sábado, 8 de agosto de 2015

Auschwitz nasceu num lugar feliz

O que faria um homem livre se vivesse na Alemanha nazi? Perguntem a Sarah Gross, romance de estreia de João Pinto Coelho, é um livro arriscado sobre um tema que parece condenado a escapar à linguagem. Auschwitz nasceu em Oswiecim. É a partir de lá que tudo se pergunta.
Entrada de Birkenau, ou Auschwitz II: um dos lugares mais filmados e fotografados sempre que se fala de Holocausto. Construído de raiz para campo de extermínio massivo depois da Solução Final, em 1942 RUI GAUDÊNCIO
No dia 27 de Janeiro, data em que se assinalaram os 70 anos da libertação do campo de Auschwitz, Roman Kent, 95 anos, sobrevivente, contava que lhe perguntam muitas vezes quanto tempo esteve em Auschwitz. “A minha resposta é que não sei. O que sei é que um minuto em Auschwitz era como um dia inteiro, um dia era como um ano, e um mês era a eternidade. Quantas eternidades cabem na vida de um homem? Também não tenho a resposta para isso.”
O discurso de Roman Kent foi feito numa cerimónia em Auschwitz e transmitido para o mundo. João Pinto Coelho cita-o para falar da dificuldade de conseguir respostas sempre que se fala de Auschwitz. “Para falar de Auschwitz era preciso que todos entendessem o léxico de Auschwitz”, diz este arquitecto de 48 anos que se estreia agora na literatura com Perguntem a Sarah Gross, romance sobre esse lugar que permanece com muitos silêncios, inacessível no seu significado apesar de todos os discursos à volta. “Auschwitz resiste à linguagem”, adianta, acrescentando que mais do que respostas, aquele sítio pede perguntas. A primeira pergunta que importa para começo de conversa é o ponto de partida de João Pinto Coelho para o seu romance: o que existia em Auschwitz antes de Auschwitz?
João Pinto Coelho num dos lugares com maior simbolismo em Auschwitz I, a câmara de gás. Nesta não havia “chuveiros” a iludir acerca do banho, apenas aberturas por onde o gás era introduzido pelos Sonderkommandos RUI GAUDÊNCIO
É difícil sintetizar Perguntem a Sarah Gross sem dar pistas que desvendem os mistérios da trama. Estamos perante uma estrutura clássica. Um romance que se passa em dois pontos da história do século XX e em duas geografias: Polónia (de 1923 a 1945) e a Costa Leste dos EUA (entre 1968 e 1969). Os dois tempos e os dois lugares intercalam-se. Kimberley Clarke, uma jovem professora de literatura americana, procura emprego num colégio elitista de Nova Inglaterra e encontra Sarah Gross, a directora enigmática, com um carisma invejável com quem estabelece uma relação feita de muitos silêncios e algumas revelações.
Sarah pertence a uma família judaica da Polónia e o seu passado vai sendo revelado ao leitor por Kimberley. Ela é a narradora do romance que vai tendo outras vozes — até outros narradores — em diálogos complexos, que João Pinto Coelho constrói de modo a manter o suspense num livro que consegue suplantar em interesse o enredo bem construído em que se sustenta. Ou seja, o romance é mais do que o mistério que conta.
“É uma viagem. Pensei-o dessa maneira. É sobre lugares e as pessoas nesses lugares e o que seria de cada um de nós nesses lugares”, refere o autor, português, arquitecto de formação, estudioso do Holocausto, que escolheu falar de Auschwitz sem o subterfúgio de uma paisagem ou de uma personagem portuguesas. “Para mim, isso não seria natural”, justifica, enquanto caminha por uma rua de Cracóvia, um dos cenários do romance que tem como mapa principal uma cidade perto dali e de que ninguém parece querer saber o que era antes de se ter chamado Auschwitz. 
Oswiecim
Era um território povoado por uma normalidade que foi destruída em finais de 1939. O regime nazi tomava então Oshpitzin – designação iídiche – ou Oswiecim, nome polaco de uma cidade situada 60 quilómetros a sudoeste de Cracóvia. O percurso até lá faz-se de carro, cinquenta minutos por uma estrada que percorre uma paisagem rural. Só quase a chegar à placa que indica Oswiecim se vêem alguns edifícios industriais, estações de combustível e lojas de multinacionais europeias. A Polónia integra a Comunidade Europeia desde 2004 e os sinais começam a ser visíveis, sobretudo nos centros e periferia onde a construção é muito evidente. Junto ao rio Sola, um afluente do Vístula, o rio mais longo da Polónia, que corre em Cracóvia, há uma linha de caminho de ferro que indica a proximidade com o sítio onde os alemães escolheram construir o maior campo de extermínio do regime nazi. Procura-se um nome, Auschwitz, mas a única designação que aparece é Oswiecim. Em 1945, logo após a derrota alemã, a Polónia repôs a designação de origem àquele lugar com quase mil anos de História, onde até 1939, judeus e católicos partilhavam um quotidiano que João Pinto Coelho reconstitui em Perguntem a Sarah Gross. “Quis falar de Auschwitz a partir do que lá existia antes e que as narrativas sobre o Holocausto têm ignorado”, refere, justificando a opção como uma forma de sublinhar o paradoxo que atravessa toda a narrativa do Holocausto: “Auschwitz não nasceu do nada, nasceu num lugar feliz.” 
Cai uma chuva miúda na praça principal de Oswiciem, a praça do mercado, ou Rynek Glowny. São oito da noite, está calor. A esplanada está cheia de gente a conversar e a beber cerveja. À volta pouco acontece. Actualmente com 43 mil habitantes, Oswiecim tinha doze mil no início do século XX. Metade eram judeus. A população judaica é hoje quase inexistente, marca que atravessa toda a Polónia. Com três milhões de judeus antes da II Guerra, apenas 300 mil sobreviveram ao conflito, a maioria abandonou depois o país. É na Owieciem — ou Oshpitzin — dos anos 20 e 30, entre os rios Sola e Vístula e uma floresta de choupos, que decorre parte da acção de Perguntem a Sarah Gross. “Malgrado se terem verificado algumas provocações dos gentios, sobretudo na euforia do fim da guerra [I Guerra Mundial], as duas comunidades [católica e judaica] parecia ter reaprendido a viver juntas. E, afinal, porque não o fariam? As terras davam para todos e o que sobrava não valia maiores disputas. As casas da cidade, assentes em terreiros pedregosos ou calçadas mais compostas, erguiam-se com modéstia por dois ou três pisos protegidos por coberturas de zinco. Era nessas ruas que passeavam habitualmente, judeus buliçosos e cristãos campesinos, gente igual à de todos os lugares, que crescia em número sempre que a feira enchia a Praça do Mercado.” A descrição pertence ao passado. O velho hotel onde decorrem saraus de música, encontros políticos e culturais, é agora uma farmácia; ainda há a torre da Igreja de Santa Maria e Cracóvia continua a uma hora de comboio. O nome de Oswiecim foi reposto, mas é Auschwitz que interpela, mesmo que a perspectiva esteja alargada ao incluir Oswiecim na equação, como João Pinto Coelho quis.
Auschwitz era o nome de Oswiecim “amordaçada, assustada”, refere uma personagem que se interroga: “Que diabo de nome era aquele? Que significava? Ninguém sabia, ninguém percebia Auschwitz? O que era Auschwitz?” As perguntas não são ingénuas nem querem apagar tudo o que já se escreveu sobre Auschwitz. João Pinto Coelho é um leitor atento do tema desde que leu Os Carrascos Voluntários de Hitler, de Daniel Jonah (Editorial Notícias), andava então em Belas Artes, em Lisboa. Sabe que com toda a literatura a perplexidade não se desfez apesar de tudo. “O livro falava muito da culpa dos alemães enquanto povo e das motivações que tinham. Questionava se era uma coisa específica dos alemães, se podia ter acontecido com outro povo. Essa polémica ainda se mantém e esse livro ainda continua a ser referência. Acho que foi aí que comecei a dedicar-me com mais detalhe ao que era apenas um interesse, uma curiosidade. A partir dessa leitura a pesquisa começou a ganhar mais fundamento. E até hoje.” Em 2009 candidatou-se a uma acção promovida pelo Conselho da Europa sobre o ensino do Holocausto. Tinha lugar na Polónia, no campo de Auschwitz. “Foi a primeira vez que estive em Auschwitz”, conta.
Sala onde os prisioneiros se despiam antes de seguirem o destino que os nazis lhes destinavam – as roupas eram aproveitadas para quem chegava RUI GAUDÊNCIO
Auschwitz, o campo I, fica a uns cinco minutos de carro do centro de Oswiecim. Passada a segurança, estamos no lado de dentro do arame farpado. É o lugar que irá condicionar todas as perguntas e fará entender que há respostas que nunca poderão ser dadas. São perguntas seminais já feitas por outros autores, e voltam a surgir para que fique clara — se ainda não ficou — a dificuldade de escolher a linguagem para falar e, sobretudo, escrever sobre Auschwitz. O que é frio? O que é fome? O que é medo? O que é tudo isso ao mesmo tempo num lugar? Naquele lugar que antes de ser o sítio da barbárie foi a tal cidade com gente feliz com um nome que já todos esqueceram. Morreram ali 1,1 milhões de judeus dos cerca de seis mil vítimas do Holocausto. Moraram também 140 mil polacos, 23 mil ciganos, 15 mil prisioneiros soviéticos e 25 mil de diversas origens. Só em Auschwitz I podiam estar dezoito mil prisioneiros ao mesmo tempo. Os números são sempre chamados para sublinhar o horror, para o quantificar. Foi grande o horror. Mas e o frio? João Pinto Coelho insiste nas palavras isoladamente para mostrar que o significado que elas têm não chega, como também não chega o discurso pontuado de números. “O frio em Auschwitz não é o frio de outros lugares. Sempre que falamos dessas sensações tendemos a isolá-las. Vejo-as associadas numa substância pegajosa, o tempo. Tudo ali se cola ao tempo. Cola-se-lhe tudo. O frio, a fome, o medo. Todos já passámos por sensações de grande desconforto, mas normalmente perspectivamos um fim. Agora ter tudo isso ao mesmo tempo, e o tempo ser completamente elástico… Não conseguimos conceber. O fim para aquele desespero não existia. Não se via um fim àquilo. Quando penso em Auschwitz é nisso que penso.”
O escritor italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, falou de “Inverno” em vez de “frio” para se referir à dificuldade de encontrar palavras para dar significado ao que se passava ali. “Frio, fome, medo ou Inverno, como disse Primo Levi, foram palavras inventadas por homens livres, por pessoas que não estiveram em Auschwitz”, diz João Pinto Coelho, remetendo essa ideia para autor de Se Isto é um Homem, o romance publicado em 1947 onde o Levi contou a sua experiência naquele campo e é uma referência para Pinto Coelho pelo modo como escreve, deixando que o tal silêncio permaneça. É difícil não pensar em Primo Levi como se lê isto em Perguntem a Sarah Gross:
Um dos pavilhões de Birkenau onde se encontravam as latrinas destinadas aos prisioneirosRUI GAUDÊNCIO
“Como se descreve a fome em Auschwitz? Por palavras? Haveria que as inventar, primeiro. Não, a fome naquele lugar não se media pelo verbo, antes pela aritmética das horas. As horas que passavam desde a última refeição e as horas que faltavam até à próxima. Quando finalmente se avistasse o fumo da panela, a contagem far-se-ia ao minuto. E os últimos minutos, já contados no fim da fila, far-se-iam a passos. Passos lentos, travados, depravados. Depois, aquilo que as esperava não passava de um engano sádico…”
A dúvida
Um dos objectivos do regime nazi era acabar com a empatia. Muitos livros de muitos autores referem isso. Como ser carrasco, tendo alguma emoção? O gelo de sentimentos estava na burocracia. Era preciso ser burocrata. Na literatura, João Pinto Coelho diz que a tentativa de causar um efeito de empatia com a vítima do nazismo “é fácil”: “Quem não se comoveu com O Diário de Anne Frank? Já todos sentimos empatia com os judeus vítimas do Holocausto”. Mas pôr-se no lugar do perpetrador, do carrasco, sentir qualquer empatia com ele?
O desafio é inquietante e sobre ele João Pinto Coelho diz ainda: “Talvez se ganhasse muito em ensinar o Holocausto a partir daqui.” Reformula a ideia: “O ensino do Holocausto devia ser feito pela dúvida.” Olhar o Holocausto a partir do lugar de quem era livre para fazer opções. “Os judeus naquele tempo não tinham opção.” A opção estava no homem livre, paradoxal, contraditório. É desse lugar muito incómodo sempre que se fala de Holocausto, o do eu perante a sua circunstância, que João Pinto Coelho constrói o romance. Posto de outra forma, Perguntem a Sarah Gross nasce da desistência por parte do autor de encontrar uma resposta. “A certa altura desisti de procurar respostas. A dúvida chega-me. Estou satisfeito por ter dúvidas.” Ter essa dúvida comigo, perguntar o que é que eu faria em determinadas circunstâncias, tornou-se suficiente para mim. Sei que só num contexto parecido com aquele, em que eu possa ou não tomar opções, é que vou encontrar essas respostas. Neste momento não tenho essa esperança. Aliás, o título do livro passa por aí. Perguntem porque eu não sou capaz de dar as respostas.”
É a quarta vez que João Pinto Coelho está em Auschwitz. Passa pouco das nove da manhã, Julho está a acabar e continua a fazer calor ali, no Sul da Polónia. Com o sol ainda baixo as sombras dos 28 edifícios que compõem o campo alongam-se no chão. Para trás ficaram os edifícios que serviam de armazém, garagem, cozinha, de apoio administrativo. Passa-se o portão com a fraseArbeit macht frei, “o trabalho liberta”. Não é a frase original. Essa foi roubada em 2009, cortada em três partes, e entretanto já recuperada pela polícia polaca. Espera, entretanto, a reestruturação do museu que irá acontecer nos próximos anos, para voltar ao local de origem. “Tinha passado os últimos anos, sobretudo os últimos dois anos, a idealizar o que seria Auschwitz. Acho que não foi tão surpreendente como estava à espera”, conta sobre a primeira vez ali. Recorda a confusão de cores e de sons. A contradição. “É evidente que por muito que se leia, se veja filmes e documentários, quando se contacta com o lugar a sensação é diferente. É um lugar estranho. Quando vamos a Birkenau há uma zona lindíssima, junto à floresta. A estranheza do lugar, a beleza do lugar e o horror do lugar convivem de uma maneira que nos deixa sem palavras. É aquilo a que chamamos muitas vezes o indizível, ou o inexprimível. Ir a Auschwitz, por muitas vezes que se regresse, é entrar sempre num território de contradições.”
RUI GAUDÊNCIO
Os passos calcam a gravilha e param numa esquina, no sítio onde em 1942, 43, 44 uma orquestra de prisioneiros tocava diariamente para que outros prisioneiros acertassem a marcha ao ritmo das notas. “Os nazis acreditavam que com música a marcha seria mais ágil”, refere Lukasz, o guia polaco, em mais um início de visitas no campo I. A uns cinco quilómetros, em Auschwitz II, mais conhecido por Birkenau, há outro lugar assim, onde outra orquestra tocava para impor a cadência aos outros prisioneiros, “num clima de festividade mórbida”, escreveu João Pinto Coelho no romance. Sempre o paradoxo. “Acho que é por isso o silêncio”, pelo absurdo. Os números, o amontoado de cabelos que eram rapados à chegada ou quando os corpos saiam das câmaras de gás, os sapatos, as próteses,  sala nde estão guardados os utensílios de cozinha que eram trazidos por quem acham que estava só a mudar de casa. Número para dar a dimensão. Como a sala onde eram deixadas as roupas, ou onde se vestiam as fardas às riscas que identificavam os prisioneiros e que também tinham um número. Era a esse número que era preciso responder a cada dia de sobrevivência. Os números a dizer o horror para que o horror não se repita…  “Não pode repetir-se”, disse o filósofo alemão Theodor W. (1903-1969) no livro Teoria Estética. Disse também que por essa barbárie exemplar não seria possível escrever ficção, fazer poesia, depois de Auschwitz. Tudo para que nada do que ali se passou pudesse repetir-se.
Sobre isto, João Pinto Coelho acrescenta outro testemunho. O de Piotr Cywinski, director do museu de Auschwitz, no prólogo de um livro que junta testemunhos de investigadores que dedicaram a via da estudar o que se passou em Auschwitz. “Ofereceram-mo na primeira vez em que estive aqui e passou a ser o meu livro de cabeceira”, acrescenta o autor de Perguntem a Sarah Gross. “Pergunta-se sempre porquê?, como foi possível?”, continua Pinto Coelho, defendendo que qualquer tentativa de resposta terá de ter a palavra indiferença. Nesse prólogo, Cywinki escreve: “Por debaixo da janela do meu escritório, oposto ao Crematório I, dentro do perímetro de Auschwitz I, passam todos os dias muitos milhares de pessoas. Sobretudo jovens. A maioria com os rostos concentrados, desorientados, deprimidos. Acabaram de ver tudo aquilo que desencadeia a mais determinada indignação em cada um de nós. Ou deveria, em princípio. O problema é que tal não acontece.
Todos os anos muitos milhões de pessoas visitam museus e centros educacionais dedicados à história do Holocausto. Essas pessoas, de uma forma muito emocionada, perguntam-se como foi possível que a resistência não tenha feito explodir as linhas férreas, que os Aliados não tivessem bombardeado as câmaras de gás, que a Cruz Vermelha nada tivesse feito, que as autoridades morais e religiosas não tivessem chamado as coisas pelos seus nomes.
Já ao jantar, nessa mesma noite, essas mesmas pessoas, observando os acontecimentos do Ruanda ou Darfur, perguntar-se-ão: o que está a NATO a fazer? Porque estão ausentes os capacetes azuis? O que tem a União Europeia a dizer sobre isso? Como é estranho que ninguém faça nada!
Observando as pessoas que por mim passam, ao terminar a sua visita a Auschwitz I e que lentamente se dirigem a Auschwitz II Birkenau, interrogo-me por vezes quantos dias passarão até que cada uma delas comece a rejeitar a sua responsabilidade pessoal, a responsabilidade de hoje, descarregando-a nas várias instituições, preferencialmente instituições internacionais. Hoje estão consternadas pelo silêncio do mundo naqueles dias. Amanhã farão parte desse silêncio.”


Nós
Os visitantes de Auschwitz têm esse silêncio que ali parece original, determinante no tal léxico. A média no Verão ronda os sete mil por dia, desde que as portas abrem, às nove da manhã, até ao encerramento, às sete da tarde. É uma romaria estranha onde cada um parece querer ver no outro sinais. De dor, de revolta, de consternação, de entendimento, de perplexidade. Mas onde ninguém se olha muito. “Aconteceu ali, então pode acontecer outra vez… Pode acontecer em qualquer lugar”, afirmou Primo Levi. "Nunca mais não é um programa político, mas uma decisão pessoal. Significa nunca mais por causa de mim, nunca mais em mim, nunca mais comigo”, declarou ainda Piotr Cywinki na cerimónia dos 70 anos de libertação de Auschwitz, a 27 de Janeiro. Voltamos ao princípio de uma conversa possível sobre Auschwitz, diz agora João Pinto Coelho: “Tudo isto é uma realização plenamente humana. Foi feito uma vez e pode voltar a ser feito. Os actores não desapareceram. Os actores somos todos nós.”
A questão é inquietantemente simples: como que se aplica o "nós" ao Holocausto. Estamos agora num dos pontos de onde se consegue ter uma perspectiva global do campo. Arame farpado à frente, atrás, à esquerda e à direita. Vigilância permanente. Os edifícios alinhados e um pátio estreito onde não parece concebível pensar em milhares de pessoas juntas. Ao sol, tenta-se imaginar o frio do Inverno polaco. O clima é extremado e fragiliza qualquer resistência. Ali estavam os que já tinha passado a primeira selecção, a de um duche antes de uma refeição quente e roupa lavada. Era esta a mentira, uma das mentiras. “Há um livro escrito por um historiador americano, Christopher Browning, que se chama Ordinary Men. Ele fez entrevistas com elementos de um batalhão de polícia que participou em muitos massacres durante a invasão da União Soviética, que matou milhares de judeus com uma brutalidade incrível, e mostrou-nos o outro lado desses homens. E são tão parecidos connosco. A dúvida é essa, a do nós, e não a do querer compreender a Alemanha”, continua João Pinto Coelho que num momento da sua vida teve vontade de escrever sobre o que muitos teóricos defendem que não pode ser escrito. “É um assunto que me acompanha há anos e se um dia eu escrevesse seria sobre Auschwitz”, justifica.

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