terça-feira, 19 de setembro de 2017

Do nosso Ramalho Ortigão..

















De Ramalho Ortigão (1836-1915), In O Citador:

"Grandes Homens Forjam-se a si Próprios
Para conhecer a realidade do mundo, único fim sério da ciência, é preciso entrar no combate da vida como entravam na liça os paladinos bastardos - sem pai e sem padrinho. Os príncipes não constituem excepção a esta lei geral da formação dos homens. Da educação de gabinete, do bafo enervante dos mestres, dos camareiros e das aias, nunca sairam senão doentes e pedantes.
Na sagração dos czares há uma cerimónia de alta significação simbólica: o imperador não se confirma enquanto por três vezes não haja descido do trono e penetrado sozinho na multidão; e isto quer dizer que na convivência do povo a autoridade e o valor dos monarcas recebe uma tão sagrada unção como a da santa crisma. Todos os reis fortes se fizeram e se educaram a si mesmos nos mais rudes e mais hostis contactos da natureza e da sociedade humana.
Veja vossa alteza Carlos Magno, que só aos quarenta anos é que mandou chamar um mestre para aprender a ler. Veja Pedro o Grande, do qual a educação de câmara começou por fazer um poltrão. Aos quinze anos não se atrevia a atravessar um ribeiro. Reagiu enfim sobre si mesmo pela sua única força pessoal. Para perder o medo aos regatos, um dia, da borda de um navio, arrojou-se ao mar. Para se fazer marinheiro começou por aprender a manobrar, servindo como grumete. Para se fazer militar começou por tambor na célebre companhia dos jovens boiardos. E para reconstituir a nacionalidade russa começou por construir navios, a machado, como oficial de carpinteiro e de calafate, nos estaleiros de Sardam. Também não teve mestres, e foi consigo mesmo que ele aprendeu a lingua alemã e a lingua holandesa. Veja vossa alteza, enfim, todos aqueles que no
governo dos homens tiveram uma acção eficaz, e reconhecerá se é na lição dos mestres ou se é no livre exercicio da força e da vontade individual que se criam os carácteres verdadeiramente dominadores, como o de Cromwell, como o de Bonaparte, como o de Santo Inácio, como o de Lutero, como o de Calvino, como o de Guilherme o Taciturno, como o de Washington, como o de Lincoln.

Ramalho Ortigão, in 'As Farpas (1883)'

Do nosso Miguel Esteves Cardoso

Textos de autores portugueses, porque Ler Faz Bem!
(De Miguel Esteves Cardoso)
"Ser Português é Difícil
Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra coisa».
Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal «podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.
Ser português não é nem a sorte com que sonhamos (não queriam mais nada — nascer logo uma coisa boa!) nem o azar com que vamos azedando. Ser português é um «jeito que se aprende». Não é coisa que vá à bruta ou à má fila. Não é bem que vá a bem (precisa de ser ajudado), mas também não é mal que vá à bruxa. Ser português não é tanto ser feito à imagem de Deus, como os outros povos (todos eles felizes), como estar, à partida, «feito». Cada vez que nasce um ser humano e olha para o bilhete de identidade e verifica que calharam os pedregulhos e os pêsames da portugalidade, diz logo “Pronto — estou feito — sou português”. Devia ter juízo. A única coisa que o absolve é ter, também, razão.
Ser português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria «existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo, os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo. Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do “Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».
Os políticos dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar» Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo) não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar» Portugal.
Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua!
Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'

El País
20 h ·


As notas foram apareceram nas casas de banho de um banco e três restaurantes

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El misterio de los inodoros suizos atascados con billetes de 500 euros
La policía investiga la procedencia de enormes masas de papel moneda triturado en los desagües de un banco y varios restaurantes
ELPAIS.COM


Antonio Cerveira Pinto
5/7 · PÚBLICO ·



Num país em que 40 mil militares estão entregues a 253 generais, ou seja, 158 militares por general (!!!), e onde acima dos generais mandam políticos da treta, só pode dar nestas coisas que deveriam envergonhar qualquer um de nós, mas não envergonham...


El País arrasa Portugal por causa de Tancos
Artigo do correspondente em Lisboa ridiculariza as condições de segurança no quartel assaltado na passada semana.
PUBLICO.PT

Intereconomía - Instant Articles ·



Ahí lo tienen al Nota dando lecciones.
Qué país este en el que vivo.
Ver Tradução


Tejero: 'Exijo un juicio comparativo entre el 23-F y lo que está ocurriendo en Cataluña'
La carta de Tejero, el l hombre que paralizó España hace casi cuatro décadas y que hoy reclama la misma firmeza judicial para Puigdemont.
GACETA.ES

Poema:OBRA REGª

















Poema:

QUANDO A PROSA ME INVADE A POESIA
(O OLHO DA MEMÓRIA)

Ficou, na memória, um olho a piscar às luzes das recordações registadas entre velhas folhas do impoluto rascunho, que considero ser a primeira página, em directo, do Passado-que-hoje-é-Presente.

Nos meus dias me sento --------nos meus sonhos medito a vibração da árvore interior, onde guardo a vida das coisas que não consigo ler --------porque as palavras cheiram apenas a ti, e só de ti se recordam,
na luz dourada das folhas que tremem, e no vento constante que persiste em recordar todas as histórias, que nem de memória vivemos…

No persistente sol-posto de todos os pores- do- sol existentes, viro a página da insuportável lista do índice de lembranças que foram passando por nós, quais cavalos galopantes a saltarem águas frescas dos dias escuros- sem uma sombra de literatura, que pudesse refrescar a colina da nossa inclinada vida.

A poeira dos tempos
_________________vai ficando para trás,
________________________________dentro de nós…

Tu vais ficando
para trás,
---------- dentro de mim…

_____________________________________Ambos vamos ficando tristes…assim…

________________________________As lembranças, no olho da memória,
_________________________________________ vão, igualmente,
__________________ficando para trás…lá-Longe…mesmo que dentro de nós.

Pelo horizonte, passa um rasto de Primavera, num sulco de azul-mar que atordoa a mão de um poeta, que teima em desbravar teias de orvalho das palavras, que vieram para ficar.

As maçãs e as pêras do Outono apodrecem nos dias cada vez mais velhos e cansados, como se sofressem a dor de trabalhos forçados.
As uvas, essas não precisam de ter memórias…Aparecem do nada…chegam na hora certa, escondidas nas ramas das vinhas, nos socalcos e nos campos. O seu perfume fica, de ano para ano, nas papilas gustativas de um poema, que já não tem idade…
como BACO,
aliás, engrinaldado de mosto que o leva pela vida fora, sem que tenha que recorrer ao olho da Memória…

Maria Elisa Ribeiro-Portugal

Agosto /2016

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Boa noite, amigos!


POEMA de Pier Paolo PASOLINI









Os primeiros que se amam — Pier Paolo Pasolini

Os primeiros que se amam
são os poetas e os artistas da geração anterior,
ou do início do século; eles ocupam
em nosso espírito o lugar do Pai, tornando-se,
no entanto, jovens como fotografias amareladas.
Poetas e artistas para os quais não havia
vergonha alguma em ser burguês.
Filhinhos de papai.
Roupas pobres com sabor de Rebelião e de Mãe.
Poetas e artistas que se tornariam famosos
lá pela metade do século,
ao lado de algum desconhecido amigo de grande talento,
mas impotente para a poesia, por covardia talvez
(os verdadeiros poetas morrem jovens).
Calçadas de Viareggio ou de Viena! Cais
de Florença ou de Paris!
Os fatos ecoando nos passos das crianças
que calçam botas pesadas.
Os ventos da desobediência têm perfume de cíclame
sobre as cidades aos pés dos poetas jovens.
Os poetas jovens que falam e falam
depois de alguns copos de cerveja,
independentes, livres como a pequena burguesia
— locomotiva abandonada, mas ardente,
por certo tempo obrigada a apreciar
a lentidão da juventude: (CONTINUA)

DE ITALIA..

O Governo suspendeu o aterro do lixo importado de Itália que chegou a Portugal há cerca de um mês. Estas imagens do lixo foram captadas pela empresa ...
RTP.PT

DE ITALIA...


O primeiro-ministro italiano acusa Bruxelas de estar a perder os valores que estiveram na base da União Europeia.
RTP.PT



noticia de hace 3 horas
Ver Tradução


Enfrentamientos con policías en Ucrania por las niñas quemadas vivas en un campo de recreo (VIDEO)
La tragedia ha sucedido en las afueras de la ciudad balneario de Odesa y puede estar relacionada con la negligencia de los funcionarios responsables de las…
ACTUALIDAD.RT.COM

Sobre a UKRÃNIA...



(COMO O LESTE DA UKRANIA ESTÁ NOVAMENTE EM CRESCENDO, LEMBRAR TEMPOS PASSADOS É CONVENIENTE)

"....., Não me venham, por favor, com declarações de amor à integridade territorial alheia. É absolutamente aceitável negociar uma solução que dê ao povo da Crimeia o direito de fazer a mesma escolha que outros fizeram. E há muitíssimo mais razões históricas, culturais e económicas para a Crimeia se separar da Ucrânia do que o Kosovo alguma vez teve para se separar da Sérvia. Começando por esta: a Crimeia só é ucraniana porque, há 60 anos, um líder do PCUS assim o decidiu, oferecendo-a, como se de um objeto se tratasse, em celebração do terceiro centenário da unificaçãoda Rússia com o seu vizinho. E só continuará a ser ucraniana se for forçada a isso."
.........,


Do Kosovo à Crimeia
Todas as notícias que marcam a actualidade ao minuto, no seu jornal Expresso.
EXPRESSO.SAPO.PT

RESERVADOS OS DIREITOS DE AUTOR














POEMA

TENHO TEU CORPO A REPOUSAR NOS MEUS ANOS…

Consigo reconhecer teu corpo estendido nos meus anos…


________Sem o ver, passo a mão pelos contornos desprevenidos
________________que foram parte importante das nossas vidas.

Assim, é como se nada se tivesse perdido entre nós,
quando
te chegas para perto de mim, sempre que te espero.
Nos ouvidos, como flor banhada pelo orvalho da manhã,
tenho a sensação dos teus lábios molhados…
No ventre macio, à espera de florir, sinto que passam
tuas mãos, com o seu quê de atrevido…

A boca sabe-me ao tempo passado, àquele tempo vivido
em que , para nós ,nada soava a pecado…
Nas mãos, sinto ainda os teus cabelos desgrenhados,
pouco ou nada preocupados com as brisas do meu fulgor…

O furor do Tempo, preocupado em andar depressa,
não apagou o teu belo sorriso,
escondido sob um bigode espesso prateado insubmisso

Recordo o místico halo,
que vibrava à tua volta,
quando o fogo do desejo,
me deixava quase morta.

Aos pés de todos nós corre um oculto rio,
que nos vai atravessando a vida e massacrando a memória,
enquanto percorre os lugares de júbilo
por onde deambulámos(às vezes completamente parados),
a fazer a nossa história…

Fizemos tantos versos de amor, sem nada escrever, sem falar,
apenas a olhar para os nossos olhos acesos, com um fogo
[ que ardia sem se ver]

Por isso, continuo a ver teu corpo estendido nos meus anos,
a viver os meus poemas…só…entre as minhas próprias mãos…
….os anos idos como águas correntes…o meu Passado…

Por isso, reconheço também, na memória, os teus sussurros
labirínticos como pedaços de magma, a acordar incêndios
[numa paisagem desprotegida]

Porém, entre a noite de Hoje e a Outra-de-Outrora,
ficaram os dias que preencheram de luz a memória…
…a memória, apenas…
Resignada, reconheço somente a Imagem
do teu corpo
estendido nos Anos-de-Outrora…Agora…

Maria Elisa Ribeiro
SET/2015

De ITALO Calvino...



De Italo Calvino, in Net:

A Distância Entre Gerações
A solução de continuidade entre as gerações depende da impossibilidade de transmitir a experiência, de fazer evitar aos outros os erros já cometidos por nós. A verdadeira distância entre duas gerações é dada pelos elementos que têm em comum e que obrigam à repetição cíclica das mesmas experiências, como nos comportamentos das espécies animais transmitidos pela herança biológica; ao passo que os elementos da verdadeira diversidade existente entre nós e eles são, pelo contrário, o resultado das modificações irreversíveis que cada época traz consigo, ou seja, dependem da herança histórica que nós lhes transmitimos, a verdadeira herança de que somos responsáveis, mesmo que por vezes o sejamos de forma inconsciente. Por isso não temos nada a ensinar: sobre aquilo que mais se parece com a nossa experiência não podemos influir; naquilo que traz o nosso cunho, não sabemos reconhecer-nos.


Italo Calvino, in "Palomar"

Bom dia!



Bom Dia, meus amigos, e boa semana!

Foto Pinterest

domingo, 17 de setembro de 2017

Do GRANDE F.PESSOA






Não Digas Nada!
Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

DE PESSOA...



De Fernando Pessoa, in Net:

Conselhos de Vida
1 - Faça o menos possível de confidências. Melhor não as fazer, mas, se fizer alguma, faça com que sejam falsas ou vagas.
2 - Sonhe tão pouco quanto possível, excepto quando o objectivo directo do sonho seja um poema ou produto literário. Estude e trabalhe.
3 - Tente e seja tão sóbrio quanto possível, antecipando a sobriedade do corpo com a sobriedade do espírito.
4 - Seja agradável apenas para agradar, e não para abrir a sua mente ou discutir abertamente com aqueles que estão presos à vida interior do espírito.
5 - Cultive a concentração, tempere a vontade, torne-se uma força ao pensar de forma tão pessoal quanto possível, que na realidade você é uma força.
6 - Considere quão poucos são os amigos reais que tem, porque poucas pessoas estão aptas a serem amigas de alguém. Tente seduzir pelo conteúdo do seu silêncio.
7 - Aprenda a ser expedito nas pequenas coisas, nas coisas usuais da vida mundana, da vida em casa, de maneira que elas não o afastem de você.
8 - Organize a sua vida como um trabalho literário, tornando-a tão única quanto possível.


Fernando Pessoa, in 'Anotações de Fernando Pessoa, em inglês (sem data)'

Pessoa por Júlio Pomar, in Google

Bom Domingo, meus amigos!






"É a isto que vocês chamam 'Cinéma Verité'? Tudo é falso. Ou quase tudo. Eu não sou assim. Nem me visto assim. Quando fico em casa todo o dia, ando de pijama e de roupão." O cinema-olho persegue Jacques Derrida, filósofo francês, 73 anos, de quem durante mais de 20 anos não se conheceu o rosto. "Tive sempre objecções ideológicas em relação à fotografia convencional do autor", disse um dia. Mas acedeu a ser filmado durante cinco anos para um documentário sobre si e o seu pensamento - "Derrida", de Amy Ziering Kofman e Kirby Dick, será hoje exibido na Culturgest, em Lisboa. E na próxima segunda-feira Derrida estará em Coimbra para participar no colóquio internacional sobre o seu pensamento.

Derrida é um dos filósofos mais importantes do século XX, "pai" do desconstrucionismo, pensamento que influenciou a literatura, a filosofia e a ética contemporâneas. Nasceu em 1930, na Argélia, numa família de judeus. Aos 19 anos, mudou-se para Paris para estudar filosofia alemã (Husserl e Heidegger). Em 1956, ganhou uma bolsa de estudo em Harvard. Leccionou na Sorbonne, Paris, nos anos 60, e começou a publicar livros. É professor da Universidade da Califórnia desde 1986.
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Há várias obras suas traduzidas para português, como "A Voz e o Fenómeno" (Edições 70), "De um Tom Apocalíptico" (Vega) ou "O Monolinguismo do Outro" (Campo das Letras).

Com música original do compositor japonês Ryuichi Sakamoto, o documentário de Dick e Kofman (este último estará hoje em Lisboa) acompanha Jacques Derrida de 1995 a 2000. Começaram por filmar conferências em universidades (Califórnia, África do Sul, Austrália) e, em 2000, voltaram a Paris para filmar a vida quotidiana do filósofo e propor-lhe uma reflexão sobre a experiência de ser filmado.

Kofman conta (no "site" sobre o filme) que descobriu a escrita de Derrida numa livraria, quando tinha 16 anos. Mais tarde, numa conferência em Los Angeles, em 1994, propôs-lhe fazer este documentário. Mas o filósofo estava relutante - outros tinham tentado, em vão.

Numa entrevista ao semanário norte-americano "L.A. Weekly", em Novembro de 2002, Derrida explicou porquê: "Tive sempre um grande desconforto em relação à minha imagem em fotografias. Consegui publicar durante 20 anos sem aparecer nenhuma imagem nos meus livros." Até aos anos 70, recusou-se a ser filmado e fotografado. Quando se envolveu em manifestações de carácter político, de maior visibilidade, a imprensa acabou por captar a sua imagem. Num jornal francês, apareceu uma fotografia de Michel Foucault que o identificava como Derrida. O filósofo apercebeu-se de que a voracidade da imagem se tornara incontrolável: "Se vão publicar a minha imagem, que seja a correcta", disse.

"Nunca consegue esquecer a câmara?", pergunta Amy. "Quando começo a esquecer, há um problema técnico", responde Derrida, seco. E graceja: "Ela vê tudo, ela é cega, como o filósofo que cai no poço enquanto olha para as estrelas."

O que esconderá Derrida?

"O que tem a dizer sobre o amor?", pergunta novamente a realizadora. "Não tenho nada a dizer sobre o amor", responde Derrida, prontamente. "Preciso que me coloque uma questão concreta." Hesita. Navega pelo não-dito. Começa a filosofar. Formula hipóteses, analisa os dados, conclui.

"O desafio era deixar a vida e o pensamento de Derrida interagir sem serem usados para se 'explicarem' entre si", diz Amy Kofman. "O filme nunca é didáctico. Tenta que o espectador faça parte do trabalho, que é afinal o objectivo da 'desconstrução'. Se chegar ao filme sem saber o que é a 'desconstrução', o espectador acabará por fazer o próprio trabalho de 'desconstrução', simplesmente por interagir com as questões que o filme coloca."

sábado, 16 de setembro de 2017

Boa noite, meus amigos!











Poema publicado na colectânea "Palavras de Cristal", de "MODOCROMIA EDITORES"--(VOLUME???)

ESCREVO TEU CORPO

Ouço ainda o aroma das rubras pétalas
da noite,
que repousou a teu lado.

São memórias que estão guardadas
no imaculado silêncio do púrpuro cortinado,
enrubescido,
onde permanece o vulto de sermos-um-no-outro.

Adormeço embalada nelas,nessas rosas da lembrança
cujo odor está na vidraça...

Reescrevo o prazer desse tempo,
no leito dos dias,
quando oiço o lamento das cotovias.

Pelos dedos perpassa a ilusão da tua face,
que afaguei,
em secretos atalhos onde me escondi...

Acordo sempre-em-ti,
nos lábios de um sol que sorri,
quando entra pelo cortinado , afogueado...

Depois
...escrevo teu corpo...
...descrevo teu toque
e é com o brilho de teus olhos
que me tapo a nudez...

Na vertente da verde colina-paisagem bucólica!-
um pastor sobe o atalho
com a precisão da normal peregrinação
para o pasto do rebanho...

Tudo é lindo e tudo é vida de brancos, lilases e azuis!
Tudo é sol a sorrir aos charcos e aos ribeiros!

E dentro de mim há um desejo premente de voar
para um infinito-morrer-a-viver-em-ti!

Sinto teus braços-segredo...
...um sopro na minha face...
...um olhar que embriaga, na inquietude da calma...

E minhas pétalas rubras, brancas e de qualquer outra cor,
perdem-se no âmago do teu corpo, amor!

E se o vento fustigar,
eu nem sequer vou ouvir!

Não quero que o teu respirar se confunda com outro rumor...

Maria Elisa Ribeiro-013-Portugal

Bom fim de semana, meus amigos!


sexta-feira, 15 de setembro de 2017






À medida que os anos passam, que nos aproximamos do fim, tudo volta de repente a ter um valor acrescido. Há uma idade em que o tempo não tem idade, ou melhor, tem outra idade.
Não sei o que fiz às tuas cartas, já nem sei mesmo se chegaste a escrever-me. Acho que sim. Lembro-me agora das cartas compridas que lia a intervalos, para delas tirar um maior prazer. Falavas-me de saudade, do medo que essa lonjura te causava, receio que esse longe se transformasse numa distância insuperável...
Vivíamos paredes meias com uma guerra indesejada e, como todas as guerras, castradora, capaz de marcar uma geração para o resto da vida. Agora, a esta altura das nossas vidas é tudo tão confuso, tão distante que não me parece estar a falar de nós, do nosso passado, mas sim de outras vidas, de resultados de leituras em longas noites de Inverno. Estranho não é? Naquele tempo, a ilusão era superior à dúvida e ao medo, era aquilo que nos dava vontade para continuar depois de confrontados com os despojos que víamos à nossa volta, era essa ilusão que curava as nossas feridas. Agora, ter ilusões ou sequer passar perto delas é quase um crime, é com certeza uma rematada loucura.
As coisas que nos acontecem nunca são definitivas, gratuitas. Cada momento tem um significado. A compreensão de nós mesmos nasce da disponibilidade em aceitá-los. Sabes, só agora que o tempo não tem idade, é que eu sou capaz de entender os muitos porquês que a vida foi semeando no meu caminho e aceitar muitas das provações que não desejei e não compreendia porque me aconteciam.
Não estou resignada nem parei literalmente de lutar, mas tenho de admitir que alguns dos sentimentos foram esmorecendo ou desapareceram mesmo, para dar lugar a outros. Aquela ânsia de querer abarcar tudo o que desejamos a um só tempo, deu lugar ao apreço que se põe em cada momento, em cada afecto que se conquista. Já não se corre atrás dum sonho sem hesitar apenas porque naquele momento é aquilo que nos faz feliz, ou pelo menos estamos convencidos disso, mas por razões diferentes. Antes e agora devemos continuar a agir como se o nosso tempo não fosse muito e devêssemos tirar dele o melhor partido.
Sempre me perguntei como seria se nos encontrássemos noutro tempo, (sempre ele – o tempo), já que por ora criou para nós uma barreira e transformou a semente do afeto em algo que está longe de ser uma sensação confortável (...)
Vivamos, por conseguinte, o Tempo -que-o-tempo-determinar, sabendo, antecipadamente, que todos "atravessaremos" o rio

Jorge Castilho está com Salvador Massano Cardoso e 49 outras pessoas.
9 h · Coimbra, Coimbra District ·



30 ANOS DO JORNAL DE COIMBRA - 28 ANOS DA RJC/TSF

No próximo dia 30 do corrente mês de Setembro completam-se 30 anos sobre o dia em que foi publicada a primeira edição do Jornal de Coimbra (a imagem mostra a primeira página dessa primeira edição).
Como sabem, o Jornal de Coimbra esteve também na origem da candidatura às rádios locais (juntamente com a TSF e O Despertar), de que viria a resultar a RJC - TSF Coimbra, que iniciou as emissões em Novembro de 1989 - vão completar-s...Ver Mais


De David Mourão-Ferreira (1927-1996). in Pesquisa Net:

Do Tempo ao Coração


E volto a murmurar Do cântico de amor
gerado na Suméria às novas europutas
Do muito que me dás ao muito que não dou
mas que sempre conservo entre as coisas mais puras


De uma genebra a mais num bar de Amsterdão
a não perder o pé numa praia da Grécia
De tantas tantas mãos que nos passam pelas mãos
a tão poucas que são as que nunca se esquecem

De ter visto o começo e o fim da Via Ápia
De ter atravessado o muro de Berlim
De outros muros que não aparecem no mapa
De outros muros que só aparecem aqui

ao barro deste céu que te modela os ombros
ao sopro deste céu que te solta o cabelo
ao riso deste céu que vem ao nosso encontro
quando sabe que nós não precisamos dele

Da pertinaz presença E da longevidade
do corvo do chacal do louco do eunuco
ao rouxinol que morre em plena madrugada
à rosa que adormece em caules de um minuto

Do que foi noutro tempo a saúde no campo
à lepra que nos rói a paisagem bucólica
Do tempo ao coração minado pelo cancro
Dos rins ao infinito incubado na cólera

Do tempo ao coração mas com pausa na pele
como «Roma by night» entre dois aviões
como passar o Verão numa vogal aberta
como dizer que não que já não somos dois

Dos rins ao infinito A este que não outro
Ao que rola dos rins Ao que vai rebentar-te
na câmara blindada e nocturna do útero
E nos transfere o fim para um pouco mais tarde

Da curva de entretanto à entrada do poço
De soletrar em mim a ler nas tuas mãos
como é rápido e lento e recto e sinuoso
o percurso que vai do tempo ao coração.

David Mourão-Ferreira, in “Obra Poética”