quarta-feira, 20 de maio de 2015

IN "Público"


Dos martelos de pedra dos chimpanzés às ferramentas humanas mais antigas


TERESA FIRMINO

19/05/2015 - 07:30


Pela primeira vez, fez-se uma análise digital da superfície das pedras com que os chimpanzés partem nozes. Investigadora portuguesa que faz parte da equipa explica como este trabalho estabelece uma ponte inédita para o estudo dos instrumentos líticos mais antigos, humanos e até pré-humanos.





Chimpanzés de Bossou (Guiné-Conacri) a partir nozes da palmeira-dendém:a pedra no chão é a bigorna e o martelo está na mão
SUSANA CARVALHO









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Bossou é uma aldeia da Guiné-Conacri, a dois dias de viagem e mil quilómetros da capital. As pessoas da aldeia, em plena Guiné Florestal, perto da fronteira com a Libéria e a Costa do Marfim, vivem lado a lado com uma comunidade de chimpanzés de uma pequena floresta. Há quase 40 anos, desde a criação de uma estação de investigação de primatas, que os cientistas acompanham a vida destes chimpanzés, famosos por partirem as nozes da palmeira-dendém com pedras. Estas pedras – na verdade, ferramentas – já foram estudadas de muitas maneiras e agora, pela primeira vez, uma equipa aplicou técnicas digitais de informação geográfica para construir mapas de desgaste da sua superfície e deduzir como foram usadas. E, assim, estudar também ferramentas humanas muito antigas.

Primeiro, houve o trabalho de campo. Foi feito pela investigadora portuguesa Susana Carvalho, agora na Universidade de George Washington (EUA), e que entre 2008 e 2009 passou 13 meses na estação de Bossou a recolher dados para a sua tese de doutoramento. Para o estudo actual, publicado na revistaPLoS One, Susana Carvalho e os colegas analisaram seis pedras usadas pelos chimpanzés como bigornas (onde põem as nozes) e como martelos (com que partem as nozes).

“O uso de ferramentas de pedra pelos chimpanzés selvagens da África Ocidental oferece uma oportunidade única de explorar as raízes da tecnologia na evolução humana. No entanto, faltam análises detalhadas sobre os artefactos de pedra dos chimpanzés, o que impede uma comparação com o registo arqueológico [de ferramentas humanas]”, contextualiza o artigo, cujo primeiro autor é Alfonso Benito Calvo, do Centro Nacional de Investigação sobre Evolução Humana, em Burgos, Espanha.

Tendo como ponto de partida a procura da origem das ferramentas nos primatas – humanos e não humanos –, os cientistas esmiuçaram no computador as seis pedras, que Susana Carvalho trouxe de África. “Aplicaram-se técnicas pioneiras de sistemas de informação geográfica (SIG) ao estudo das superfícies de ferramentas”, diz a primatóloga e arqueóloga.

“Fizemos um primeiro trabalho de laboratório usando um scanner 3D, na University College de Londres, para registar as ferramentas. Depois, passámos essa informação digitalizada ao Alfonso, para que construísse os modelos em SIG sem ver as ferramentas — para que foram usadas, quais foram mais e menos usadas... — e pudéssemos testar se os resultados chegavam ao detalhe de informação pretendido”, explica Susana Carvalho. “Os arqueólogos que fizeram a análise SIG não sabiam qual tinha sido a função destas ferramentas, só sabiam que tinham sido utilizadas por chimpanzés em Bossou.”

Mas Susana Carvalho estava entre os elementos da equipa que conheciam bem o uso que os chimpanzés tinham dado às seis pedras. Afinal, tinha-os observado a usá-las em Bossou, tanto num local na floresta onde iam partir nozes, como num laboratório ao ar livre, construído em 1988, onde os cientistas deixam pedras e costumam ir observá-los, atrás da vegetação, a quebrar as nozes. Portanto, havia registos minuciosos sobre o uso específico de cada pedra.

Os chimpanzés de Bossou são, aliás, especiais pela forma como se servem das pedras como ferramentas. A estação para os estudar foi criada em 1976, pelo Instituto de Investigação de Primatas da Universidade de Quioto, no Japão. Só Susana Carvalho já lá foi sete vezes, entre 2006 e 2012, para estudar como seleccionam as pedras, fazem o transporte, as utilizam, aprendem a utilizá-las (“são três a cinco anos até serem altamente eficientes”) e até as reciclam. E também acompanha o que acontece aos chimpanzés: em 2009, eram 13, agora nove: “Desapareceram, não temos confirmação de que tenham morrido.” À epidemia do vírus do ébola, que atinge a Guiné-Conacri desde Dezembro de 2013, os chimpanzés e as pessoas de Bossou têm escapado. “Mas temos relato de infecções nas aldeias mais próximas. O epicentro do vírus está em Guéckédou, na Guiné Florestal, a alma da nossa área de investigação. Os nossos assistentes de campo continuam a seguir e a proteger os chimpanzés durante todo este tempo”, conta a investigadora.

“Há apenas dois locais na África Ocidental onde o uso de ferramentas de pedra pelos chimpanzés tem sido sistematicamente estudado: Bossou, na Guiné-Conacri, e Taï, na Costa do Marfim”, refere por sua vez o artigo naPLoS One. “Os chimpanzés de Bossou são um caso de estudo único para examinar o papel da tecnologia de percussão na evolução tecnológica: esta população não costuma utilizar rochedos ou madeira como ferramentas e as nozes são quebradas sobretudo com pedras móveis; as dimensões dos instrumentos de pedra são relativamente padronizados, em parte devido ao facto de as nozes não serem muito duras. Por isso, têm um tamanho pequeno a médio e geralmente o martelo, a bigorna e as nozes são transportados para os locais de quebra de nozes.”

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