O mundo tenta salvar a Líbia com mais armas
FÉLIX RIBEIRO
23/05/2016 - 07:57
Os Estados que ajudaram a derrubar Khadafi e abandonaram os líbios à sua sorte querem agora construir um novo exército capaz de derrotar o Estado Islâmico. Mas há riscos em enviar armas para um país instável com três governos.
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Os combatentes da milícia mais poderosa na Líbia recriminavam-se na noite de quarta-feira por não terem sido capazes de impedir o ataque daquela tarde. Um camião conseguira de alguma forma galgar 140 quilómetros de estrada em terreno aberto sem ser travado e o resultado fora catastrófico. Partira de Sirte cheio de explosivos, como seria de esperar de qualquer coisa vinda a alta velocidade da fortaleza do Estado Islâmico. Invadiu as linhas de defesa dos milicianos e fez-se explodir junto de um grupo de homens com uma violência de tal ordem que uma bola de fogo se ergueu dezenas de metros no ar. Os jihadistas usaram a mesma táctica no passado para aterrorizar soldados iraquianos e capturar um terço do país, mesmo quando muitas vezes dispunham de dez vezes menos combatentes e armas mais rudimentares. No final da última semana ainda morriam pessoas atingidas pela explosão suicida em Abugrein, uma das últimas linhas do território de cerca de 300 quilómetros que os jihadistas controlam na costa da Líbia. Contavam-se por essa altura 45 mortos.
Este é um dos enclaves mais preciosos do Estado Islâmico em todo o mundo. O comando jihadista aproveitou o vazio de poder e conflito interno que se seguiram à queda de Muammar Khadafi e intervenção militar da NATO — uma “tempestade perfeita”, como diz em privado o Presidente norte-americano, segundo a revista The Atlantic — e fez da cidade natal do ex-ditador o seu bastião líbio. Os Estados Unidos calculam que o grupo tem perto de seis mil combatentes em Sirte, separados da Europa apenas por algumas centenas de quilómetros de mar. Alguns são combatentes dos países vizinhos — sobretudo da Tunísia —, mas muitos são produto do ambiente propício para o recrutamento jihadista local. À pobreza e facciosismo que se apoderam do país, Sirte soma uma onda de violentas represálias no pós-guerra. Alguns jihadistas foram até recrutados entre os emigrantes africanos chegados para tentar uma travessia pelo Mediterrâneo. A cidade vive agora governada pela mesma interpretação extrema da lei islâmica imposta em Raqqa, na Síria, ou Mossul, no Iraque.
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