terça-feira, 7 de abril de 2015

Do escritor Manuel da Fonseca, in Net











De Manuel da Fonseca (1911-1993), in Pesquisa Net, www.escreveretriste.com




"Se não esta­mos cru­ci­fi­ca­dos, anda­mos lá perto. Mudou tudo à nossa volta. Tanto que, da cabeça aos pés, o nosso corpo estra­nha. Estra­nha muito e nada se entra­nha. Um pro­fes­sor de Har­vard (quem me dera ser um pro­fes­sor de Har­vard!) ditou-nos a sen­tença. E não pen­sem que ele é como Pila­tos, que lava daqui (ou de nós) as suas mãos. O pro­fes­sor Lie­ber­man é claro como água: o corpo que temos não serve. O mundo mudou e este corpo não é já deste mundo, como Cristo disse aos que o jul­ga­vam. Ou seja, este corpo não tem minis­tros que o defendam.


O cére­bro, con­fun­dido pela vida seden­tá­ria, deixa-se atin­gir pelo Alzhei­mer. Os olhos, que já foram de aven­tu­rei­ros caça­do­res e colec­to­res de gran­des espa­ços livres, con­fi­na­dos a salas fecha­das e a écrãs dimi­nu­tos converteram-se à mio­pia e à dege­ne­res­cên­cia macu­lar. Os seios e a prós­tata, assis­tindo impo­ten­tes à inva­são do corpo por pode­ro­sas hor­mo­nas, desa­bro­cham em can­cros. O ven­tre, outrora seco e firme, parte inte­grante de um corpo em acção, expande-se em obe­si­dade e açú­car. Os nos­sos pobres den­tes, car­re­ga­dos de cáries à conta de fécu­las, ami­dos e mais açu­ca­res, mor­rem de inveja dos den­tes sãos de qual­quer chim­panzé. Des­cal­ci­fi­ca­dos, os ossos dos nosso velhos fracturam-se como palha seca. O cora­ção e as arté­rias, sub­me­ti­dos a um doce e letal bom­bar­de­a­mento e à ausên­cia de exer­cí­cio do nosso aban­do­nado corpo, rompem-se em ate­ro­es­clo­rose, taqui­car­dias, arrit­mias, isque­mias e mil cardiopatias.


Este corpo já não nos serve. Nós, huma­nos, pre­ci­sa­mos de um corpo novo. O que temos — tomai e comei todos — já não é um corpo para o século XXI. Temos de meter metal nisto, mate­ri­ais leves, chips, pier­cings no cora­ção. Bem podem os sadu­ceus dizer que não há res­sur­rei­ção. O corpo que sécu­los sepul­ta­ram, esse corpo que mor­reu de tan­tos peca­dos, no alvor deste século XXI, tem de res­sur­gir, lumi­noso, fos­fo­res­cente de ómega 3, elec­tró­nico, para os novos sécu­los de face­book, ins­ta­gram, açú­car e soli­dão que hão-de vir.

Amen.

Sem comentários:

Enviar um comentário