárias, estabelecendo o governo central[1] em 1548. Ao mesmo tempo, abandonou diversas cidades fortificadas em Marrocos, devido aos custos da sua defesa face aos ataques muçulmanos. Extremamente religioso, permitiu a introdução da inquisição em Portugal em 1536, obrigando à fuga muitos mercadores judeus e cristãos-novos, forçando o recurso a empréstimos estrangeiros. Inicialmente destacado entre as potências europeias económicas e diplomáticas, viu a rota do Cabo fraquejar, pois a rota do Levante recuperava, e em 1548 teve de mandar fechar a feitoria Portuguesa de Antuérpia. Viu morrer os dez filhos que gerou e a crise iniciada no seu reinado ampliou-se sob o governo do seu neto e sucessor, o rei Sebastião de Portugal.

Biografia

João III, enquanto Príncipe Herdeiro, no Tríptico dos InfantesMestre da Lourinhã, 1516.

Nascido em Lisboa, era filho do rei Manuel I de Portugal e de Maria de Aragão, Infanta de Espanha, filha dos Reis Católicos. Na câmara da Rainha, parturiente, Gil Vicente em trajes de vaqueiro representou a sua primeira peça, o Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro.[1] O batismo em 15 de junho foi realizado na capela de São Miguel do Paço da Alcáçova, tendo como padrinho o doge de Veneza, Leonardo Loredan, representado por Pietro Pasqualigo. Foram madrinhas uma tia paterna, a Rainha Leonor, viúva de João II, e a avó paterna, a infanta Beatriz, duquesa de Beja. Nas Cortes a seguir convocadas para 15 de agosto, o príncipe foi jurado herdeiro.

Educado em Latim e nos clássicos pelo bispo de Viseu, o castelhano Diogo Ortiz de Villegas,[1] que morreu em 1519 e depois por Luís Teixeira, que lhe ensinou Direito Civil. O clérigo Tomás de Torres, deu-lhe noções de matemáticaastronomia e geografia, e por João de Menelau aprendeu grego. Teve casa própria após a morte da mãe em 1517. Iria casar com Leonor de Áustria, que depois foi escolhida para terceira mulher do seu pai, apesar de ser noiva destinada ao filho.[1]

Sucedeu em 1521 ao pai, que faleceu no auge do seu poder aos 52 anos de idade, e que reinara 26 anos. João III, aos 19 anos, foi aclamado Rei em 22 de dezembro, no alpendre da igreja de São Domingos. Jovens dominavam então a dinâmica cena europeia: a viúva de seu pai tinha 23 anos, o imperador Carlos V, 22 anos, Francisco I de França, 28 anos, Henrique VIII da Inglaterra tinha 31 anos.

Manteve os mesmos governantes de D. Manuel I: o conde de TaroucaJoão de Meneses; o conde de Vila Nova (hoje Portimão) Martinho de Castelo Branco; o primeiro conde de VimiosoFrancisco de Paula de Portugal e Castro; o segundo barão de AlvitoDiogo Lobo, e António Carneiro, secretário de Dom Manuel desde 1509.

Ascendeu ao trono quando Portugal possuía cidades fortificadas no Norte de África e os seus marinheiros tinham navegado nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, espalhando-se pelas ilhas atlânticas, pelas costa ocidental e oriental de ÁfricaÍndiaMalásia, Ilhas do Pacífico e possivelmente AustráliaChina e Brasil. Destacava-se entre as potências europeias do ponto de vista económico e diplomático, mas o país não chegava a ter um milhão e meio de habitantes. Durante o seu reinado Portugal adquiriu novas colónias na Ásia — Chalé, DiuBombaimBaçaim e Macau.

António MotaFrancisco Zeimoto e António Peixoto chegaram ao Japão sendo os primeiros europeus a visitar este arquipélago. Começou a colonização do Brasil. Ao mesmo tempo deu-se o abandono de algumas cidades fortificadas em Marrocos, como SafimAzamorArzilaAguz e Alcácer-Ceguer,[1] devido ao custos da sua defesa contra os ataques dos xerifes muçulmanos. João III era, no entanto, extremamente religioso, o que o tornou subserviente ao poder da igreja e permeável à introdução da Inquisição em 1536, pois o movimento luterano era já uma realidade europeia. As consequências sociais foram desastrosas, pois provocou insegurança nos cristãos novos, obrigando à fuga muitos mercadores judeus, forçando o recurso a empréstimos estrangeiros.

Com a Inglaterra, intensificam-se as relações comerciais, o mesmo acontecendo com os países do Báltico e Flandres. Teve como amigo e conselheiro António de Ataíde, 1.º Conde da Castanheira, que fez embaixador em Paris e que viria a aconselhar na criação do sistema de Capitanias-hereditárias no Brasil em 1534.

Inicialmente foi tolerante, passando a partir da década de 1540 a ser extremamente religioso e seguindo a política da Contra-Reforma.[2] Isto pode ser explicado pela morte dos seus nove filhos, assim como dos seus irmãosː[2] DuarteFernandoAfonsoIsabel e Beatriz.

Reavaliação do Império

Herdou "um império vastíssimo mas demasiado disperso", de modo que o reavaliou com ajuda de conselheiros, abandonando o projeto imperial de seu pai. O novo homem forte dos assuntos relativos à expansão marítima passou a ser Vasco da Gama,[1] que se incompatibilizara com Manuel I e fora nomeado em 1524 vice-rei da Índia, onde morreu.

Em 1541, um acontecimento precipitou a sua decisão, pois perdeu Santa Cruz de Cabo de Gué. Os xerifes do norte da África em 1518 haviam proclamado a guerra santa contra o infiel, apoderando-se em 1524 de Marraquexe (em 1549, finalmente, retomaram Fez). Cercaram Safim em 1533, forçando o rei João a abandonar Azamor, Safim, Alcácer Céguer, Arzila. Havia ao mesmo tempo crise no estado da Índia, descrito como «um conjunto de territórios, estabelecimentos, bens, pessoas e interesses, administrados, geridos ou tutelados pela Coroa portuguesa no Oceano Índico e mares adjacentes ou nos territórios ribeirinhos, do cabo da Boa Esperança ao Japão» (Luiz Filipe Thomaz). No Índico surgira o perigo otomano, estimulando os chefes locais a lutarem contra os portugueses. Pacém e Calecute foram abandonados. Economicamente a rota do Cabo começava a fraquejar, pois a rota do Levante recuperava lentamente. Em 1548, João III mandou fechar a feitoria de Antuérpia. Havia concorrência castelhana no Extremo Oriente e Pacífico mas o maior perigo vinha de outras potências como a França.

Foi, entretanto, um rei que geriu muitas crises — a financeira, pois no seu reinado as despesas ordinárias da Coroa incluíam tenças, moradias, benesses pias, ordenados, obras públicas, universidade, obras em Belém e em Tomar, houve dotes a pagar, a compra do arquipélago do Maluco, socorros às praças do Norte da África, as armadas à Índia, a defesa das costas do Brasil e África, a aquisição de trigo nos anos maus. Crise política, pois seu reinado assistiu à emergência de duas potências, a Espanha de Carlos V e o Império Otomano, que tomou Buda e cercou Viena em 1529. A tudo isto acrescente-se a proliferação da peste, maus anos agrícolas, instabilidade meteorológica e até o grande terremoto de Lisboa em 26 de janeiro de 1531. Como governante coube-lhe a gestão de várias crises: crise financeira, ameaça protestante, perigo turco, concorrência espanhola, francesa e inglesa no império, crises no estado da Índia, peso da vizinhança demasiado forte de Carlos V.

João III preocupou-se efetivamente com o pleno domínio do Brasil, que dividiu em capitanias-donatárias, as conhecidas capitanias hereditárias, estabelecendo um governo central em 1548. "Foi o verdadeiro criador do Brasil, que rapidamente se tornou o elemento fundamental do império português, assim o sendo até o início do século XIX" (Paulo Drumond Braga, op. cit, pg 145).

Panorama do reinado

Mapa do Império Português no reinado de João III

Houve, sem dúvida, renovação cultural no seu reinado, preponderante na afirmação do renascimento português. Na literatura surgiu não apenas Camões, mas também Garcia de ResendeSá de MirandaBernardim RibeiroJoão de Barros. Na matemática e astronomia, surgiu Pedro Nunes, na botânica Garcia da Orta, nas artes plásticas e arquitetura Francisco de HolandaMiguel de ArrudaJoão de Castilho. Destacam-se ainda outros nomes no reinado de João III, como André de ResendeDamião de GóisJoão de RuãoNicolau de ChantereneLuís Vives, e António de Mariz, notável impressor régio da Universidade de Coimbra. Erasmo de Roterdão dedicou uma das suas obras a João III e o rei teria pensado em contratá-lo para professor da universidade de Coimbra, transferida para esta cidade, definitivamente, em 1537. No seu reinado, a conselho de Diogo de Gouveia, criou numerosas bolsas de estudo no estrangeiro, enviando cerca de 300 bolseiros para França,[3] e fundou o Real Colégio das Artes e Humanidades em Coimbra. Foi também o responsável pela vinda dos missionários Jesuítas, uma ordem recém formada, que teria um papel determinante no contexto do padroado português em todo o império português.

João III era, no entanto, extremamente religioso, o que o tornou subserviente ao poder da igreja e permeável à introdução da Inquisição em 1536. As consequências económicas e sociais foram desastrosas, pois provocou insegurança nos cristãos novos, obrigando à fuga muitos mercadores judeus e forçando o recurso a empréstimos estrangeiros.

Continuou a política centralizadora e absolutista do seu pai, convocando apenas três cortes, uma por década: 1525, 1535 e 1544. Apesar do mecenato das ciências e artes, a estagnação caracterizou o reinado de João III e ampliou-se no reinado do seu neto e sucessor, o rei Sebastião de Portugal.

Afirma-se que a sua alegada neutralidade era, na verdade, política de apoio ao cunhado, o imperador Carlos V, e que teria mesmo pensado em uma união ibérica, o que é indefensável face às teorias atuais. Sempre desejou claramente a independência de Portugal, pois jamais fechou as portas à França, à Inglaterra e até à Polónia. Foi, entretanto, um rei que geriu muitas crises -- a financeira, pois no seu reinado as despesas ordinárias da Coroa incluíam tenças, moradias, benesses pias, ordenados, obras públicas, universidade, obras em Belém e em Tomar, houve dotes a pagar, a compra do arquipélago das Molucas, socorros às praças do Norte da África, as armadas à Índia, a defesa das costas do Brasil e África, a aquisição de trigo nos anos maus. Crise política, pois o seu reinado assistiu à emergência de duas potências, a Espanha de Carlos V e o Império Otomano, que tomou Buda e cercou Viena em 1529. Tudo isso no meio de proliferação de peste, maus anos agrícolas, instabilidade meteorológica, e até o grande terremoto de Lisboa de 26 de janeiro de 1531.

Estátua de João III em Coimbra.

Adoeceu após 1550, e teve grave doença perigosa em 1555. Morreu dois anos depois de acidente vascular cerebral, ou apoplexia, em Lisboa, estando sepultado no Mosteiro dos Jerónimos.

Psicologicamente, foram características pessoais a sua enorme bondade, a lentidão na tomada de decisões, a dissimulação no relacionamento com os súbditos ou como arma diplomática, a piedade (recebeu do papa em dezembro de 1525 a 'rosa de ouro'). Filho de um génio político, Manuel I, foi neto de dois outros, os Reis Católicos de Espanha.

A sua imagem foi atacada no século XIX, acusado por Alexandre Herculano de homem medíocre, inábil, fanático, "inábil para governar por si próprio". Defendido por uma biografia importante escrita em 1936 por Alfredo Pimenta, acrítico, visões menos apaixonadas surgiram na década de 1960 em textos de Joaquim Veríssimo SerrãoBorges de MacedoSilva Dias e Romero de Magalhães.