sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sobre GOMES LEAL, Poeta português


Aula de Literatura Portuguesa


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20/11/2009

Gomes Leal


António Duarte Gomes Leal nasceu em Lisboa, em 1848, filho natural dum abastado funcionário da Alfândega, que desejava a todo custo fazê-lo homem prático. Depois de breve passagem por um tabelionato, e já órfão de pai, mete-se na boémia literária, que lhe inspira o desejo de fazer o Curso Superior de Letras, mas em pouco tempo abandona as aulas. Por essa altura, é um revolucionário de vida airada, e panfletário. Em 1875, publica Claridades do Sul, seu primeiro livro de poemas. Viaja para Madrid em 1878, e deixa-se atrair pela poesia revolucionária à Antero. Com a morte de sua mãe, converte-se ao Catolicismo, em razão de que, os velhos amigos o abandonam.

Conhece então a extrema miséria e a demência: é assim que vai encontrá-lo e recolhe-lo a casa o deputado socialista Ladislau Batalha. Falece em 1921. Afora os folhetos revolucionários (Tributo de Sangue, 1873; A Traição, 1881, etc.), escreveu: Claridades do Sul (1875), A Fome de Camões (1880), História de Jesus (1883), O Anti-Cristo (1884, 2.a ed., com As Teses Selvagens, 1907), O Fim dum Mundo (1899), Serenata de Hilário no Céu (1900), A Mulher de Luto (1902), O Senhor dos Passos da Graça (1904), Mefistóleles em Lisboa (1907), A Senhora da Melancolia (1910), Novas Verdades Cruas (1916).

Por causa dum conjunto de circunstâncias, dentre as quais a de ter vivido na segunda metade do século XIX e no primeiro quartel do século XX, para Gomes Leal confluem, em paradoxal e insólita mistura, as principais linhas de força da poesia europeia de seu tempo. Caracteriza-o um ecletismo sem escolha ou predilecção, que embaraça a análise e perturba o entendimento. Sua poesia aceita de bom grado o satanismo de Baudelaire, juntamente com o lirismo de acento ultra-romântico ou oratório à Victor Hugo, e evolui, depois, para aquilo que constitui o quadro da poesia "realista". A evolução não se interrompe aqui; ao contrário, paralela e simultaneamente a tardias mas sinceras manifestações de febre romântica (expressas inclusive em seu dandismo artificial e falso), deixar-se-á conduzir, já no fim da caminhada, para a aceitação do ocultismo e das crenças cristãs, a que não é estranho o influxo do movimento simbolista Francês. Suas grandezas e suas misérias, poeticamente falando, decorrem desse emaranhado de linhas e de atitudes estéticas. Por isso, as fases percorridas por sua poesia não são muito nítidas nem autónomas: intercorrendo em mais de um ponto, somente se pode falar delas como um esquema prévio para o entendimento do poeta.

A primeira fase da carreira poética de Gomes Leal centra-se nas Claridades do Sul (1875), sua primeira obra de interesse. Dividida em cinco partes ("Inspirações do Sol", "Realidades", "A Carteira dum Fantasma", "Misticismo", "Humorismo e Ruínas") a obra contém um lirismo de simultânea e dual raiz romântica e realista, traduzida pela presença dos "horrores" bebido em Baudelaire, Heine, Hoffmann e em Edgar Allan Poe, tom declamatório à Victor Hugo, e por certo parnasianismo mesclado de pessimismo romântico e de misticismo. Em suma, poesia dum "visionário, um sábio apedrejado", que passa "a vida a fazer e a desfazer quimeras", em quem "a espada da Teoria, o austero Pensamento, / Não mataram" "o antigo sentimento", como afirma no primeiro soneto da série "O Visionário ou Som e Cor". Poesia dum delirante de sensações, apanhando os motivos de seus poemas onde se encontrem, de que resulta um vaivém entre o mau gosto e a expressão duma autentica genialidade poética. Apesar desse carácter heteróclito, manifesto duma sensibilidade voluptuosa e oscilante, Claridade do Sul é do melhor que produziu Gomes Leal e a poesia dos fins do século XIX.

Segue-se-lhe a fase da primeira redacção d0 Anti-Cristo 1884). Caracteriza-se pela continua-ção da heterogeneidade da poesia anterior mais a aceitação meio ingénua e visionária do credo positivista e socialista, transfundida em sarcasmo e indignação anti-religiosa, num tom empolado de poema cíclico à Guerra Junqueiro e à Teófilo Braga elevado às potências do absurdo e do delírio ciclópico. Reflectindo as contradições internas do poeta e uma insanável debilidade intelectual para escolher um caminho e resistir às fáceis seduções de ideias e teorias contrastantes, O Anti-Cristo é um longo poema confuso e desigual, onde saltam por vezes verdadeiras jóias poéticas dignas dum génio. Na segunda edição da obra, o poeta muda-lhe o carácter agressivo e iconoclasta, e dá-lhe características opostas, movido por razões confessadas na "Carta Aberta" que serve de introdução à edição de 1907: "este poema audaz, mas convicto e inspirado pela facha autoral da Consistência, é o fruto da minha alma pacificada." Nas "Notas Explicativas", ainda esclarece: "A tese primacial do poema é esta: - O Homem, e por extensão o Cosmo de que ele é simples molécula, para ser perfeito, eterno, feliz, não carece de muita Ciência, carece de plena Consciência. A aquisição completa desta é que dá direito à Vida." É que Gomes Leal ultrapassara a crise religiosa deflagrada com a História de Jesus (1883), ao mesmo tempo que a primeira edição d0 Anti-Cristo fora o testemunho do angustioso imbróglio em que se metera o seu espírito conturbado.

O terceiro momento da trajectória poética de Gomes Leal é marcado pelas derradeiras obras, aparecidas depois de 1889 (quando publica O Fim dum Mundo): Serenatas de Hilário no Céu, A Mulher de Luto, A Senhora da Melancolia. Na primeira delas, impregnado dum pessimismo à Max Nordau, o poeta impreca contra a injustiça e a corrupção social, índices duma degenerescência própria dum "fim dum mundo". Atribuindo os males da decadência à Monarquia, ao Clero e à Burguesia, o poeta acena com um caminho de salvação que prepara a tese que informa a segunda edição d0 Anti-Cristo: estaria em Deus e na Consciência. Nas obras restantes, ao mesmo tempo que evolui para um Catolicismo panteísta, sem liturgia, primitivo e fantástico, o poeta mergulha no ocultismo, coerente com o seu visionarismo de sempre, e paralelo com a demência que o assediava desde há tempos. Nesta terceira fase, mais do que antes, se evidência o quanto Gomes Leal era uma sensibilidade simbolista ao pé da letra, mas dum simbolismo refinado que o aparentará antes com Camilo Pessanha e os poetas do Orpheu (1915) que com os mais exaltados adeptos da estética simbolista em Portugal, Eugénio de Castro à frente.

Do exame de Gomes Leal nasce uma impressão de grandioso só raramente encontrável em Literatura Portuguesa, primeiro graças à sua vida, inteiramente vivida em poesia e para a poesia, à semelhança de alguns poetas-génios (François Villon e Camões); segundo, graças à sua obra. Esta, vista em conjunto e abstraindo as "quedas", naturais em qualquer poeta, vale sobretudo pelo imenso das novidades expressivas que legou à posteridade. Dotado de supe-rior e peculiar talento poético, Gomes Leal acrescentou à poesia Portuguesa uma série de novas vibrações, de "situações", e uma linguagem caudalosamente rica e colorida, o suficiente para torná-lo das mais autênticas vocações líricas em toda a história literária de Portugal. Para tanto, basta ter presente que sua poesia, nutrida de loucura e genialidade, contém achados que se tornaram lugar-comum dentro do Modernismo: em mais de um passo, no estudo, compreensão e julgamento da poesia moderna Portuguesa, ao menos da imediatamente posterior ao Orpheu, é preciso regressar a Gomes Leal.



Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa
Editora Cultrix, São Paulo


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