O assombro da revolução do Papa Francisco
Não é para menos esta inquietação. O silêncio geral é inquietante
José Luís Rodrigues Padre
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A Drª Catalina Pestana escreveu no Facebook esta frase que me chamou à atenção: «O que está a acontecer é único. Um bispo, ainda por cima o de Roma, tem todos os dias uma mensagem para os humanos. Os bispos portugueses, não têm internet? Parece que os Sinais de mudança vão chegando a milhões, mas “os senhores do templo” continuam incapazes de os entender». Não serão poucos os que estão perturbados com a ação do Papa Francisco.
Não é para menos esta inquietação. O silêncio geral é inquietante. Todos os dias chega-nos uma mensagem do Papa Francisco que vai falando ao mundo e desafiando à sobriedade, à ética na vida pública para que o bem comum e a justiça sejam uma realidade na construção do mundo. A sua acutilante denúncia contra «a globalização da indiferença» ou «a economia que mata» tem sido uma constante, porque não pode o mundo continuar a viver impávido diante da fome e da morte de tantos seres humanos indefesos, quando o único crime que cometeram foi desejar melhores condições de vida.
A acção deste Papa tem sido marcada quotidianamente por desafios à Igreja toda, aos chefes das nações e a todos os cristãos. A sua simplicidade e desprendimento têm sido desconcertantes. As notícias que vão surgindo sobre oposições ao Papa são acidentes que não devem perturbam o essencial. A meu ver surgem de serviços do Vaticano e de uma Igreja principesca que preferem o caminho do devocionismo anacrónico a favor do desprendimento e da pobreza que vai ao encontro da salvação das pessoas agora neste mundo e não em outro mundo com «depósitos» devocionais sem sentido nenhum. O devocionismo mariano entre nós continua de forma desmedida, endeusando Nossa Senhora, o que descura o essencial da fé que é Jesus Cristo, Deus Pai/Mãe e o Espírito Santo.
Neste contexto serão inevitáveis os reparos como este da Drª Catalina Pestana. Uma grande porção do clero no nosso país e quiçá no mundo inteiro está perplexo e em silêncio. Não se percebe que as mudanças estão a acontecer em catadupa e que a viragem começou de onde menos se esperava, no Papa e no seu ministério. Por isso, faz pena que não se perceba que os meios modernos de comunicação - os púlpitos incontornáveis dos nossos dias - não sejam utilizados pela maioria do clero para fazermos a tão falada «nova evangelização», que anda na boca de todos os bispos especialmente, que não se faz sem a utilização da internet, onde estão quase todas as pessoas hoje. É mais fácil andar dedicado às devoções, à superstição que floresce nestes tempos de crise como cogumelos e que dá lucros exorbitantes. Sim, também é mais fácil andar a anunciar regras e mais regras, seguir dogmas e mais dogmas anacrónicos que não levam a nada.
Acordemos, a verdadeira mudança e transformação do tempo e do templo não se fará por caminhos velhos. Nem leva a nada a teimosia em não querer abdicar do poder pelo poder, o Papa Francisco tem insistido tanto que o poder só pode ser serviço ou então não serve para nada. Mais ainda se pensarmos que não leva a nada continuar a ostentar riquezas na liturgia, para que tal não seja um insulto a quem passa fome porque não tem um rendimento condigno para sustentar a sua casa. As entronizações de bispos e de padres em novos serviços não devem ser uma manifestação de poder e domínio sobre nada nem ninguém nem muito menos uma glorificação de iluminados, preferidos de Deus, mas simples encontros de riqueza espiritual para o serviço de todos. Não há volta a dar. Esta revolução pacífica é essencial para que a simpatia do mundo de hoje aconteça de verdade e a sua adesão ao projecto da salvação anunciado pela Igreja Católica encontre autoridade e seja de verdade aliciante porque provoca para a fé e para a esperança.
Mais ainda falta irmos percebendo que as mudanças da Igreja começaram e não começaram por onde cada um de nós às vezes mais anseia, mas sim por onde deseja e determina o Espírito Santo. Nesta mudança acredito piamente. Mais ainda creio que o Espírito Santo determinará mudanças importantes que marcarão a Igreja e que a colocará mais de acordo com a fraternidade fortemente radicada no Evangelho de Jesus de Nazaré. Não perceber estes sinais dos tempos, será fatal para nos vermos ultrapassados pela realidade que Deus vai fazendo aparecer diante dos nossos olhos e que teimosamente podemos ter a tentação de recusar ver e de acolher com amor. Que este despertar nos tome de assombro.
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