MELODIAS NO ESPAÇO PROCURAM DESTINATÁRIOS
É uma fascinação antiga olhar o Espaço e ficar rendida à sua imensidão e mistério. Hoje olho-o, através da janela, e para lá do visível imagino que o invisível deve ser empolgante. Por exemplo, que música, melodias, palavras, andarão a flutuar ano após ano, na esperança de que um dia “alguém” nos descobrirá e escutará. Lembro a canção dos Beatles, escrita por John Lennon, em 1969, inserida no álbum “Let it Be”, que anda há anos a beijar as estrelas com a simpática velocidade de 307 000 de quilómetros por segundo. Num ápice, estava envolvida no Espaço Interestelar pensando na magia que será ir, musicalmente, para as vastidões intergalácticas. Já me tinha dado fascínio idêntico quando a sonda Voyager 1, lançada pela NASA a 5 de Setembro, de 1997, projectada, com a sua irmã gémea Voyager 2, lançada duas semanas antes, 20 de Agosto, para, entre muitas outras coisas, estudarem os Planetas Júpiter, Saturno e, depois de ajustamento de órbita da 2, Urano e Neptuno.
As Voyagers foram concebidas para operar até 2020 mas, o que verdadeiramente me encantou foi, na altura, descobrir que a Voyager 1 levava, para lá da parafernália adequada nas sondas, ia um detector de raios cósmicos, de ondas, de plasma, de partículas de baixa energia e um disco de cobre revestido a ouro e a respectiva agulha, contendo a apresentação para possíveis e distantes civilizações com 115 imagens (os pescadores portugueses estão lá. Se demoram muito a encontrar a sonda, já não há cá pescadores…) 35 sons naturais, vento, água, pássaros e saudações em 55 línguas, incluindo, claro, o Português, a nossa Jóia da Coroa.Também inclui excertos de música étnica, de obras de Beethoven e Mozart e Johnny B, de Chuck Berry.
Mensagens diversificadas tentando demonstrar o perfil da Humanidade, explicando como somos. Penso que a Voyager 2 levou dois discos de ouro para a possibilidade de, um dia, serem encontrados por extraterrestres. Os discos incluem fotos de pessoas, animais, aspectos variados da Natureza. Enfim, um passaporte diplomático para abrir protocolarmente as Estradas Espaciais do futuro (a quantidade de dados enviados pelas duas Voyager equivale a seis mil enciclopédias). Sempre achei entusiasmante a iniciativa e a possibilidade de, mais século, menos dia, os discos irem parar às mãos certas, capazes de saber e querer interligarem-se com os humanos.
E o que aconteceu com os Beatles? Ora bem, a NASA querendo comemorar os seus 50 anos de existência e também numa homenagem à banda de Liverpool, decidiu escolher o tema “A Cross the Universo” (Através do Universo), para ecoar no Espaço. Foi emitida pela rede Deep Space Network, direccionada para a estrela Polaris, a mais brilhante da constelação Ursa Menor, situada a 431 anos-luz da Terra (cada ano corresponde a 9460 mil milhões de quilómetros).
O Espaço e o Mundo escutaram em uníssono uma melodia que dançou no Cosmos. Fantástico. Dois discos de cobre banhados a ouro contendo 116 imagens e diversos sons da Terra saíram dos domínios do Sistema Solar. Fascinante.
(Maria Elvira Bento)

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