terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O pensamento de Hernâni Cidade sobre a vida e obra de CAMÕES-Artigo completo em www. triplov.com.blogspot.com









Biografia de Luiz Vaz de Camões
HERNÂNI CIDADE






A primeira biografia de Luís de Camões foi escrita em 1613, no "Prefácio" da edição de Domingos Fernandes, por Pedro de Mariz (1550-1615), filho de Antônio de Mariz, livreiro em Coimbra no tempo em que Camões ali vivia, e ele mesmo presbítero secular, bacharel em Cânones e guarda-mor da Livraria da Universidade, e assim em condições morais e cronológicas para da vida do Poeta conhecer dados essenciais. Alguns deles nos oferece o seu esboço biográfico, não desmentidos pelos que a investigação posteriormente tem descoberto nem pelos próprios elementos autobiográficos colhidos na obra lírica e épica do Poeta.

O que nem ele nem ninguém nos dá de decisivo é a indicação do local e da data do seu nascimento. Como sucedeu com Homero, várias localidades disputam a glória de ser seu berço, mas Lisboa e Coimbra com mais probabilidades. Deixemos a discussão aos mais interessados pelas glórias locais do que pelo legado do Poeta, e digamos que as duas cidades têm, para seu orgulho, pábulo que baste: Coimbra, por ter-lhe condicionado o seu honesto estudo de humorista; Lisboa, a sua longa experiência social. Aparentado com os Camões, da mais honrada (ou seja, enobrecida) gente da cidade do Mondego, é ele próprio que afirma ter-lhe aqui decorrido parte da mocidade:

Nesta florida terra,
Leda, fresca e serena,
Ledo e contente pera mim vivia.
..................................
Longo tempo passei,
Com a vida folguei . . .


Um seu tio paterno, D. Bento de Camões, frade de Santa Cruz e chanceler da Universidade, com probabilidade tem sido indicado como o protector e mentor de seus estudos, mas é admissível que o próprio ambiente universitário lhe haja suscitado curiosidades que, fora dele e através da vida, iria satisfazendo por um audotidatismo que o tornou o poeta de mais variada e viva cultura do seu tempo. Não terá sido o bacharel latino, como já o biografismo fantasioso o graduou, mas, lendo o latim, o italiano e, naturalmente, o castelhano, pôde nutrir sua cultura de poeta e fazer florescer em suas Rimas — ou seja na sua lírica — temas de vária origem, mas a que seu gênio criador imprimiu a unidade da vida, porque tudo foi assimilado e vivido como próprio.

A nobreza da família, fortalecida pela abundância dos bens em seus parentes de Coimbra, era decerto modesta no pai, que os não possuía. Cabiam-lhe, todavia, honras de cavaleiro fidalgo, e ao filho, que também o era, essas bastavam, acrescentadas dos bens do espírito e da cultura, que os tinha excepcionais, para lhe dar entrada nos Paços da Ribeira. Era jovem quando ali pôde fulgurar, pois teria nascido nos fins do primeiro quartel de Quinhentos quem era ainda jovem em 1553, data da Carta do Perdão, a que já nos referiremos, que o habilita, liberto do Tronco da Cidade, a partir para a Índia como soldado.

A poesia lírica de Camões é, em grande parte, poesia de circunstância, o que significa que emerge da vida, como a espuma do movimento da vaga, e isso lhe dá o valor autobiográfico precioso para quem não encontrou nenhum contemporâneo que dele com demorada atenção se ocupasse. Fidalgo e freqüentador do Paço Real, escreveu o soneto em que comenta o incidente palaciano de D. Guiomar de Blasfé, a filha do conde de Redondo, D. Francisco de Sousa Coutinho, que depois encontraria vice-rei na Índia. Uma vela do salão queimou-lhe o rosto; o caso foi comentado risonhamente e o Poeta dedicou-lhe as trovas Amor, que a todos ofende, / Teve, Senhora, por gosto / Que sentisse o vosso rosto / O que nas almas acende, e ainda um soneto (O fogo que na branda cera ardia). As trovas que glosam o mote de D. Francisca de Aragão e a carta que as acompanha têm significado ainda de maior intimidade, a carta quase expressiva de amitié amoureuse entre o Poeta e grande dama. Depois, era o teor literário das composições de graciosa finura que implicava, da parte das damas a quem eram dirigidas, educação que lhas esclarecesse e fizesse saborear. Acrescia a isto seu convívio com a Índia: são aristocráticos os nomes dos seus convidados para o banquete de trovas. Um deles — João Lopes Leitão — figura na Lírica escrita em Lisboa e interessaria ao Poeta, porque também não era alheio às Musas, e foi o único que em verso protestou contra a troca de iguarias por trovas naquele poético ágape . . .

Neste covívio palaciano, teria Camões tomado amores que, pela desigualdade dos estados, de que mais de uma vez se queixa, tivessem provocado a perseguição de pai fidalgo ou até de irmão régio, que o desterrasse? Atribuem-se-lhe vários desterros, sendo um para Ceuta, onde se bateu como soldado em combate que lhe custou a perda do olho direito. A tal perda se refere na Canção Lembrança da Longa Saudade. Por quem foram tais amores? Por Natércia? Havia três desse nome, contemporâneas do Poeta. Pela infanta D. Maria, irmã de D. João III? Não seria a primeira dama de sangue real que se apaixonasse por um poeta, e, se esta o fizesse, encontraria justificação em sua consciência, dada a grandeza genial do enamorado, e dada a amargura duma vida de sempre noiva, a cada passso decepcionada por casamentos desfeitos pela própria enormidade do dote — que o irmão parecia querer evitar que saísse de Portugal . . .

Mas ponhamos de parte a congeminação, visto que não poderíamos transitar do recanto nevoento das suspeitas da fantasia para a realidade dos factos esclarecidos. Cumpre, todavia, notar que as suspeitas as suscitam os sonetos em que o Poeta se refere ao alto lugar em que pôs o pensamento, perante o qual reconhece em si tal baixeza, que cuidar nele é grão despejo e mais de uma vez protesta contra a humana natureza, que faz entre os nascidos tanta diferença e lamenta que a Fortuna desiguale os estados...

As Cartas são outra prova de que o Poeta, mesmo nas horas nocturnas de libertinagem, entre a taberna do Mal Cozinhado e as acolheitas das Ninfas de água doce, não tinha, como já foi suposto, convivência que possa lembrar a de Villon, de marginais a quem a forca de perto espreitava. Aquele a quem escreve a Carta III, refaz-se, em suas terras de Coimbra, dos desgastes da boémia lisboeta; diz-se-lhe enfadado do isolamento campesino, e Camões responde-lhe, depois de lhe descrever — e que realista o humorismo com que o faz! — o que havia de ridículo nos indivíduos que encontraria nas acolheitas: "Como vos parece, Senhor, que se pode viver entre estes, que não seja milhor essa vida que vos enfada, essa quietação branda, como um dormir à sombra de uma árvore e ao tom dum ribeiro, ouvindo a harmonia dos passarinhos, em braços com os Sonetos de Petrarca, a Arcádia de Sannazzaro, as Éclogas de Vergílio, onde vedes aquilo que vedes? Se a vós, Senhor, essa vida vos não contenta, vinde-a trocar pela minha, que eu vos tornarei o que for bem. E não vos esqueçais de escrever mais, que ainda me fica que responder. Cujas mãos beijo."

Este amigo, que tem terras em Coimbra, que é certamente também leitor dos poetas citados, porque de outro modo Camões lhos não nomearia, que sabe traduzir o latim que o amigo lhe cita, que pode compreender as alusões a Celestina e Calixto, da célebre tragicomédia de Rojas, e não desconhece as figuras clássicas da formosa Helena e da casta Lucrécia, será porventura o mesmo a quem é endereçada a Carta IV. A este igualmente o Poeta o trata por senhor, o inculca apto a traduzir-lhe o latim que lhe cita e fala-lhes das maças de Hércules.... E no momento dos cumprimentos, diz-lhe: "O Senhor António de Resende beija as mãos de V.M. e o mesmo faz o Senhor Pedro Ribeiro Serpe." Todos os requisitos sociais de um nobre senhor! E, todavia, é Camões que no-lo inculca membro daquela camaradagem de Marialvas arruaceiros, a que também se associa o filósofo João de Melo. Declara-lhe o Poeta o perigo que todos correm: "Dizem que é passado nesta terra um mandado pera prenderem a uns dezoito de nós; e porque nestas pressas grandes sem vós não somos nada, sabei que deste rol vós sois o primeiro, como sempre o fostes em tudo. A razão dizem que é por um homem fidalgo que dizem que foi espancado uma noite de são João pelo Senhor João de Melo, e ele saberá se é assim."

Eis os companheiros de Camões. Desciam das salas dos Paços da Ribeira, onde platonicamente ou à maneira de Petrarca galanteavam as damas de alta estirpe, para as damas de aluger onde se encontravam com a fauna humana objecto de desprezo e da sátira do Poeta. Os pés de Camões patinhavam na mesma lama dos da sua camaradagem, mas sente-se-lhe, ao confessá-lo, a palpitação das asas que em breve o libertariam...

O Poeta, na verdade, nessa estouvada estúrdia, ferira numa rixa um criado do Paço Real — Gonçalo Borges — e em tarde de procissão do Corpo de Deus. Preso no Tronco da cidade, ali passou alguns meses, ao fim dos quais, obtendo que o agredido, que ficou sem aleijão, lhe perdoasse, não lhe foi difícil conseguir de D. João III o pusesse em liberdade, tanto mais que se propunha servi-lo na Índia. A Carta de Perdão data, como dissemos, de 1553. A partida para a Índia é de um ou dois anos depois.

Da Índia, o Poeta escreve epístola a um amigo e nela lhe exprime a alegria dessa largada: "Enfim, eu não sei, Senhor, com que me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa terra me armavam os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais quieto que na cela dum frade pregador."

Está nitidamente posta de manifesto a voluntariedade da oferta a D. João III de serviços de soldado na Índia. Com o desejo de mais facilmente obter a Carta de Perdão, convergia o interesse da libertação moral a que se refere. O ser a promessa da largada para a Índia facilitadora do perdão régio, não lhe dá, porém, carácter de condição da liberdade e, como tal, forçadamente suportada, segundo o Poeta acentua.

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