terça-feira, 21 de julho de 2015

In "DN"







Nem novo, nem credível


por BERNARDO PIRES DE LIMAHoje




Com aquele ar de quem está sempre de luto, o senhor Hollande propôs uma ideia com mais de vinte anos. Aquilo que muitos dizem ser a última esperança para criar uma "alternativa à Alemanha", não é mais do que a expressão do vazio que percorre a social-democracia europeia. A "governação do euro" é uma recauchutagem que não faz mais do que insistir na mitificação dos pais fundadores da Europa pós-1989, a qual carece de alguma dose de humildade. A evolução prática da moeda única mostra bem o brilhantismo desses pais fundadores, a começar em Mitterrand e a acabar em Juncker. O que esta "ideia" de Hollande nos diz é que, tal como em 1989-1991 o euro foi uma das fórmulas (a par da manutenção da "nova" Alemanha na NATO) para garantir uma reunificação alemã dentro das instituições euro-atlânticas, também hoje o dilema francês passa por gerir o "momento unipolar" alemão na Europa. Hollande sabe, contudo, que Berlim está satisfeita com o Eurogrupo. Reforçar o seu enquadramento jurídico é mais plausível do que criar uma nova entidade, para mais reduzida a seis fundadores. Expurgar mais de metade dos países do euro dessa suposta "vanguarda" seria cavar um fosso ainda maior do que aquele em que o debate entre "credores " e "devedores" nos vem enterrando. Aliás, a ideia de um orçamento comum no euro também tem barbas, não nasceu com Hollande. Ou seja, apresentar um "plano" salvífico do euro como se fosse uma criação iluminada de Paris é tão desonesto como vazio. Convém dizer que Hollande é o mesmo que ajudou a moldar as cedências de Tsipras no desastroso acordo celebrado há dias, com o argumento da impossibilidade do grexit, e que agora desdenha a participação plena de Atenas numa governação do euro, como aliás de Portugal. Imagino que desta vez António Costa tenha menos pressa em saudar o presidente francês.

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