
De Manuel da Fonseca (1911-1993), in Pesquisa Net, www.escreveretriste.com
"Se não estamos crucificados, andamos lá perto. Mudou tudo à nossa volta. Tanto que, da cabeça aos pés, o nosso corpo estranha. Estranha muito e nada se entranha. Um professor de Harvard (quem me dera ser um professor de Harvard!) ditou-nos a sentença. E não pensem que ele é como Pilatos, que lava daqui (ou de nós) as suas mãos. O professor Lieberman é claro como água: o corpo que temos não serve. O mundo mudou e este corpo não é já deste mundo, como Cristo disse aos que o julgavam. Ou seja, este corpo não tem ministros que o defendam.
O cérebro, confundido pela vida sedentária, deixa-se atingir pelo Alzheimer. Os olhos, que já foram de aventureiros caçadores e colectores de grandes espaços livres, confinados a salas fechadas e a écrãs diminutos converteram-se à miopia e à degenerescência macular. Os seios e a próstata, assistindo impotentes à invasão do corpo por poderosas hormonas, desabrocham em cancros. O ventre, outrora seco e firme, parte integrante de um corpo em acção, expande-se em obesidade e açúcar. Os nossos pobres dentes, carregados de cáries à conta de féculas, amidos e mais açucares, morrem de inveja dos dentes sãos de qualquer chimpanzé. Descalcificados, os ossos dos nosso velhos fracturam-se como palha seca. O coração e as artérias, submetidos a um doce e letal bombardeamento e à ausência de exercício do nosso abandonado corpo, rompem-se em ateroesclorose, taquicardias, arritmias, isquemias e mil cardiopatias.
Este corpo já não nos serve. Nós, humanos, precisamos de um corpo novo. O que temos — tomai e comei todos — já não é um corpo para o século XXI. Temos de meter metal nisto, materiais leves, chips, piercings no coração. Bem podem os saduceus dizer que não há ressurreição. O corpo que séculos sepultaram, esse corpo que morreu de tantos pecados, no alvor deste século XXI, tem de ressurgir, luminoso, fosforescente de ómega 3, electrónico, para os novos séculos de facebook, instagram, açúcar e solidão que hão-de vir.
Amen.
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