terça-feira, 7 de abril de 2015

As Perseguições de que ninguém fala...Artigo de José Manuel Fernandes


Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher

Boa noite!



O Macroscópio de hoje não tem um só tema, tem dois. Procurarei ser sintético, mas os acontecimentos dos últimos dias, mesmo não sendo surpreendentes, suscitam reflexões importantes.

Vou começar pela Páscoa. Não para recordar a forma como foi celebrada, mas para chamar a atenção para algumas peças jornalísticas muito interessantes.

A primeira é um ensaio do Wall Street Journal sobre o Papa Francisco, Pope Francis and the New Rome. Escrito por Francis X. Rocca, um repórter que segue regularmente as novidades do Vaticano, o texto defende a ideia de que “The most radical part of Francis’ papacy is his embrace of the liberalizing principles of Vatican II—from poverty and sexual ethics to church governance.” É difícil sintetizar numa só passagem as ideias do autor deste ensaio, mas esta reforça, e em parte explica, o seu ponto central:
Pope Francis, the first pontiff to have received holy orders after Vatican II, is very much a son of the council. It took place during his years of study in the Jesuit order in Argentina—he was ordained just four years after it ended—and he enthusiastically followed the proceedings in Rome. On the eve of the 2013 conclave that elected him pope, then-Cardinal Bergoglio identified the main threat to the church: not the encroachment of secular culture but a tendency among Catholics themselves, especially within church institutions, to retreat into ghettos of their own making. The risk, he said, was of “theological narcissism.”

Francisco, recorde-se, foi eleito Papa a 13 de Março de 2013, pelo que a passagem do segundo aniversário do seu pontificado e a análise do que ele trouxe de novo foi também o tema do último Conversas à Quinta, o programa semanal do Observador com Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto. Em Dois anos depois, para onde vai o Papa Francisco? É um programa em que, com a inteligência e a cultura que os caracterizam, vão mostrando como a Igreja Católica nunca deixou de evoluir ao longo das últimas décadas mesmo tendo contado com Papas de estilos muito diferentes (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco). É muito interessante e também pode ser ouvido em podcast.

Termino este primeiro bloco com um texto mais controverso de um jornalista também muito controverso – o correspondente no Médio Oriente do diário britânico The Independent, Robert Fisk – que se debruça sobre os dias difíceis que vivem os cristãos naquela região: The Christian tragedy in the Middle East did not begin with Isis. Na semana em que ocorreu o massacre de 148 estudantes, a maioria cristãos, na Universidade de Garissa, no Quénia, na semana em que o Papa Francisco aproveitou as celebrações da Páscoa para lembrar as perseguições e massacres – “Hoje vemos os nossos irmãos perseguidos, decapitados e crucificados na sua fé em Ti, os nossos olhos são frequentemente cúmplices com o nosso silêncio” –, Fisk lembra dramas mais antigos e destaca a importância de nos recordarmos do genocídio dos arménios às mãos dos otomanos, um genocídio ocorrido há exactamente 100 anos:
But the Christian tragedy in the Middle East today needs to be re-thought – as it will be, of course, when Armenians around the world commemorate the 100th anniversary of the genocide of their people by Ottoman Turkey. Perhaps it is time that we acknowledge not only this act of genocide but come to regard it not as just the murder of a minority within the Ottoman Empire, but specifically a Christian minority, killed because they were Armenian but also because they were Christian (many of whom, unfortunately, rather liked the Orthodox, anti-Ottoman Tsar).

(Nota importante: leiam, de puderem – é reservado a assinantes – o texto de Henrique Monteiro no Expresso Diário de ontem,Garissa, os cristãos e a honestidade intelectual da Europa. Extracto: “Ninguém, no geral, é perseguido em países de maioria cristã. No entanto, os cristãos são perseguidos em quase todos os países onde constituem uma minoria. E são-no sem um protesto audível e claro dos líderes políticos de países poderosos – como os EUA, a França, o Reino Unido, a Alemanha, a Itália, etc. – em que a maioria da sua população é, justamente, cristã. Os mesmos líderes que “desviam o olhar para o outro lado”, como referiu o Papa Francisco, são os que pedem (e bem) que a Igreja se afaste dos assuntos mundanos; que a Igreja se desculpe pelos excessos passados.”)

Mudo agora de tema e passo à crise grega, que parece ter entrado agora numa nova fase, até porque Tsipras vai estar amanhã reunido com Putin, o que está a deixar a Europa à beira de um ataque de nervos. Vou começar as minhas sugestões pela entrevista que o Observador fez a Manos Matsaganis, um economistas grego de esquerda que actualmente lecciona em Harvard mas que está aterrorizado com o que se está a passar no seu país: “Estratégia do governo grego tem sido ridícula”. Eis o retrato que faz do que se está a passar no seu país: “Quando as eleições antecipadas foram marcadas, a economia grega estava a recuperar um pouco, ainda que não se possa dizer que estivesse em crescimento robusto. Mas, pelo menos, tinha-se terminado a recessão. Agora, voltámos aonde estávamos há três anos, com a economia em recessão profunda, desemprego em alta, bancos completamente sem liquidez, crédito empresarial inexistente, investimento externo congelou e as receitas fiscais estão a cair. Já não existe qualquer superávit primário, foi-se. Nem o governo nega isso, que o cenário está mais negro do que se previa.”

Há neste momento, no que respeita à Grécia, uma espécie de corrida contra o tempo, pois o dinheiro nos cofres de Atenas está a esgotar-se (para quem quiser ter uma ideia de como isso está a suceder recomendo esta pequena e bem apresentada síntese do Wall Street Journal, When Will Greece Run Out of Money?: para uma explicação mais detalhada, há um bom artigo no EUObserver,Greece's cash-flow crisis). E não parece possível que o governo grego possa resolver o problema pedindo apenas ajuda a Putin, como explicava hoje Wolfgang Münchau no Financial Times:Tsipras will not find salvation in Moscow. Breve passagem do seu argumento:
Consider the political dynamics within the EU and in the European Council of heads of government in particular. Yes, Athens has a veto on the renewal of sanctions. But it is also a recipient of EU funds. From that perspective, a totally confrontational attitude would backfire financially. Do you really think the EU would continue to pay subsidies to Greece if Athens were to exit the eurozone and tie up with Russia? So what should Mr Tsipras talk to Mr Putin about? My advice would be to stick to the weather and sports, and then quickly return home and work on a coherent economic strategy — one that does not rely on Russia.

Mas claro que as opções que se colocam a Tsipras são cada vez mais escassas, o que vem bem explicado num artigo de Hugo Dixon, Editor-at-Large da Reuters, que encontrei no jornal grego Ekathimerini: Tsipras needs rupture with far-left, not Brussels. É um texto onde se explica como o primeiro-ministro grego pode ter tantos problemas em casa, e junto dos seus parlamentares, como quando se desloca a Bruxelas. É que, se conseguir chegar a algum acordo com os credores, “they are likely to require him not just to make promises but to start implementing them before they release any more cash. This is where the prime minister will run into a confrontation with his far-left faction, which accounts for around 30 to 40 of his 149 members of parliament. They will accuse him of selling out, and may well vote against the laws needed to implement a deal with his creditors.”

A terminar um artigo muito interessante do El Pais, não sobre a Grécia, mas sobre como têm surgido e crescido os novos partidos radicais que já mudaram a paisagem política grega e podem vir a repetir o feito noutros países. Os repórteres do diário espanhol foram ver como o Podemos medrou numa incubadora muito especial: o campus da faculdade de Ciências Políticas da Universidade Complutense. Ou seja, nos gabinetes e nas salas de aula de alguns dos seus principais dirigentes, como Pablo Iglesias. Em El laboratorio de Podemos en la Universidad Complutensedão-se exemplos de como um território que devia ser de debate inclusivo e aberto a todas as ideias, se transformou numa zona militante onde quem não pensa como os adeptos do Podemos acaba a silenciar as suas ideias. Pequeno extrato:
No todos los estudiantes están dispuestos a hablar. “Basta de manipulación. Fuera prensa burguesa de la universidad”, se lee en los pasillos. Los estudiantes Erasmus se sorprenden ante el humo que hay en el interior del edificio, y que no es solo de tabaco. A la puerta de la cafetería, que paga por la concesión, hay un puesto regentado por unos jóvenes que venden productos parecidos sin pagar impuestos ni alquileres. “La facultad es plural, pero el alumnado que no es de izquierdas es reticente a manifestar su opinión en un debate, le cuesta”, describe el profesor Rubén Herrero de Castro, que se declara “conservador”. “Solo se escucha al 50% de izquierdas”, añade. “La facultad ha sido un espacio de aprendizaje, no solo académico”, señala Héctor Meleiro, que estudió en Somosaguas [assim se chama este campus] y ha participado en todas las iniciativas formadas por o alrededor de Podemos. “En la facultad también aprendimos la importancia de ocupar espacios en las instituciones para asegurar los cambios políticos”.

Por hoje é tudo. Estarei de regresso amanhã, de novo pelo fim da tarde. Até lá, bom descanso e boas leituras.

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