segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Sobre a Poesia de RUY BELO (1933-1978)-através de www.revistacultural.com



Projétil poético

No prefácio do livro Transporte no tempo, escrito por Ruy Belo, lemos: “O poeta deve surpreender-se e surpreender, recusar-se como instituição”. O gesto de cada um dos prefaciadores, também poetas, parece relacionar o surpreender-se e o surpreender com a própria surpresa do acontecimento, pois aí há um movimento de destituição (mas não aquele relacionado à questão do valor, do quanto custa, ou do quanto se paga – os direitos de publicação foram praticamente liberados, e os poetas, compreendendo a questão ética presente nessa translação da poesia de Ruy Belo, renunciaram a seus cachês), e isso nada tem a ver com uma espécie de ação romântica, mas muito mais com uma atitude ética que desconcerta e perturba certas instituições: “Estamos tão chegados ao muro que não vemos a paisagem”, argumenta Ruy Belo no seu texto crítico “Poesia nova” (1961). Manoel Ricardo de Lima argumenta, seguindo esses vestígios, que é necessário “desfazer o muro do patrimônio poético português como uma casa-poema fixa para torná-la móvel, um devir”.

Assim, poderíamos dizer que a questão, aqui, é muito mais profunda: não se trata de dar lugar à poesia de Ruy Belo no Brasil, mas muito mais de pontuar um problema de leitura em torno de um projeto (que preferimos chamar de projétil) poético radical que rasura uma cartografia desenhada e centrada em suas figuras “fundacionais”. A poesia/pensamento de Ruy Belo desestabiliza noções que buscam fixar justamente aquilo que está em constante errância, ou seja, a própria poesia. Poesia é destituição, ambivalência entre vida e morte:


“Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me. Altero uma ordem”, escreve ele em Transporte no tempo. Poesia é imanência, ambivalência entre paragem (manere) e passagem (manare), isto é, vento, como escreve o próprio Ruy Belo no poema “O valor do vento”: “Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento / O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e / só entram nos meus versos as coisas de que gosto / O vento das árvores o vento dos cabelos / o vento do inverno o vento do verão / O vento é o melhor veículo que conheço / Só ele traz o perfume das flores só ele traz / a música que jaz à beira-mar em agosto / Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento / O vento actualmente vale oitenta escudos / Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto”.

Ler a poesia de Ruy Belo, hoje, signi- fica lê-la a partir de tempos e de espaços heterogêneos, pois, assim, poderemos compreender melhor, por exemplo, o seu projétil poético: “A poesia em Portugal era uma coisa e passou a ser uma coisa diferente depois de Fernando Pessoa. Quem não tiver compreendido isto pouco terá compreendido de poesia”, diz ele. Ou ainda, quando tensiona aquilo que costumamos designar por “poesia nova” – expressão tão usual, não por acaso, entre nós –, o poeta não deixa de ressaltar que “a novidade pertence à própria essência da poesia”, já que “toda palavra nova é, constitutivamente, uma palavra poética”. Ler a novidade de sua palavra poética é reler e desler a poesia portuguesa de ontem, de hoje e de sem- pre, pois, dessa maneira, poderemos também nos reler lendo os vestígios que deixa, por exemplo, um voo de gaivo- ta. Por isso, é de extrema relevância a publicação da poesia de Ruy Belo no Brasil, ainda mais tendo em vista essa deliberação conjunta de esforços para esse acontecimento.

Davi Pessoa Carneiro é doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina e autor de Terceira margem: Testemunha, tradução (Editora da Casa, 2008). Edita o blog: http:// traduzirfantasmas.wordpress.com/Sobre a poesia de RUY BELO (

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