
CAVACO QUER RECUSAR UM GOVERNO DO PS. E PODE?
(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 13/11/2015)
O Presidente da República não quer dar posse a um governo do PS, apoiado pelo BE e pelo PCP. Basta reler as palavras que proferiu quando percebeu que o PS não iria sustentar um governo do PSD e CDS para saber exatamente o que Cavaco pensa da situação que tem à sua frente. A questão é: e pode? Tem outras alternativas a não ser chamar António Costa para formar o novo executivo?
Não é preciso ser um génio para saber que o Presidente não gosta do PS. O seu discurso de posse no segundo mandato foi uma declaração de guerra ao governo de José Sócrates e, depois disso, contribuiu ativamente para o seu derrube. Agora, está radicalmente em desacordo com a decisão de António Costa lhe apresentar uma alternativa governativa de esquerda quando o que tinha na sua cabeça é que PSD e CDS formariam um executivo, que iria governando com o apoio pontual do PS no caso de temas essenciais, como o orçamento e questões europeias.
Para Cavaco foi seguramente um choque perceber que isso não iria acontecer. Daí a sua reação destemperada e crispadíssima quando se tornou claro para ele que o governo PSD/CDS iria cair na Assembleia da República às mãos de uma frente de esquerda, que nunca existiu no Portugal democrático. Esse discurso, se serviu para alguma coisa, foi para extremar ainda mais a situação.
Na verdade, logo após as eleições de 4 de outubro, o Presidente não se deu sequer ao trabalho de tentar conversar com António Costa. Chamou Passos Coelho e incumbiu-o de formar governo. O desprezo a que votou o PS não é a razão de tudo o que se está a passar mas não ajudou nada. Quando Passos lhe apresentou um governo sem apoio maioritário no parlamento já era claro para todos que ele não ria sobreviver a uma moção de rejeição. E foi aí que Cavaco, que disse que tinha previsto todos os cenários pós-eleitorais, se viu confrontado com o único que obviamente nunca previu, como prova a reação destemperada que teve quando tal se tornou evidente.
O PRESIDENTE ESTÁ DE MÃOS ATADAS QUANTO À SOLUÇÃO QUE MAIS GOSTARIA DE APLICAR: A CONVOCAÇÃO DE ELEIÇÕES. E QUALQUER DECISÃO QUE TOMAR ENTRE AS DUAS QUE SE LHE APRESENTAM SERÁ FORTEMENTE CONTESTADA
O que agora Cavaco está a fazer é ganhar tempo. Ele sabe que só tem duas opções: manter o governo PSD/CDS em gestão corrente ou dar posse a António Costa. Mas não quer esta segunda opção, embora a primeira tenha demasiados inconvenientes, mais do que a segunda. Por isso está a desgastá-la, arrastando no tempo a sua decisão. Espera que quem ouve no palácio cor-de-rosa diga à saída de Belém que é contra ela. Aguarda novas declarações vindas de países europeus que sejam críticas de tal caminho. Olha para os indicadores dos mercados à espera que deem sinais de alarme. Não se importa que as agências de rating foquem de novo os seus olhares críticos em nós. E até vai dois dias à Madeira em viagem oficial, como se não houvesse assuntos um bocadinho mais importantes para resolver no continente.
Há quem diga que o Presidente, numa jogada para proteger os “seus”, poderá fazer um governo de iniciativa presidencial, que seria também chumbado no parlamento, mas que ficaria em funções até novas eleições, libertando assim Passos e Portas desse desgastante exercício. Ou pode exigir a António Costa mais garantias, que ele sabe que o líder do PS não lhe pode oferecer, para assim justificar não dar posse a um governo do PS.
Uma coisa é certa: Cavaco falhou. Não quis antecipar as eleições para Julho, altura em que ainda poderia intervir após os resultados eleitorais, porque pensou que quando mais tempo a coligação estivesse no poder mais isso lhe seria favorável. Após os resultados de 4 de outubro desprezou o PS e não antecipou a decisão da Costa. Quando ela surgiu, reagiu de forma emotiva e crispada, afastando ainda mais a possibilidade de algum entendimento que pudesse existir. Agora está num beco sem saída. Não quer dar posse a um governo do PS. Mas a coligação também não quer continuar num governo de gestão. O Presidente está de mãos atadas quanto à solução que mais gostaria de aplicar: a convocação de eleições. E qualquer decisão que tomar entre as duas que se lhe apresentam será fortemente contestada.
Cavaco começou muito mal o seu último mandato e os quatro anos finais da sua vida política. E vai acabá-los ainda pior. Trinta anos de carreira política não vão ficar na História pelos melhores motivos – até porque as últimas impressões são sempre aquelas que prevalecem.
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