sexta-feira, 20 de março de 2015

A Convenção de ÉVORA-MONTE: RECORDAR "HORAS" DE PORTUGAL



ÉVORA-MONTE — NO PRIMEIRO CENTENÁRIO

Faz hoje um século que o Rei D. Miguel, vencido por uma série de circunstâncias, em que avultam as razões de ordem internacional, teve que aceitar a Convenção de Évora-Monte e abandonar o trono português à dinastia estrangeira e usurpadora.
Se há data que represente uma profunda revolução na vida nacional é a de 26 de Maio de 1834.
Em 1820, tinha-se instaurado o regime constitucional entre nós; mas, dessa vez, a transformação política fora mais aparente e retórica que real. Três anos volvidos, a novidade desconjuntava-se, quase, sem se saber como, e a Nação regressava às normas tradicionais do seu viver. Se o Rei D. João VI não morre tão subitamente, se o seu sonho patriótico de tornar a abraçar sob a mesma coroa os dois reinos de aquém e além Atlântico, o não leva a ser omisso sobre os direitos de seu filho segundo à coroa lusitana, talvez se tivessem evitado os danos duma guerra civil e dum regime contrário à índole e, aos interesses do povo português.
1826. O príncipe desnaturalizado e a Maçonaria conseguem impor a Carta. Mas, como em 1820, a nova revolução não passou da epiderme. Com muita perspicácia dizia a jovem infanta-regente a A`Court, que «se D. Miguel desembarcasse, ela não poderia mais contar com a fidelidade de um só regimento: que as próprias câmaras dos pares e dos deputados seriam pelo infante».
De facto, bastou a chegada do monarca legítimo a Lisboa para que a Nação, vibrante de entusiasmo, restaurasse as instituições tradicionais.
Em 1834, porém, as coisas passaram-se de modo mais diverso. Desde o desembarque do ex-imperador do Brasil e dos estrangeiros arregimentados nos bairros suspeitos de Londres, o país vivia em incessante guerra civil. A imperícia (e a traição?) de alguns comandantes portugueses e a falta de tacto do governo de Lisboa levaram um exército dezenas de vezes maior que o invasor a sofrer pesadas derrotas e a retrair-se até à concentração de Évora-Monte. A luta fraticida custara milhares de vidas e centenas de contos de réis. Os partidários das duas Causas odiavam-se. A facção usurpadora, desde a Terceira que promulgava uma legislação revolucionária tendente a destruir o que de português havia em Portugal. O geometrismo de Mousinho de Silveira levantava um Estado afrancesado, inadaptável à Nação. A transformação profunda ia dar-se, à custa ainda de muito sangue — não esqueçamos as sucessivas revoltas de 1851, e os milhares de vítimas que os triunfadores prostraram em vinganças repugnantes — e à custa do desbarato de bens particulares e do Estado, desbarato que levou o conde da Taipa a dizer que no Poder estava «uma camarilha feita para devorar o país a sombra duma criança», que era D. Maria II.


Caetano Beirão

In «A Voz», n.º 2611, pág. 1, 26.05.1934.

(Nonas)


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