terça-feira, 3 de fevereiro de 2015


Coordenador da candidatura da Arrábida arrasa relatório da Unesco


FRANCISCO ALVES RITO

02/02/2015 - 09:38


José Carlos Kulberg, cientista que elaborou dossier de candidatura aos critérios naturais, diz que peritos da Unesco revelam ignorância total.O cientista conclui que os peritos “não compreenderam o fundamento da relevância da Geologia da Arrábida" BRUNO SIMÕES CASTANHEIRA




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O geólogo José Carlos Kullberg, coordenador da equipa técnica que elaborou o dossier do Critério VIII (Geologia e Geomorfologia) da candidatura da Arrábida a património da Humanidade, apresentada à Unesco em Fevereiro de 2013, arrasa o relatório da União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN) no que respeita a este critério.

E refere que colegas de equipas responsáveis por outras áreas têm posição idêntica sobre as suas áreas. O dossier da Arrábida incluiu a candidatura a um total de seis dos dez critérios da Unesco e, dos seis apresentados, três são culturais e os outros três naturais. A avaliação dos primeiros é da responsabilidade do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) e, dos segundos, da IUCN.

O parecer que estas duas entidades internacionais elaboraram para a Unesco, e que levou à retirada da candidatura portuguesa em Maio de 2014, conclui que a serra da Arrábida não é “única, nem excepcional” e “não exibe características de relevância internacional”.

Conclusão que José Kullberg não aceita, contesta cientificamente no critério de que foi responsável e considera reveladora de “ignorância total” dos avaliadores sobre o valor geológico da Serra. Em declarações ao PÚBLICO, o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa diz que a forma como os peritos internacionais colocam algumas questões “ofende a inteligência” dos especialistas e chega a ser atentatória da sua honorabilidade cientifica e técnica.

“Os peritos não leram a bibliografia que sustenta cientificamente o relatório apresentado”, começa por apontar o geólogo, especificando um exemplo. “O nome que dão à bacia sedimentar na qual se incluem a maior parte das rochas da Arrábida é Portuguese Occidental Basin quando o nome científico internacionalmente consagrado na bibliografia é Lusitanian Basin - nome comummente usado nos títulos de dezenas de referências bibliográfica que se encontram no relatório de candidatura”.

Outro exemplo de que os peritos não terão lido o relatório com o mínimo de cuidado e rigor tem a ver com a actualidade da bibliografia. Os revisores científicos dizem que a fundamentação científica dos valores geológicos descritos como excepcionais e, muitas vezes únicos, se reporta a bibliografia da década de 30. Kullberg contesta. “Fazendo uma análise às referências bibliográficas, vê-se que, das cerca de 300 que constam do relatório, só três são dos anos 30 e nem sequer são relativas a este aspecto”, afirma.

“Eu demonstro que a grande maioria das áreas referenciadas como excepcionais estão fundamentas em artigos científicos actuais, publicados, nos últimos dez a 15 anos, em dezenas de revistas de referência internacional, com painéis de avaliação extremamente rigorosos”, garante.

Um dos aspectos essenciais para a determinação do valor geológico da Arrábida é a ocorrência da chamada Brecha da Arrábida. O parecer contesta uma afirmação do relatório da candidatura que aponta esta rocha como única, dizendo que um número incontável de locais no mundo apresenta tipos particulares de rochas. José Kullberg reage: “A Brecha da Arrábida é a única conhecida que testemunha a ocorrência de um conjunto de processos geológicos extremamente raros e improváveis de acontecerem em simultâneo, numa área relativamente pequena e num intervalo de tempo muito curto”. Esta brecha, defende, “regista processos de inversão tectónica durante a abertura de um oceano, o Atlântico Norte, próximo de outro oceano também em expansão na altura, o oceano de Tétis, associado a variações globais do nível do mar”.

O cientista conclui que os peritos “não compreenderam o fundamento da relevância da Geologia da Arrábida, nomeadamente nas fases de abertura do Atlântico Norte, não perceberam que a Arrábida mostra um 'filme' completo de um conjunto de processos, apenas registado na margem sul e ocidental ibérica”. A Tectónica (processos dinâmicos que se desenvolvem num determinado contexto espacial) e a Estratigrafia (que estuda as formas de registo desses processos) constituem o principal sustentáculo do critério VIII na candidatura da Arrábida. Especialidades que, segundo diz, são o “parente pobre e mal reconhecidas em termos de património pela própria Unesco”.

Para concluir, José Kullberg aponta mais um exemplo que classifica como um “disparate total”. Quando contesta que a Arrábida é o testemunho tectónico mais ocidental do conjunto de processos que levaram ao fecho do oceano de Tétis – que resultou no actual Mar Mediterrânico – o relatório dos peritos refere que existem outros testemunhos, por exemplo, no Canadá.

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