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Com apoio na experiência
por ADRIANO MOREIRAHoje
Talvez um dos sinais de que cresce a inquietação sobre a eventual quebra da paz, para lá da "guerra em toda a parte" que preenche o capítulo das guerras atípicas que se multiplicam, seja a súbita explosão de investigação e ensaios sobre a guerra 1914-1918, não pelo aniversário, talvez antes porque a memória dela e da mais recente e mais lembrada de 1939-1945 estão a ser comparadas pelas gerações vivas com a perturbação diplomática em curso.
O facto parece ser sobretudo o receio do regresso da guerra, com os sinais que apontam para o declínio dos projetos de governança mundial da ONU, e regional da União Europeia, em que a nova governança parece dedicar um cuidado, antes esmorecido, ao regresso das fronteiras e da proposta organização de um exército, o que obriga certamente a olhar para a situação financeira. Escritores como Hervé Coutau-Bégarie e Martin Motte (2013) trataram oportunamente dos Approches de la Géopolitique de l"Antiquité au XXIe Siècle, mas foram mais específicos, no retorno "à história e ao pensamento estratégico", Lawrence Freedman (2013), desenvolvendo um olhar raramente tranquilo sobre a Ásia e o Ocidente como fez Kent Calder em Asia in Washington (2014), ou, olhando ao globalismo, Laïdi, com Le Reflux de l"Europe (2013), mostrando inquietação igual na avaliação da intervenção das organizações internacionais e debilidade da ordem jurídica em que se apoiam.
Talvez a inquietação mais evidente, que cresce nesta investigação suscitada pela circunstância, seja a que leva a comparar a complexidade das iniciativas diplomáticas e a frequência com que, à margem, os conflitos armados surgem por incidentes aparentemente banais. O começo da guerra de 1914-1918, agora mais em vista por ocasião do aniversário, teve por causa a banalidade do assassínio de um príncipe e o resultado de vários milhões de mortos. Infelizmente, e a recente produção científica militar devida a oficiais portugueses mostra que estão atentos, os vários conflitos regionais que temos vivido não são talvez os que apontam para a tal causalidade ocasional: Caxemira parece um hábito, a estratégia russa para o Cáucaso parece ter na base o esquecimento da memória histórica dos seus interesses nacionais pelos seus antigos adversários da NATO e da União Europeia, a guerra dos cartéis parece não atrair o entendimento suficiente das secretarias de Estado, mas a questão do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (ISIS) exige outra concentração e outro entendimento.
Não se trata já do "fraco contra o forte", que pode impor a sua vontade, como praticou a Al-Qaeda, talvez com projetos mais vastos que o próprio Osama Bin Laden não enunciou, por não os considerar viáveis no seu tempo. Também não é apenas a gravidade de este ter incluído valores religiosos no conceito estratégico do movimento e fazer da quebra da relação de confiança entre as sociedades civis ocidentais e os governos respetivos um efeito a prosseguir. Agora, trata-se de um projeto também baseado numa proclamada interpretação do Corão e com objetivos políticos bem definidos, sem olhar ao que os ocidentais chamam direito da guerra, incriminando várias práticas desta em Nuremberga.
Agora, um dos seus porta-vozes declarou convictamente, dirigindo-se aos ocidentais, "vamos conquistar a vossa Roma, quebrar os vossos crucifixos e escravizar as vossas mulheres", somando ao fanatismo de restabelecer o sultanato a reposição do poder no antigo império, refinando nos métodos terroristas o principiante Bin Laden. A Segunda Guerra Mundial, 1939-1945, ocorreu porque ninguém parece ter acreditado no livro de um desequilibrado que chegou ao poder pelo voto e causou pelo menos cinquenta milhões de mortes. Agora, parece necessário prestar maior cuidado, sem desculpa, em vista do alargar dos objetivos e dos métodos. A responsável pelas relações internacionais e pela segurança e defesa da União Europeia precisa da atenção dos ocupados especialistas de orçamentos e tributos.
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