segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Poema de Phillip Levine



De Phillip Levine (1928-2015), in Net




Pequeno Villon







Diz-me ele que em Banguecoque o roubam

Por ser branco; em Londres porque é preto;

Em Barcelona, judeu; em Paris, árabe:

Em todo o lado & a qualquer hora, & ele defende-se.



Ergue sete dedos grossos e pequenos

Para me mostrar que vem em sétimo lugar a nível mundial,

E não há qualquer paixão na sua voz, nem raiva

No liso dos olhos castanhos raiados de sangue.



Pede-me que lhe conte tudo o que me lembrar

Do meu pai, seu tio; fala da guerra

No Norte de África e do que veio depois,

A perda do pai, a perda do irmão,



As montras da padaria partidas, e o pão fresco

Polvilhado de vidro, o cheiro quente a centeio,

Tão forte que ele comia até ficar com a boca cheia de sangue.

Eles vivem aqui, vivem aqui e não morrem,



E aponta a cabeça negra sulcada

De anéis de cabelo preto. Toca-me o cabelo,

Diz-me para nunca desprezar

As duras cerdas que protegem a cabeça do lutador.



De dedos tristes, percorre-me a cara,

Como sou claro, diz-me, e macio.

Ficámos de pé até ao fim desta primeira e última visita.

Duro, 50 quilos, um metro e meio,



Não era maior que uma rapariga, agarra-me pelos ombros,

Beija-me na boca, os olhos ainda abertos,

Meu irmão imaginário, meu primo,

Eu próprio de outra forma, por toda a sua dor.



Philip Levine, Not This Pig, Wesleyan University Press, 1968

(Tradução de Hugo Pinto Santos)



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