O Pensamento de BATAILLE, in www.ueb.br/pos/letras
...
"De acordo com o pensamento de Bataille, a experiência do sagrado deve ser
pensada como possibilidade de acesso a essas forças violentas das quais nos
separamos em tempos míticos irrecuperáveis, tornando-nos seres da e para cultura,
logo, descontínuos:
A continuidade, que para o animal não podia se distinguir de nada
mais, que era nele e para ele a única modalidade possível do ser, no
homem opunha à pobreza do instrumento profano (do objeto
descontínuo) toda a fascinação do mundo sagrado (Bataille 1987b: 32).
Nessa perspectiva o sagrado não se revela em lugares, seres ou coisas, e sim na
antevisão dessa continuidade e inteireza do ser, em situações extremas nas quais o
homem se vê distante de si (do controle de si) e próximo de forças obscuras que não
pode controlar. Situações de transgressão do interdito, onde as forças culturais e
sociais que pertencendo à ordem do trabalho regem a vida racional e ordeira do
corpo social são, ainda que por um breve instante, suspensas — mesmo que apenas
em sentido ritual, como por exemplo na rememoração da morte de Cristo durante as
cerimônias religiosas do cristianismo —, passando a vigorar o tempo festivo da
transgressão. E a transgressão maior, para Bataille, está relacionada à própria
possibilidade de investir contra a descontinuidade, buscando uma continuidade
incompatível com as prerrogativas da vida humana3. Ele não confunde o campo de
ação do sagrado a uma positividade, afastando-se de qualquer concepção de sagrado
dentro das religiões monoteístas, em especial o cristianismo, onde os aspectos
violentos e nefastos do sagrado são negados a tal ponto que sagrado passou a
significar “separado, puro, santo”:
O sagrado puro, ou fasto, dominou desde a antiguidade pagã. Mas, se
ele se restringisse ao prelúdio de uma superação, o sagrado impuro, ou
nefasto, era o fundamento. O cristianismo não podia rejeitar a sujeira.
Mas ele definiu a sua maneira os limites do mundo sagrado: nessa nova
definição, a impureza, a sujeira e a culpabilidade eram rejeitadas fora
desses limites. O sagrado impuro foi, desde então, relegado ao mundo
profano. No mundo sagrado do cristianismo, nada que reconhecesse
claramente o caráter fundamental do pecado e da transgressão pôde
subsistir"...
Sem comentários:
Enviar um comentário