sexta-feira, 10 de abril de 2015

A descrição de paisagens, na Literatura Portuguesa.








Aquilino Ribeiro é talvez o nosso último grande clássico. Passados cinquenta anos sobre a sua morte, e depois de tanta experiência, de tantos experimentalismos, artísticos e outros, ainda bem que o foi (clássico), e valha-nos isso! É pois um autor para ler devagar, que não se casa bem com a diluição actual duma certa identidade que foi tão nossa, nem com a desestruturação cultural a que se assiste, nem com muitas das regras gramaticais que a moderna literatura começou a praticar, ou a despraticar, nem com a aridez vocabular corrente, nem com a arrogância ridícula da literatura televisiva dominante, nem com a incultura transformada em cultura, nem com o palavreado ininterrupto, embora construído com meia dúzia de palavras. Menos ainda com a moderna vertigem substitutiva dos estímulos, que tira o sabor à vida, e ainda menos com uma era de electrónicas em que tudo desaparece no momento em que aparece, etc. etc.

Nesta sentido Aquilino é hoje uma força conta a corrente, e, portanto, uma rocha a que nos podemos agarrar. Em suma, um autor com um valor educativo hoje altamente acrescentado, e infelizmente desaparecido da Escola Literária do nosso percurso liceal.


É, por outro lado, a imagem dum Portugal que existiu e de que pouco ou nada já resta: rural, pobre, política e economicamente injusto, mas ativo, habitado e animado, demograficamente vivo, humano e humilde, mas teso, finório e boçal, afável e velhaco, troca-tintas e honrado.Leia-se "O ROMANCE DA RAPOSA". Desta mistura donde todos descendemos, Aquilino dá-nos testemunhos através de tipos humanos inigualáveis, em inúmeras histórias e situações pitorescas, cruéis, hilariantes, traiçoeiras, amenas…Também neste caso, leiamos "O Malhadinhas"!

Mas o melhor de Aquilino está no gosto de descrever as paisagens beirãs, as aldeias, as festas, os trabalhos, as pessoas, os bichos; o amor na procura das raízes vocabulares e sintácticas, no trabalho da língua, de sentirmos o formão e a goiva da sua marcenaria fina afeiçoando uma madeira dura e macia, que deixa, depois de bem trabalhada, obra feita, obra perfeita, escrita para durar.

Aquilino Ribeiro é sobretudo um prosador. Sentimo-lo a saborear o que escreve e a amar o que descreve e conta. E ao lê-lo, mergulhamos numa portugalidade antiga que nos moldou os ossos e os sentimentos, para o melhor e o pior, e de que andamos esquecidos, ou a tentar fugir, cheios de prosápia. .

A grande literatura é essa forma incessante de nos reorganizarmos, de acrescentarmos ao que éramos uma outra nova e mais rica forma de ser, de sentir por nós dentro esse oxigénio, que a funda enxada, cavando, fortalece e revigora.

Ler Aquilino é mergulhar nesse Portugal desaparecido, rural, duro, resistente, devoto e anticlerical, macio e cruel, atrasado e finório, que era o mundo que foi o dos nossos pais, avós e tetravós. Para os mais novos é um modo de ter notícia desse tempo perdido, de conhecer os sentimentos, as vozes, os olhares, os valores estéticos e morais de que era feito, e, ao mesmo tempo, ter a experiência de um País profundo, ancestral, resultante da acumulação de muitos sedimentos de gentes, hábitos, culturas, lugares, ocorrências, e que é, desta terra pobre e castigada, muito da sua melhor herança. Este Portugal existe, ainda!

Se todos os portugueses, hoje, pudessem ler, gostar e interpretar Aquilino Ribeiro, pelo que significaria de amor à Pátria, de conhecimento dela e de sentido crítico para os seus defeitos e qualidades, que grande, que incomparável mudança nas mentalidades não sofreríamos todos....




É nestes autores, a que chamamos "clássicos", porque têm uma obra sempre nova e emblemática, que podemos ir buscar o melhor e o pior da nossa sociedade. Lá estão as nossas virtudes e os nossos defeitos, lá está a vida liminar do povo que somos e lá está também o apelo ao amor pelas nossas raízes.

Sem comentários:

Enviar um comentário