ENTREVISTA
“O PCP não era uma mera delegação do MNE soviético”
SÃO JOSÉ ALMEIDA e NUNO PACHECO
06/12/2015 - 07:49
Pacheco Pereira prossegue a tarefa de autobiografar Álvaro Cunhal. De caminho faz a história do PCP e em parte de Portugal. Neste volume, o IV, aborda os anos sessenta e a ascensão de Cunhal a secretário-geral, um líder com peso no MCI.
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o antigo Forte-Prisão de Peniche, de onde Álvaro Cunhal fugiu com mais dez homens a 6 de Janeiro de 1960, é quarta-feira lançado o quarto volume deÁlvaro Cunhal — Uma Biografia Política, da autoria de Pacheco Pereira. O autor explica ao PÚBLICO como aquele dirigente político viveu uma época fundamental. Senhor de prestígio e influência, integrou a elite comunista e foi moldando o PCP como partido pragmático, que sobreviveu ao fim da URSS e apoia agora o Governo do PS. "Há uma parte da nova geração do PCP que é mais ortodoxa do que a mais velha, que mantém ainda a tradição cunhalista do pragmatismo", adverte Pacheco Pereira.

PUBQue novidades há no quarto volume?
Muitas delas não são factos que não sejam conhecidos, mas interpretações ou descrições do processo de Cunhal como dirigente político, quer a nível nacional quer a nível internacional. O livro abrange um período da vida de Cunhal em que ele está pouco mais de um ano dentro do país e todo o resto do tempo fora, uma parte importante na União Soviética, outra em França, mas andando permanentemente a viajar por um conjunto de países, principalmente os socialistas. A década de 1960 tem profundas alterações políticas a todos os níveis e o que é interessante ver é como Cunhal defronta essas mudanças e como, através da sua acção, podemos compreender como é que, ao nível superior do Movimento Comunista Internacional (MCI), onde — e isso foi para mim novo — se verifica maior pluralismo do que aquele que à primeira vista se imagina. E vemos um Cunhal no topo da elite do MCI, muito bem informado, a tomar posições sobre o conflito sino-soviético, sobre Cuba, sobre a Checoslováquia, muitas vezes com hesitações, umas vezes de forma ortodoxa, outras heterodoxa, e isso dá-lhe uma dimensão muito interessante que escapava até agora à análise. Foi preciso que se abrissem alguns arquivos.
Se Cunhal não estivesse preso entre 1949 e 1960, o PCP teria aderido tão fácil e plenamente às mudanças do XX Congresso?
A resposta é clara: não!
Por que razão?
Há continuidades no pensamento de Cunhal que já podem ser vistas na década de 1940, quando ele também esteve à frente do PCP. E uma dessas continuidades, que sempre foi muito clara, é que ele sempre achou que o derrube da ditadura em Portugal tinha de se fazer de forma violenta.
É a dicotomia com a "via pacífica"?
É certo que, nos anos de 1940, não havia esse tipo de contradição, a posição dele era canónica. [A linha oficial do PCP] entra em completa contradição com as posições de Cunhal a partir do XX Congresso da União Soviética [14 e 26 de Fevereiro de 1956] e da maneira como ele foi trazido para o partido, essencialmente a partir da experiência do PC espanhol, que teve aí um papel importante. No fundo, a leitura que [Júlio] Fogaça e outros fazem do XX Congresso é muito condicionada pela posição do PCE e das suas iniciativas, que tentam copiar. Cunhal já na cadeia manifestou divergências. Uma das razões que dão contexto político à fuga é exactamente ela permitir a rectificação que Cunhal faz logo à cabeça, praticamente assim que põe os pés em liberdade. É um processo evolutivo. Tínhamos a ideia de que tinha sido tiro e queda, que chegava, tomava as posições e conquistava o partido.
Mas não.
Agora percebe-se melhor que não, percebe-se como é que é feito o caminho. Mas uma coisa era evidente: Cunhal sempre achou que o regime da ditadura caía com uma acção violenta. A forma dessa acção violenta, ele também a vai elaborar no célebre levantamento nacional armado, mas é uma forma que é definida nos primeiros cinco anos da década.
Há também divergência em relação à política de alianças. Se Cunhal estivesse em liberdade, o PCP teria apoiado Humberto Delgado?
Penso claramente que sim. O processo de apoio a Delgado é interessante. Quando a campanha de Delgado começa, era o "General Coca-Cola" e é atacado. O momento de viragem é a ida de Delgado ao Porto. Quando, à saída da Estação de São Bento, tem praticamente a população toda na rua — sabe-se isso pelos apontamentos de Octávio Pato e outros —, tornou-se inevitável apoiar Delgado. O PCP percebeu que Delgado era o homem. E teve dificuldades. Não tanto em mudar de posição, mas em convencer Arlindo Vicente em deixar a candidatura. O PCP tem esta componente pragmática: quando percebe que uma coisa é inevitável ou mudou completamente de circunstâncias, muda.
A política de alianças da direcção Fogaça era diferente da que foi antes e depois defendida por Cunhal?
Há, de facto, uma tentativa de dar ao PCP apenas uma dimensão antifascista e não propriamente uma dimensão comunista. O que Cunhal critica nem é, à cabeça, a política de alianças, é o facto de, na direcção Fogaça, se ter retirado o papel fundamental que o PCP tinha no processo da revolução e de se ter substituído a dimensão comunista, a predominância na formulação da própria revolução democrática e nacional do PCP, por uma espécie de aliança com as forças de oposição, que subordinava o PCP à estratégia da oposição não-comunista.
Logo após a fuga, Cunhal vem criticar que estava a ser dada pouca relevância ao papel do PCP nessa fuga, não é?
Ele mal sai e vê o Avante!, fica furioso, porque verifica que o Avante! trata a fuga como se tivesse sido uma fuga de democratas, nem sequer os classifica claramente como comunistas e como membros do Comité Central. E obriga à substituição do Avante! por uma declaração completamente diferente. No livro, publico as duas. Mas a primeira é típica desse período, há um predomínio do discurso democrático.
Isso acontece por que razão? Cunhal, numa conversa, disse-me: "No fundo, o Fogaça era um social-democrata". Qual era a dimensão política e ideológica do Fogaça?
Se nós analisarmos os textos no essencial, eles são da autoria de Fogaça e alguns de Pedro Soares, porque no PCP as pessoas capazes de escrever um relatório, um documento político de fundo, eram poucas, por isso é fácil saber quem eram. Não sei se a caracterização de Fogaça como um social-democrata não é daquelas coisas que se fazem historicamente para trás. Falando na década de 80 para trás, é fácil dizer isso. Fogaça tem as posições que têm os comunistas espanhóis. Não é só Fogaça, são também alguns dissidentes no Partido Comunista Francês. São posições que alguns membros da direcção do PCP continuaram a ter. Por exemplo, um dos homens de que menos se fala no PCP, mas que era responsável pelas tipografias, Manuel Luís da Silva Júnior, Ivo era o pseudónimo, contesta a viragem que Cunhal introduz, argumentando, entre outras coisas, que ela dificultaria as relações com os democratas e que o PCP precisava de apoiar um homem, numa referência clara a Delgado.
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