O mais antigo fragmento do Novo Testamento terá estado escondido numa múmia
LUCINDA CANELAS
01/02/2015 - 10:06
Cientistas terão encontrado numa máscara funerária com 2000 anos um excerto do Evangelho de S. Marcos, que agora dizem ser o mais antigo do mundo. Será? E justifica-se destruir uma antiguidade egípcia para resgatar uma relíquia cristã? Quem decide?
Os evangelistas Marcos e Lucas numa pintura de Matthias Stomer, de cerca de 1635
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O episódio parece ter sido feito à medida de uma cadeira sobre ética e património, concebido como hipótese de estudo para levar os alunos a debaterem os limites da investigação e da intervenção em laboratório. Mas não foi. O secretismo que envolve a descoberta daquele que está a ser apresentado como o mais antigo fragmento do Novo Testamento numa máscara funerária egípcia tem ajudado a alimentar o clima de suspeição à volta do trabalho de uma equipa da Universidade de Acadia, no Canadá, deixando a comunidade científica cada vez mais céptica.
Dizem os especialistas liderados pelo biblista Craig Evans que o excerto do texto, escrito num papiro que, como tantos outros, foi reutilizado para construir a referida máscara, pertence ao evangelho de Marcos e que será uma cópia anterior ao ano 90. A confirmar-se o conteúdo do fragmento e a datação, tratar-se-á de um texto escrito apenas 60 anos depois da morte de Jesus. Até aqui, a cópia mais antiga de um evangelho, com autenticidade confirmada, data do século II (chamam-lhe o Papiro 52, contém um excerto do relato de S. João e pertence à biblioteca John Rylands, de Manchester, escreve o diário espanhol ABC).
Evans e os outros investigadores que já tiveram oportunidade de analisar o fragmento em causa – serão cerca de 40, segundo o mesmo jornal –assinaram um acordo de confidencialidade que os impede de dar pormenores sobre o texto de Marcos encontrado junto a outros papiros e linhos “reciclados” para criar a máscara funerária, feita recorrendo a uma técnica semelhante à da pasta de papel (camadas sobrepostas com cola e pintadas depois de secas). Para já, este especialista no Novo Testamento, citado pelosite de notícias Live Science e pelo diário norte-americano The Washington Post, garante apenas que a datação do fragmento foi feita com base no cruzamento de três métodos: o radiocarbono ou caborno-14, possível porque se trata de um material orgânico (o papiro é uma planta); a análise da escrita (paleografia) e o estudo dos outros documentos usados como matéria-prima nesta máscara que parece feita em papier mâché, alguns deles datados.
Há 2000 anos, explica este investigador do Acadia Divinity College, um centro na Nova Escócia que começou por estar ligado à igreja baptista e que hoje funciona como faculdade de teologia da referida universidade canadiana, só os muitos ricos como o faraó e os que lhe eram mais próximos podiam dar-se ao luxo de encomendar máscaras funerárias em ouro. Para os restantes, que não podiam sequer pagar uma máscara coberta de finas folhas de metais preciosos nem de madeira, a solução passava pela pasta de papel, recorrendo muitas vezes a papiros já usados (o equivalente de hoje seriam, por exemplo, folhas do jornal da véspera), uma vez que também o papiro era um material caro. Foi de uma destas máscaras que os estudiosos tiraram em 2012 – o assunto foi na altura mencionado nalguns sites graças a uma fuga de informação – o tal fragmento do evangelho de Marcos, de que não há ainda qualquer imagem divulgada, assim como centenas de outros textos gregos, cartas pessoais, registos de compra e venda e até excertos de poemas de Homero.
“Podemos ter em mãos um fragmento de Marcos do século I pela primeira vez na História”, disse Evans ao falar da descoberta, mas sem avançar detalhes sobre o conteúdo do excerto que deverá ser publicado até ao fim deste ano, naquele que será o primeiro volume a reunir textos retirados da máscara funerária que, no processo, acabou por ser destruída.
Era preciso destruir?
Esta destruição é apenas mais uma acha para o debate que envolve biblistas, historiadores, arqueólogos, paleógrafos e outros cientistas. Quem decide o que é mais importante, se uma antiguidade egípcia se uma relíquia cristã? E justifica-se abdicar irremediavelmente de algo com 2000 anos para recuperar textos cujo conteúdo se desconhece? E não havia outros métodos à disposição que permitissem ler os textos sem destruir o artefacto?
Mesmo que a máscara funerária em causa pertença a privados, como aqui, estas e outras questões são pertinentes, defendem os que criticam os métodos usados pela equipa de Craig Evans. Estes académicos temem, por exemplo, um efeito multiplicador que pode vir a alimentar o tráfico de antiguidades. E se, obcecados pela possibilidade de virem a descobrir documentos relevantes, os coleccionadores destes artefactos começarem a destruí-los? E se, aumentando a procura destas máscaras de papiros reciclados em lojas de antiguidades e leiloeiras, dispararem os saques a túmulos e pequenos museus um pouco por todo o Egipto?
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