"As minhas palavras têm memórias ____________das palavras com que me penso, e é sempre tenso _________o momento do mistério inquietante de me escrever"
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Artigo de Pedro Silva, em "Público"
Na fila para morrer de hepatite C
PEDRO SOUSA CARVALHO
06/02/2015 - 06:54
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Hepatite C. É um assunto em que é fácil ser-se demagógico, que até apetece ser-se demagógico e em que sentimos uma revolta que nos empurra para a demagogia. Mas é um assunto em que devemos pelo menos tentar não o ser. Não quer dizer que daqui a umas linhas não o sejamos. Vamos por partes.
Esta semana, Paulo Macedo foi ouvido no Parlamento a propósito dos problemas nas urgências dos hospitais públicos, depois da morte de sete doentes que supostamente esperaram em demasia para serem atendidos. Como se o assunto em si já não fosse suficientemente confrangedor, o tema acabou por ser abafado por um outro caso, igualmente confrangedor, o da doente do Hospital de Egas Moniz com Hepatite C que morreu, alegadamente, por não ter tido acesso a um medicamento inovador que está a ser negociado com a farmacêutica norte-americana Gilead.
Não é de hoje que Portugal é confrontado pelo problema da escassez/racionamento de medicamentos. Foi há três anos que o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida emitiu um parecer em que defendeu que o Ministério da Saúde “pode e deve racionar” o acesso a tratamentos mais caros para pessoas com cancro, sida e doenças reumáticas. Ao murro de estômago e ao choque inicial seguiu-se a evidência de que o país simplesmente não tem dinheiro para gastar um milhão de euros a tratar um doente em fase terminal se esse tratamento apenas proporcionar mais uns dias de vida extra.
No caso da hepatite C existe na Europa, desde Janeiro de 2014, um medicamento que cura a doença em mais de 90% dos casos. O problema é que custa 42 mil euros. Neste caso não estamos a falar de uns dias de vida extra, o extra é o resto da nossa vida. Assim se percebe a revolta de José Carlos Saldanha que esta semana irrompeu por uma sala adentro do Parlamento para pedir a Paulo Macedo: "Não me deixe morrer!". Estar doente com hepatite C há 18 anos e não haver uma cura no mercado é uma coisa, é uma fatalidade, é um azar. Estar doente e saber que existe uma cura à distância de 42 mil euros é revoltante. José Carlos Saldanha acabou por sair voluntariamente da sala, pedindo “perdão” pela intromissão nos trabalhos. Mas alguém devia pedir perdão ao José Carlos.
A culpa não é de Paulo Macedo. Haverá com certeza alguma coisa a melhorar na organização do SNS. No caso da doente com 51 anos que morreu depois de esperar quase um ano pelo Sofosbuvir não se percebe o arrastar dos prazos (o primeiro pedido foi feito em Julho) e o facto de a Gilead ter dito que comunicou ao Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental a disponibilidade para fornecer o medicamento e, ao mesmo, tempo alegar não ter recebido qualquer nota de encomenda.
Mas o problema de fundo é outro; é um problema de moral e de aritmética. Se temos em Portugal 13.015 doentes a precisar do medicamento para a hepatite C, e se cada tratamento com o fármaco inovador pode custar até 100 mil euros, estamos a falar de uma absurda e pornográfica quantia de mil milhões de euros que o SNS teria de pagar à farmacêutica norte-americana. Claro que é fácil e até é correcto dizer que a “vida não tem um preço”. Mas a verdade é que neste caso a vida humana tem um preço; custa 42 mil euros. É revoltante observar que o mercado dos medicamentos que salvam vidas é gerido pelas mesmas leis de procura e oferta que gerem o mercado da batata ou da cebola. Sem qualquer cedência ou ponderação moral.
A lógica é esta. Se o vírus do ébola ataca mais países insolventes em África não vale a pena investir muito na cura já que o retorno não será grande coisa. Mas na hepatite C, como dizia Correia de Campos, existe um abundante mercado solvente e rico; como tal toca a descobrir uma cura e a cobrar preços exorbitantes. E no caso da hepatite C estamos a falar de uma política de preços e de maximização de lucros de fazer inveja a qualquer guru de Wall Street. Em mercados com grande incidência de doenças ou menos poder de compra, como o Egipto, a farmacêutica pede menos de 1000 euros pelo Sofosbuvir. Na Europa pede 25 mil ou 42 mil euros, conforme lhe dá na gana.
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