"As minhas palavras têm memórias
____________das palavras com que me penso, e é sempre tenso
_________o momento do mistério inquietante de me escrever"
1. Pedro Passos Coelho tornou-se por estes dias uma personagem à procura do seu actor. Ainda não foi capaz de superar a mágoa e a perplexidade de um vencedor derrotado. Ainda continua à procura da melhor pose para representar o papel de líder da oposição. E começa a sentir na pele as exigências de um partido que não tolera hesitações nem convive bem com derrotas que o afastem muito tempo do poder. No seu partido, já há quem faça contas e o considere um homem do passado. Não apenas porque perdeu o poder, mas principalmente porque ele é o rosto de uma ideia e de uma estratégia política moribundas. O seu projecto de refundar Portugal com ingredientes neoliberais que execram o Estado e exaltam o individualismo falhou rotundamente. Até Passos deu conta desse seu falhanço e tenta agora “recentrar” o PSD, como ontem noticiava o Expresso. PUB
Debilitado para o exterior, Passos começa a ser desafiado internamente. Rui Rio já assumiu a liderança da contestação, ao dizer esta semana que "é evidente que Passos Coelho vai ter dificuldades em ganhar a próxima eleição”, que, “se for ele o líder do PSD, vai ter uma dificuldade muito maior do que teve há quatro ou cinco anos, porque era uma novidade". A pouco e pouco, o velho PSD dos barões e da social-democracia vai-se erguendo para reclamar o seu estatuto de vítima de uma geração laranja desalmada, “com uma cultura superficial, formada nos blogues, que não resiste ao confronto com a realidade porque desconhece essa realidade", como em tempos a descreveu José Pacheco Pereira. Num combate a prazo, Luis Montenegro, Passos e seus próximos vão ter de enfrentar essa geração do PSD mais centrista, socialmente mais empenhada, muito mais próxima da classe média. O oposto da moda interpretada por génios da direita como Bruno Maçães.
Se é verdade que Passos vai deixar marcas na memória do país pela sua obstinação, pela sua coragem e firmeza, a sua ambição mais profunda de regenerar Portugal, libertando-o do Estado e dos grupos de interesses que o cercam morreu em 4 de Outubro. É uma derrota dele, sem dúvida, mas também é a derrota do Compromisso Portugal, de António Borges, do grupo do Observador e de todos os que acreditam que o país necessita de uma terapia de privatizações e de um esvaziamento forçado dos poderes do Estado para se poder reerguer. O Passos Coelho que propunha uma revisão constitucional para promover uma nova delimitação entre a esfera pública e privada, que olhava para a emigração como uma alternativa de vida para os jovens, que encarava a austeridade como uma oportunidade já não existe. O país desconfiado dos ricos e incapaz de se conceber sem a orientação superior do Estado derrotou-o copiosamente.
Nas próximas semanas, Pedro Passos Coelho estará condenado a arrastar consigo um destino que se encaixa nos dramas existenciais dos personagens de Eça de Queirós. Ele que resistiu aos anos de chumbo da crise e datroika não teve direito a uma ligeira passagem pelo poder nestes dias em que o Governo se pode arrogar o direito de “virar a página à austeridade”. Ele que, apesar de tantos cortes sociais e tantas malfeitorias a pensionistas ou a funcionários públicos, conseguiu liderar uma coligação que ficou à frente das eleições, acabou por ser afastado do poder através de uma solução política que se aplicou pela primeira vez em 40 anos de regime. Ele que pôs em ordem a irresponsabilidade de Paulo Portas e sentiu na pele ataques ferozes da velha guarda do partido começa agora a sentir que parte da militância laranja subscreve as teses da esquerda que o acusam de ter radicalizado o PSD.
Certamente desiludido, provavelmente amargurado pelo seu destino, sem dúvida preocupado pelos rabos-de-palha que, como o Banif, sobraram da sua governação, Passos Coelho é hoje um fantasma que aparece para os lados do Parlamento a recordar a injustiça da política e a confirmar a impossibilidade de uma alternativa liberal ao modelo político baseado no Estado. Se António Costa não cair a golpes da crise, das pressões externas ou dos beijos da aranha dos seus ténues parceiros da esquerda, o futuro de Passos no PSD a médio ou a longo prazo é difícil e incerto. Ser o ex-primeiro-ministro que, apesar de ter evitado a bancarrota, quis ir além da troika, quis reduzir o papel paternal do Estado, quis dar força a uma nova atitude nacional na qual os piegas não tinham lugar não é propriamente um bom cartão de visita. O que ele fez no Governo só será analisado com lucidez daqui a muitos meses e é por isso que, permanecendo na liderança do PSD, Passos está condenado a uma travessia do deserto tão longa como incerta.
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