EDITORIAL
A vitória que nunca devia ter acontecido
DIRECÇÃO EDITORIAL
20/05/2015 - 05:21
A tomada da cidade iraquiana de Ramadi pelo EI revela debilidade de Bagdad e dos seus protectores.
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Em Fevereiro de 2014 um enviado do El País à capital do Iraque, Badgad, concluía que os sunitas do Iraque estavam com saudades de Saddam Hussein. Sendo sunita, o ditador mantinha o poder com punho de ferro num país onde a maioria xiita não tinha qualquer poder mas onde, a nível popular, as tensões sectárias eram diluídas na convivência quotidiana. Hoje, quando é a maioria xiita que governa o Iraque, mais do que saudades de Saddam, os sunitas começam a ceder perante a pressão do autodenominado Estado Islâmico (EI), de inspiração sunita. E este continua a invadir e a ocupar, com êxito, cidades iraquianas onde tem feito e fará vingar a sua lei com punições e execuções; não apenas dos xiitas, por impulso de ódio sectário, mas também dos sunitas vistos como "colaboradores" com o Governo de Bagdad, ou seja, com o legítimo Governo do Iraque. Pois os jihadistas fanáticos do EI, depois de terem conquistado Mossul com alguma facilidade, acabam de fazer o mesmo com Ramadi. E fê-lo contra as tropas governamentais iraquianas, as milícias xiitas e os bombardeamentos dos EUA. Que o EI consiga tal vitória a escassos cem quilómetros de Bagdad é espantoso. Isso quer dizer que a estratégia, iraquiana e internacional, seguida até agora para liquidar o EI ou limitar a sua expansão e influência, não tem resultado. A prometida ofensiva para recuperar Mossul, anunciada numa operação mediática, teve como resposta do EI isto: a tomada de Ramadi, que nunca devia ter acontecido. E em Ramadi os fanáticos do EI já estão a fazer o que têm feito noutros locais: buscas, detenções, execuções em massa. Sobrou o terror ou a morte para os que ficaram, como sobrou o pânico para os que dali saíram sem saber o que será o seu futuro. As "saudades de Saddam" que o repórter do El País registou em 2014 podem, entretanto, ter aumentado. Não pelo ditador, mas pela cada vez mais adiada paz que tanto lhes prometeram.
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