"Países árabes estão cansados da ingerência do Irão"

Chefe da diplomacia dos EAU, Anwar Gargash, no encontro com jornalistas em Abu Dhabi
| D.R.
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A ameaça terrorista levou os EAU a impor medidas de segurança internas e a privilegiar a sua participação no exterior integrado em coligações militares
"Os países árabes estão cansados da ingerência do Irão nos seus assuntos e Teerão tem de sabê-lo", afirmou o ministro de Estado para os Negócios Estrangeiros dos Emirados Árabes Unidos (EAU) num recente encontro com jornalistas estrangeiros em Abu Dhabi, em que se integrou o DN. Frontal, Anwar Gargash não poupou palavras nas suas críticas às ações do Irão em países árabes, mas também não esqueceu a importância estratégica e o poder do seu vizinho persa no contexto da luta contra o inimigo público internacional: o Estado Islâmico (EI).
Para o ministro, "terrorismo e extremismo estão interligados, são interdependentes", daí não ser possível derrotar um sem eliminar o outro. "É um desafio para anos, o trabalho de uma geração", garantiu o chefe da diplomacia dos Emirados Árabes Unidos, na opinião de quem é importante "modificar as mentalidades", criar "uma cultura que respeite a diversidade e as minorias". Em seu entender, "terrorismo e extremismo não são apenas islâmicos", daí que tenha de ser global o esforço para os neutralizar.
Pretexto sagrado
O diplomata, consciente da situação geoestratégica do seu país - nas margens do golfo Pérsico, entre o Irão e a Arábia Saudita -, fez questão de afirmar como a "Turquia e o Irão são Estados necessários" para o equilíbrio internacional. Mas, referiu, isso não pode anular o facto de que "as relações de independência devem ser respeitadas" e, não menos importante, que "os problemas do mundo árabe devem ser resolvidos pelo mundo árabe", embora este "esteja dividido, o que é problemático".
O ministro aludia à ação iraniana no Bahrein e no Iémen, situação que provocou a intervenção neste último país dos EAU integrado na coligação liderada pela Arábia Saudita. Para Anwar Gargash tratou-se de impedir que o Irão, que apoiava as milícias antigovernamentais na recente guerra civil iemenita, criasse ali uma segunda edição do Hezbollah, grupo xiita libanês que foi treinado pelos Guardas da Revolução iraniana e que luta agora ao lado das forças iranianas e dos homens do presidente Bashar al-Assad na guerra da Síria. Aliás, Gargash reconheceu que a situação na Síria "é ainda complicada" e aventou a hipótese de uma intervenção militar no terreno, para combater o EI, por parte de "uma coligação de países árabes" à "semelhança do que aconteceu no Iémen". O chefe da diplomacia sublinhava a ideia de que os problemas dos países árabes têm de ser resolvidos pelos países árabes. Uma tese que foi, aliás, defendida por outros responsáveis em Abu Dhabi.
A noção de que o combate ao terrorismo passa pela educação e a alteração das mentalidades foi também avançada por Maqsoud Kruse, diretor executivo da Hedayah, instituição internacional que tem como objetivo evitar o extremismo violento através do diálogo, da colaboração, da investigação. Para Kruse, "a resposta militar não é suficiente para combater ou mesmo eliminar o terrorismo". Há que juntar outros elementos a essa luta, como a "economia, a política, a psicologia, a religião. Há que educar as pessoas na cultura da vida". "Há dez anos tínhamos a Al-Qaeda, agora temos o Estado Islâmico. O que teremos daqui a dez anos?", questionou-se Kruse.
Entretanto - e sinais dos tempos -, os EAU, conhecidos por privilegiar a diplomacia, estão a apostar nas Forças Armadas e protegem-se com medidas de segurança que não eram visíveis há dois anos, embora sejam bem menos draconianas do que noutros países. Visitar a Grande Mesquita Xeque Zayed, que deve o seu nome ao pai fundador dos EAU, não implicava qualquer medida de segurança. Hoje, homens e mulheres têm entradas separadas para os jardins da mesquita porque, tal como nos aeroportos, têm de passar por pórticos eletrónicos ao mesmo tempo que as bolsas, as mochilas ou os sacos são devidamente "escrutinados" por raio X.
Em Abu Dhabi
* A jornalista viajou a convite do governo dos Emirados Árabes Unidos
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