
De "Eurico, o Presbítero" de Alexandre Herculano, (WIKIPEDIA)- um texto, a reler,do insigne escritor romântico:
..."A hora de amanhecer aproximava‑se: o crespúsculo matutino alumiava frouxamente as margens de rio mal‑assombrado, que corria turvo e caudal com as torrentes do inverno. Apertado entre ribas fragosas e escarpadas, sentia‑se mugir ao longe com incessante ruído. A espaços, destorcendo‑se em milhões de fios, despenhava‑se das catadupas em fundos pegos, onde refervia, escumava e, golfando em olheirões, atirava‑se maciço e atropelando‑se a si mesmo, pelo seu leito de rochas, até de novo ruir e despedaçar‑se no próximo despenhadeiro. Era o Sália, que de queda em queda, rompia de entre as montanhas e se encaminhava para o mar cantábrico. Perto ainda das suas fontes, o estio via‑o passar pobre e límpido, murmurando à sombra dos choupos e dos salgueiros, ora por meio das balças e silvados, que se debruçavam, aqui e acolá, sobre a sua corrente, ora por entre penedias calvas ou córregos estéreis, onde em vão tentava, estrepitando, recordar‑se do seu bramido do inverno. Mas quando as águas do céu começavam nos fins do outono a fustigar as faces pálidas dos cabeços, a ossada nua das serras, e a unir‑se em torrente pelas gargantas e vales, ou quando o sol vivo e o ar tépido de um dia formoso derretiam as orlas da neve que pousava eterna nos picos inacessíveis das montanhas mais elevadas, o Sália precipitava‑se como uma besta‑fera raivosa e, impaciente na sua soberba, arrancava os penedos, aluía as raizes das árvores seculares, carreava as terras e rebramia com som medonho, até chegar às planícies, onde o solo o não comprimia e o deixava espraiar‑se pelos pauis e juncais, correndo ao mar, onde, enfim, repousava, como um homem completamente ébrio que adormece, depois de bracejar e lidar da embriaguez."(...)
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