"As minhas palavras têm memórias ____________das palavras com que me penso, e é sempre tenso _________o momento do mistério inquietante de me escrever"
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Editorial de "Público": as mortes no Hospital de São José
EDITORIAL
Os partidos e a morte no hospital de S. José
DIRECÇÃO EDITORIAL
08/01/2016 - 00:01
As conclusões do inquérito tardam, há declarações corporativas, os partidos entretêm-se
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Os partidos têm o péssimo hábito de usar e abusar do passa-culpas antes de se apurarem todas as vertentes de um acontecimento. E fazem-no revelando uma preocupante falta de consciência cívica, presos que estão na utilização de tudo o que possa servir de arma de arremesso político, desprezando a importância do apuramento dos factos e a consequente atribuição dos vários níveis de responsabilidades. Uma outra consequência directa deste tipo de atitudes é dificultar a punição dos responsáveis e impedir a alteração de práticas lesivas dos interesses dos cidadãos. O caso da morte recente de um jovem por aneurisma no Hospital de S. José, em Lisboa, é um exemplo da leviandade com que muitas vezes os partidos tratam estas situações. A tentação imediata foi responsabilizar exclusivamente o anterior Governo, mas como já se viu as coisas não são assim tão “simples”. É óbvio que políticas cegas de austeridade ajudam a agravar os problemas do sector, como é o caso de os enfermeiros receberem meia dúzia de euros à hora no serviço público - uma medida tão injusta como manifestamente ridícula. Esse julgamento político já teve tradução nas eleições de Outubro último, pode e deve fazer-se sempre que tal se justificar, como neste caso, mas não deve servir para lançar uma cortina de fumo sobre factos concretos que podiam ter ajudado a salvar a vida que se perdeu. Hoje, por exemplo, já se sabe que teria sido possível transferir o doente para outra unidade hospitalar e que houve procedimentos no terreno a exigirem explicações cabais e rigorosas por parte do Hospital de S. José. Explicações no âmbito de um inquérito cuja urgência é manifesta, mas que, incompreensivelmente, continua sem ver a luz do dia. Sobre este silêncio ninguém (que se saiba) diz nada. Nem a tutela, nem os partidos políticos, que mais uma vez, esta semana, se perderam nos mesmos “argumentos” fúteis na Assembleia da República, sem curarem de procurar soluções que evitem a repetição da tragédia.
E, no entanto, ela repete-se, como também aconteceu com uma mulher que entrou no hospital de S. Bernardo, em Setúbal, com dores de cabeça, foi medicada para um problema de ouvidos e morreu quinze dias depois, alegadamente com uma hemorragia cerebral, na urgência da mesma unidade de saúde. Tão preocupante como isto, é a constatação de que há altos responsáveis a considerarem que está tudo bem, que o jovem que faleceu em S. José teve o tratamento adequado e que o tempo de espera para a operação “estava perfeitamente dentro das normas internacionais”. Mesmo sem o relatório do inquérito pronto, a certeza sobre a qualidade e a justeza dos procedimentos neste caso é do presidente da Sociedade Portuguesa de Neurocirurgia e as suas palavras, numa entrevista à TSF, representam um hino lamentável ao corporativismo atávico, que deve ser combatido sem tréguas na sociedade portuguesa. Os partidos políticos devem ser os primeiros a dar o exemplo neste combate, em vez de ajudarem a culpa a continuar a morrer solteira.
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