terça-feira, 17 de maio de 2016

Rui Vitória- Treinador do BENFICA!(in www.publico.pt)


Rui Vitória, o imperturbável


NUNO SOUSA

17/05/2016 - 07:29


É discreto, trabalhador, determinado. O treinador que guiou o Benfica até ao tricampeonato dá tanta importância aos aspectos tácticos como à dimensão humana. Gosta de estar ao lado dos jogadores nas horas de aperto, mas também lhes exige o máximo empenho e submissão ao interesse colectivo.
Rui Vitória chegou ao momento mais alto da sua carreira como treinador no Benfica PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP




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Há uma regra no manual da vida privada de Rui Vitória que não oscila ao sabor das mudanças na carreira. Primeiro em Alverca, depois na Póvoa de Santa Iria, em Paços de Ferreira, em Guimarães e agora na Charneca de Caparica - o futebol fica à porta de casa, dê por onde der. Quer isto dizer que é tema tabu? Não necessariamente. Quer dizer, simplesmente, que o treinador do Benfica gosta de manter distâncias, de resguardar a família das ondas de choque muitas vezes provocadas por uma maré de remates falhados ou passes errados de um qualquer fim-de-semana desportivo. Ao futebol o que é do futebol, à família o que é da família.

Discrição. Discrição é uma palavra que assenta bem ao perfil do homem (e é o próprio que coloca sempre a dimensão humana à frente da profissional) que, anteontem, promoveu um reencontro do Benfica com uma dimensão já distante da sua história. O tricampeonato, conquistado na última estação de uma viagem em que a equipa chegou a parecer apeada, foi uma espécie de esvaziar de balão para um técnico que nunca deixou transparecer o peso da carga que transportou aos ombros. A desconfiança, a pressão, as polémicas, tudo isso se desvaneceu durante um par de horas. E tudo isso regressará quando a bola voltar a rolar.

Venha o que vier, a “carapaça”, um conceito figurado que Rui Vitória usa com frequência nas conferências de imprensa, está lá para o proteger. Com a força do destino, começou a ser entalhada na tarde de 21 de Setembro de 2002, quando recebeu um telefonema com a notícia que ninguém quer ouvir: os pais tinham morrido. Amante de pesca, Avelino da Vitória cumpria o trajecto de regresso a casa, depois de ter feito uma marcação para o dia seguinte, quando o carro que conduzia se despistou. Lá dentro, para além da mulher, seguia outro casal. Seguiam os pais do melhor amigo, e padrinho da primeira filha, do então médio do Alcochetense.

Rui Vitória tinha 32 anos e um jogo da III divisão para disputar no dia seguinte. Um jogo em que não participou, naturalmente, ainda sem saber que a sua vida estava prestes a levar outra grande volta. Uma semana mais tarde, recebeu dois telefonemas com o mesmo propósito, separados por pouco mais de meia hora. O primeiro do Vilafranquense, o segundo do Alcochetense. Subitamente, tinha um duplo convite para deixar para trás a modesta carreira de jogador e abraçar, precocemente, o cargo de treinador.

Era o momento certo para se desenvencilhar da alcunha de “Pé de chumbo”, que ganhara em campo graças ao forte remate que o caracterizava, e para dar largas aos seus atributos de líder e organizador por excelência. Haveria de manter contacto com os balneários das divisões inferiores, mas a partir de agora com a braçadeira de treinador em redor do bíceps. A sua faceta de comando, de pensador do jogo dentro do relvado, reconhecida por vários dos antigos colegas, transferia-se para fora das quatro linhas.

Optou pelo Vilafranquense, clube que competia na II Divisão e no qual, ironicamente, também tinha um passado como jogador e, acima de tudo, como capitão. Era um regresso a casa, com novos atributos. Era o início do segundo capítulo de uma aventura pelos labirintos do futebol, que começara, ainda criança, no Alverca, muito por influência do pai, antigo guarda-redes do emblema ribatejano. Aquelas manhãs e tardes de fim-de-semana passadas nas bancadas, com as partidas das camadas jovens a desfilarem-lhe diante dos olhos, umas após as outras, eram interrompidas apenas pela pausa de almoço. E o gosto pelo jogo pegou de estaca.

Com ele, vieram as expectativas e as preocupações, quase todas carregadas no coração da mãe. Foi por isso, por ela já não poder estar ali, para presenciar aquele momento em que se estreou no banco como treinador, que o dia 1 da sua nova carreira teve um sabor agridoce, como revela no livro que editou ainda antes de se mudar para a Luz, A arte da guerra para treinadores. A indefinição acerca do futuro do filho mais novo, a fase pós-futebolista, era uma angústia que estava presente. Mas o “pequeno” Rui haveria de sair bem.

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