quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"INSÓNIAS..."

FOTO GOOGLE



INSÓNIAS…


Chove.Sinto-me bem na intimidade do lar. Janelas fechadas, lareira acesa. Fixo a lenha que arde, fulgurantemente, dando-me a segurança de um pijama quentinho, de tons vermelho-amarelados…Ali, ao canto, está o meu aquário, onde os peixinhos, ainda acordados, absorvem, amiúde, a minha atenção. Ali estão todos juntos, mas cada um no seu “agregado familiar”:”zebras” com zebras,”néons com néons, um “beta” de um azul fortíssimo, mais escuro que as águas do mar ou que o azul do céu; o “limpa vidros”, permanentemente agarrado às paredes de vidro, limpa tudo o que seja comestível e o “come-caracóis”mantém as plantas livres desses simpáticos bicharocos, que podem tornar-se uma praga…

Oiço música. Sinead O’CONNOR… “Nothing compares to you”…
Pego num cigarro, maquinalmente e aproximo-me da janela; levanto os estores e dou de caras com a chuva, a “bategar”…
Não posso deixar de dizer que gosto do Inverno, estação do ano que, para mim tem mais magia que os sufocantes dias de Verão, que me não deixam respirar. Amo o Sol, astro-rei, quando não queima e me deixa numa lassidão de impotência.
Continuo com a música da RFM e sinto, para já, o cérebro voluntariamente vazio de ideias…Mas esta sensação é momentânea! A música da chuva a cair, batendo, furiosamente na janela, faz-me lembrar o gozo de FERNANDO PESSOA no poema Interseccionista “Chuva Oblíqua” (parte II) quando diz:”Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, /E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça… (…) / Alegra-me ouvir a chuva…E sente-se chiar a água no facto de haver coro… Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar… (…) “.
A música que oiço abraça o mundo e penso que precisa de irradiar num espaço mais vasto que o do meu próprio cérebro… talvez neste mundo complexo, vário, ruidoso, corrupto, “dividido” (como diz SOPHIA…), mecâ nico, acelerado, diverso, difícil, em que vivemos e onde a música não consegue soltar-se para abraçar os ideais de Paz e Amor.
Impossível, por conseguinte, tal como eu previa, fumar o meu cigarro e ouvir música, sem pôr o cérebro a funcionar! Bem queria repousar das atitudes meditativas… mas, não sendo acéfala, costumo meditar, pensando e assim, sou mais activa do que reactiva! Melhor dizendo: sem pensamento, não há acção nem reacção! Sonho acordada…

Não há vivalma na rua… nem passam carros, nem se ouvem cães a ladrar nem miam gatos…Não há pássaros pelo ar… E quem é que se importa com as alheias meditações?
A noite de tormenta- estranhamente alegra o meu coração, nesta intimidade de quatro paredes. Incongruência? Incoerência?
Não! Questão de carácter que se reflecte no próprio dia a dia quando, a passear ou a caminhar mais naturalmente, viro os olhos mais para o chão que para o ar. Se pensar bem, sei que o mundo exterior está descoberto e que, por isso, a minha arte está em procurar o meu mistério interior.
Mas, em mim, tudo está ligado à infância e à juventude, que não foram momentos de realização interior e sim tormentos massacrantes na constante insatisfação de viver, ao sentir e constatar que não tinha um ombro de pai ou de mãe, para me apoiar.
Atiro impropérios contra essa infância que não o foi, mas que ainda encontro no cheiro da viela, onde continuo a ouvir as vozes do leiteiro e da padeira, que, como se sabe, iam, antigamente, levar-nos esses bens a casa. Fragmentos de mim , unidos na Pessoa que hoje sou…há outros fragmentos, mais duros, de que não quero falar.
O ruído da chuva e esta música acolhedora deveriam ter o dom de abafar tudo o que hoje me veio à memória…Mas é precisamente porque se trata de MEMÓRIA, que eu lembro…É claro que ninguém se importa com esses meus desvarios rememorativos; são problemas meus…
E eu quero ter a consciência do que procuro, do que não encontro, do sossego interior que abarca os respiros do meu viver!
Felizmente , há noites de chuva com música a condizer.Ajudam-me, naturalmente, a procurar o meu próprio “D. Sebastião”… o meu outro EU.
Para me espevitar, desprezo-me ao ir-me abaixo, deste modo tão confessional mas reparo que essa atitude me obriga a reagir…Oiço “Wish you were here”, cantado por alguém que não os “PINK FLOYD”…Decididamente, hoje não virá a lua…E amanhã é outro dia, será outro lado da lua…a vida será novamente maravilhosa, as ruas estarão lavadas, o “Muro de Berlim” já caiu…Georges Bush desapareceu do mapa… POL POT arde nos Infernos…os vampiros de Stephenie Meyer “andam “ à solta no “CREPÚSCULO dos deuses e da lua nova e eu vou ver se durmo, pois daqui a pouco o mundo vai despertar, novamente, para novas tristes realidades…
Até sempre!

22 comentários:

  1. Batem leve, levemente,
    como quem chama por mim...
    Será chuva? Será gente?
    Gente não é, certamente
    e a chuva não bate assim...

    É talvez a ventania;
    mas há pouco, há poucochinho,
    nem uma agulha bulia
    na quieta melancolia
    dos pinheiros do caminho...

    Quem bate, assim, levemente,
    com tão estranha leveza,
    que mal se ouve, mal se sente?
    Não é chuva, nem é gente,
    nem é vento, com certeza.

    Fui ver. A neve caía
    do azul cinzento do céu,
    branca e leve, branca e fria...
    Há quanto tempo a não via!
    E que saudade, Deus meu!

    Olho-a através da vidraça.
    Pôs tudo da cor do linho.
    Passa gente e, quando passa,
    os passos imprime e traça
    na brancura do caminho...

    Fico olhando esses sinais
    da pobre gente que avança,
    e noto, por entre os mais,
    os traços miniaturais
    de uns pezitos de criança...

    E descalcinhos, doridos...
    a neve deixa inda vê-los,
    primeiro, bem definidos,
    - depois em sulcos compridos,
    porque não podia erguê-los!...

    Que quem já é pecador
    sofra tormentos... enfim!
    Mas as crianças, Senhor,
    porque lhes dais tanta dor?!...
    Porque padecem assim?!

    E uma infinita tristeza,
    uma funda turbação
    entra em mim, fica em mim presa.
    Cai neve na natureza...
    – e cai no meu coração.


    Augusto Gil.

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  2. Maria!! Que GRANDE texto!!! E não estou a falar da extensão!!

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  3. Quem não tem Memórias para ouvir em noites de chuva misturadas com música que, em dueto, fazem uma sinfonia com os pingos de chuva a baterem na janela? Sei que uma nebulosa de sentimentos nos envolve mesmo no silêncio das palavras.
    Mas há em tudo um desafio: que vivamos melhor as coisas que temos, as pesoas que amamos, a vida que nos anima.
    Um beijo e bons sonhos.
    Graça

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  4. OBRIGADA, CIRRUS! Já tinha saudades suas...
    ABRAÇO AMIGO DE
    LUSIBERO

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  5. MANUEL MARQUES: que lindo que o meu texto o fez recordar esse lindo poema de AUGUSTO GIL, que nós dávamos ,não sei já em que livro de PORTUGUês de que classe...
    OBRIGADA também pelas palavras que não disse... DIZENDO!
    BEIJO DE
    LUSIBERO

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  6. GRACINHA: é isso mesmo! há momentos em que deixamos falar a alma... mas a vida continua!
    Não é permitido claudicar, nunca!
    BEIJOS PARA TI, TAMBÉM !
    LUSIBERO

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  7. Há sempre um amanhã e esse é outro dia !!

    Tudo de bom para si, coloque mais lenha na sua lareira,e queime as más memórias, fixe-se nas boas e nos lindos dias que tem para viver, com chuva ou com sol, aproveite.

    um grande beijo.

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  8. Claro que não fico surpreendida...a qualidade do texto é aquela que esperamos, porque já a conhecemos. As inconfidências são os sãos gritos de alma de alguém que procura superar-se a cada instante. A poesia...uma constante presença numa vida com tanto de triste, mas tanto, ou mais, de encanto pelos dias e pelas noites, pelo luar de uma qualquer noite propícia à meditação, pelo mar e pelo vento, pelos animais e pela aventura que é viver. As memórias, memórias são-de uma forma por vezes crua, a vida molda-nos o ser. Por vezes, é igualmente gentil, e brinda-nos com momentos assim....em que podemos olhsr, sorrir, sentir, chorar, lembrar, sonhar, esperar, viver....
    Simplesmente...lindo!
    Susana

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  9. PARTILHA de SILÊNCIOS: é assim mesmo, como diz! E é assim que procuro fazer... só que ,por vezes, vêm as recordações!
    BEIJO AMIGO DE
    LUSIBERO

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  10. CIRRUS: é que há muito que o não "ouvia"... BEIJO AMIGO

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  11. SUSANA: palavras muito sentidas... Tu conheces-me ,como às tuas mãos. Sabes que tenho momentos destes... Mas tenho a sorte ea felicidade extremas de te ter ao meu lado, para me ajudar. Sei que ponho a alma a nu, mas também sabes que eu sou assim e , às vezes lá sai um momento destes...
    BEIJINHOS DE
    LUSIBERO

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  12. Que ardam todos os facínoras nos fogos do inferno. Mas que isso não nos distraia... Bush foi-se, mas isso não impediu os bombardeamentos do Paquistão e do Iémene!

    Afinal, os fogos do inferno não são protecção suficiente!

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  13. MANUEL GOUVEIA: estou atenta aos novos "problemas" da HUMANIDADE...TENS razão no que dizes! Eu vou constatando...
    BEIJO AMIGO DE
    LUSIBERO

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  14. Olá Maria
    Obrigado pela visita e pelo amável comentário.
    Pois é como diz o quadro é impressionista e pretende "realçar" o local histórico. De facto o Cabo Espichel "esmaga-nos" pela sua espectacularidade, quer histórica, quer paisagística.
    O seu texto é algo de lindo, o que já é habitual e a chuva aliada à musica leva-nos para momentos nostálgicos e sempre bem pensados.
    Bjo grande
    Diogo

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  15. OLá Maria.
    Maria, essas insônias nossa de cada dia...
    Elas são companheiras indesejáveis, outras vezes tão amigas!
    Ainda ouvindo Wish You Were Here, as inspirações chegam com certeza!
    Vou ouvir novamente, de preferência lendo mais uma vez o teru escrito.
    Bjs.

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  16. Maria,
    Suas “Insônias...”são pura poesia!
    Seu texto dá gosto de ler e, certamente, muitos de nós nos identificamos nele, nas memórias boas e nas mais dolorosas, no aquário - quem não teve um dia um, especialmente, com o famoso “limpa vidros”, que só “trabalhava”à noite?,...
    Pessoalmente, gosto muito de uma boa leitura ao som da chuva caindo lá fora.
    “...”Tão calma é a chuva que se solta no ar
    (Nem parece de nuvens) que parece
    Que não é chuva, mas um sussurrar
    Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
    Chove. Nada apetece...” FPessoa.
    E, amanhã será outro dia,graças a Deus!
    Beijos.

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  17. DIOGO: obrigada por me deixar fazer aqueles devaneios em termos de conhecimentos sobre Pintura! É que os comentários aos seus trabalhos advém, em parte dos conhecimentos de Literatura, pois sempre aprofundei as mat+erias literárias com as outras artes, que como sabe, são profundamente interligadas, se o Professor quiser.
    As minhas "Insónias..." são um genuíno exercício de Introspecção...
    BEIJO AMIGO DE LUSIBERO

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  18. Mª LÚCIA: que lindas, as suas palavras, minha querida!Obrigada por ter gostado e expresso a sua preciosa impressão.
    BEIJOS DE LUSIBERO

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  19. ANTÔNIO LÍDIO: sabes que estas ins+onias são exercícios introspectivos, que eu gosto de passar a escrito. Antigamente, fazia-o num caderno; hoje, faço-o aqui, no meu espaço, e partilho com todos os amigos.
    BEIJOS DE
    LUSIBERO

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  20. Amiga Maria Ribeiro,
    Vivi esses seus momentos...de memória...de reflexão...gosto assim de uma escrita espontânea e sincera...o texto toca muitos sentimentos, que no geral podem ser familiares. Essa noite de Inverno foi muito poética...O Inverno tem também muita poesia e o recolhimento a que nos obriga, pode motivar intimismo.
    Beijinhos,
    Manuela

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  21. MANUELA FREITAS:Grata por ter vivido comigo, momentos de recordações, de meditação. Sou muito dada a este tipo de escrita.Essa noite de meditação é igual a tantas outras, amiga... Só que, quando "sai" ,é como se fosse "aquela"...
    BEIJOS DE MªELISA

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