domingo, 6 de março de 2016

CAVACO, ADEUS!!!!



SÃO JOSÉ ALMEIDA

06/03/2016 - 07:14


Arrebatou multidões, é campeão de vitórias eleitorais e de maiorias absolutas, mas sai debaixo de forte erosão de imagem. Perante o seu nome ninguém fica indiferente: Cavaco Silva termina quarta-feira o seu segundo mandato como Presidente.

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O que faz uma pessoa determinar a vida política de um país durante quase quatro décadas, ser o único político a ganhar cinco eleições, quatro das quais com mais de 50% dos votos, desempenhar cargos decisivos como o de ministro das Finanças (1980-1981), primeiro-ministro (1985-1995) e Presidente da República (2006-2016), ter o seu nome associado a um período de transformação profunda do modelo social e económico de um país e terminar os seus mandatos de Presidente com uma erosão real da sua popularidade e com um desgaste da imagem que dá a sensação de que poucos com ele se identificam? O que provocou o divórcio entre Cavaco Silva e o país?

Aníbal Cavaco Silva não considera que haja afastamento entre ele e a população. Relativizando a importância do que sobre ele se diz, o Presidente da República declara ao PÚBLICO: “Sá Carneiro dizia que aqueles que estão investidos em funções políticas devem sempre guiar-se pelo superior interesse do país. E que, a cada momento, devem fazer a distinção entre o que é a opinião pública e o que é a opinião publicada. Revejo-me nessa afirmação de Sá Carneiro. Se cheguei aqui, devo-o a ele.”
Pedro Adão e Silva: "Cavaco não foi capaz de se reconstruir como o país que reconstruiu, os tempos mudaram e ele não foi capaz de acompanhar" JOÃO ABREU MIRANDA

Por mais que o próprio Presidente desvalorize a erosão da sua imagem, a questão permanece. “Se fizermos um ranking de melhores resultados eleitorais, eles são de Cavaco, tem quatro maiorias absolutas, teve bons resultados mesmo na derrota das presidenciais, num percurso glorioso”, mas enquanto Presidente, “paradoxalmente, delapidou o seu capital; em parte pela sua acção, a gestão política foi dramática”, afirma ao PÚBLICO o sociólogo Pedro Adão e Silva. Indo mais longe, o sociólogo considera que, durante anos, as suas “vitórias eleitorais são o resultado do seu alinhamento perfeito com o que pensam os portugueses”. Portugal era “a combinação de conservadorismo nos costumes, modernização económica, defesa do Estado social e vínculo europeu”. Ora “a interacção destes quatro princípios corresponde ao que é Cavaco Silva, isso deu-lhe as maiorias”.

Só que, sublinha o mesmo sociólogo, “Cavaco foi vítima de si próprio”. Ou seja, “modernizou e desenvolveu, mas não acompanhou essa modernização e desenvolvimento”. A sua década como primeiro-ministro “trouxe um país mais liberal, menos conservador, que já não se vê representado por um Presidente que é ainda de outro tempo”. Concretizando, Adão e Silva diz que “a modernização, a transformação do modelo de crescimento da economia produtiva, a liberalização da especialização económica, a consolidação do Estado social, na Saúde e na Segurança social, a abertura da comunicação social, a revisão constitucional de 1989, toda a estratégia modernizadora é dele”. E conclui: “Mas ele não acompanha, não foi capaz de se reconstruir como o país que reconstruiu, os tempos mudaram e ele não foi capaz de acompanhar. Nas décadas de 80 e 90 do século XX, Cavaco era espelho da maioria dos portugueses; no século XXI, não é. Isto é mais estrutural, ele próprio foi vítima do desenvolvimento. É alguém que não percebe o tempo, não está preparado.”
Perda de auctoritas

O aparente divórcio entre Cavaco Silva e o país e a baixa popularidade com que o Presidente termina o segundo mandato é explicado pelo catedrático de Ciência Política Nuno Severiano Teixeira com “a própria concepção e o exercício da função presidencial” por parte de Cavaco. “Os três anteriores presidentes, cada um à sua maneira, tiveram a preocupação de preencher, de construir a função presidencial”, já que “a Constituição traça competências, mas dá liberdade ao Presidente para exercer o cargo com a sua marca”.

Ora, “sobretudo a partir do final do primeiro mandato, Cavaco fez o contrário, esvaziou a função presidencial, é isso que está na origem da autolimitação que se impôs na relação que tem com o país”, diz Severiano Teixeira, para quem “a função do Presidente no regime semipresidencialista tem algumas analogias com a função do rei na monarquia constitucional, os reis reinam, não governam”, logo “o que lhe dá o prestígio e a autoridade é não se imiscuir na governação, é estar acima disso, é isso que lhe dá a auctoritas”.
Nuno Severiano Teixeira: "Com a cooperação institucional, ele viu-se no meio do jogo político. Era um actor igual aos outros, tinha perdido o que o diferenciava enquanto Presidente, a autoritas"DANIEL ROCHA

Fazendo o paralelo, Severiano Teixeira sustenta que “o que era o poder moderador do rei tem similitudes com a magistratura de influência, que é a forma republicana do poder moderador”, e o Presidente ganha “respeito pelo lugar que tem acima de todos e que lhe permite ser árbitro”. Mas o próprio Cavaco “foi esvaziando essa função de magistratura de influência”, até porque a substituiu pelo conceito de “cooperação institucional”. Severiano Teixeira considera que o início dos seus mandatos “é de cooperação institucional com o Governo de Sócrates, acaba o primeiro mandato a fazer cooperação estratégica com a oposição e volta a fazer cooperação estratégica com o Governo de Passos”. Assim, remata Severiano Teixeira, “com a cooperação institucional, ele viu-se no meio do jogo político. Ele era um actor igual aos outros, tinha perdido o que o diferenciava enquanto Presidente, a auctoritas”. Ou seja, passou a ser terreno, “mesmo que quisesse, não podia ser árbitro porque ninguém lhe reconhece essa auctoritas”.

O momento dessa transformação é identificado pelo ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva e seu amigo pessoal, Eduardo Catroga, com dois casos concretos: o das “escutas”, em Agosto e Setembro de 2009, e o das pensões, a 20 de Janeiro de 2012. “São falhas de comunicação que condicionaram a evolução da imagem do Presidente. Perdeu-se o respeito à instituição por parte dos analistas e observadores, que eram muitos deles adversários” de Cavaco.

Polémica causou também o facto de o Presidente ter abdicado do salário inerente ao cargo e ter optado por receber as pensões que já auferia do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações. Em vez de se assumir como ocupante do primeiro órgão de soberania, optou por ser um reformado que desempenhava graciosamente o cargo para que foi eleito, abalando o simbolismo da instituição, do órgão de soberania Presidente da República. Nuno Severiano Teixeira considera, porém, que a declaração sobre pensões quebrou mais a imagem de Cavaco do que o ter prescindido do salário. “O Presidente é um símbolo, as pessoas precisam identificar-se com símbolos e a declaração das pensõesquebrou esse simbolismo, é o momento do divórcio simbólico com as pessoas”, considera. “O ordenado rejeitado não é tão chocante para as pessoas comuns, é para a classe política e para os intelectuais, mas a população em geral não percebe essa subtileza”, afirma.

Ainda assim, o director da campanha eleitoral de 2011, Luís Palha da Silva, defende que “não há impopularidade de Cavaco”, referindo que ele “tinha índices de aceitação elevados”. Considera que uma coisa são as sondagens, outra a confiança dos eleitores e garante: “Se ele se candidatasse a um terceiro mandato, ganhava com folga. É alguém em quem se vê a seriedade. Hoje as pessoas falam, tentando distanciar-se por razões tácticas ou tentam criar um caso de demonização de alguém que sabem que não criou problema nenhum. Hoje ouço pessoas de mau carácter dizer que depois de Cavaco Silva tudo será melhor, é desonestidade intelectual.”

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