quarta-feira, 18 de maio de 2016

in www.publico.pt, o MEDO dos portugueses, na Venezuela!


Medo e frustração entre a comunidade portuguesa na Venezuela


JOÃO RUELA RIBEIRO

18/05/2016 - 07:41


Sofrem com a inflação galopante, com os cortes de luz e com a luta política. Os portugueses e lusodescendentes na Venezuela não prevêem uma melhoria no futuro e muitos fazem planos para sair do país.






Protestos contra o Governo por causa da escassez e da subida dos preços dos produtos alimentares
FEDERICO PARRA / AFP








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Venezuelanos na rua contra regime culpado pelos frigoríficos vazios


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Há quinze anos que Verónica Sousa repete que as coisas não podem piorar mais na Venezuela. Hoje, esta filha de portugueses vê um país diferente. “Vejo pessoas que estão a ficar habituadas a isto.” “Isto” são as filas intermináveis para comprar bens essenciais a preços altíssimos, os apagões diários ou o receio de violência nas ruas.

O PÚBLICO ouviu portugueses e lusodescendentes que moram na Venezuela, numa altura em que o país sul-americano atravessa uma conjugação de crises sem precedentes. O sentimento dominante é de frustração, receio pelo futuro e vontade de abandonar o país que foi seu nas últimas décadas, mesmo que este seja um desejo de difícil concretização.

O Parlamento discutia esta terça-feira a extensão do estado de emergência económica decretado pelo Presidente, Nicolás Maduro. A oposição, quecontrola a maioria dos lugares na Assembleia Nacional desde a vitória nas eleições legislativas de Dezembro, diz que se trata de um estratagema do Governo para concentrar poderes extraordinários e limitar direitos políticos, para justificar a repressão de manifestações de descontentamento.

A Mesa da Unidade Nacional (MUD) convocou uma marcha em Caracas para esta quarta-feira e há receios de um regresso à onda de violência que inundou o país em 2014 — e em que morreram centenas de pessoas.

Enquanto os vários poderes entram em confronto — para já, sem violência física —, as pessoas tentam adaptar-se a uma realidade que muda de dia para dia, ao sabor da inflação, entre as filas nos supermercados e as horas passadas às escuras.
Frango assado para milionários

A flutuação dos preços é o maior factor de instabilidade. Qualquer produto serve para exemplificar esta realidade — leite, farinha, champôs ou papel higiénico. Richard Sequeira Pires escolhe um frango assado. “Há três meses custava 1200 bolívares, na semana passada tinha subido para 2800 e ontem apareceu a sete mil bolívares”, conta-nos. “Não se sabe nunca o preço das coisas”, diz este engenheiro informático de 49 anos de Maracay, filho de portugueses, já sem qualquer indício de incredulidade.

No mundo surreal em que se transformou a economia venezuelana, as cotações oficiais não servem como referência. O Governo não tem dólares em reserva e não autoriza trocas de dinheiro pelas vias oficiais. Segundo aBloomberg, em Fevereiro no mercado negro — por estes dias um barómetro mais fiável — um dólar valia cerca de mil bolívares.

O Governo tentou acompanhar a escalada dos preços e subiu o salário mínimo para 15 mil bolívares no início de Maio, o que, olhando para o exemplo do frango assado, ajuda a perceber a queda real do poder de compra dos venezuelanos.

Por trás da subida estratosférica dos preços está a grave escassez de bens essenciais. “A comida não é cara, é subsidiada, mas não há dólar suficiente para importar o necessário. Então as pessoas têm que fazer grandes filas apenas para saber se podem comprar alguma coisa”, conta Richard Pires. O normal é as pessoas começarem a concentrar-se nos estabelecimentos por volta das quatro da manhã, acrescenta.

Verónica tenta evitá-las. “As filas não são seguras, há pessoas que vão com armas”, diz. A gestora de 33 anos diz já ter presenciado cenas de violência nos supermercados entre pessoas que disputavam os últimos produtos das prateleiras. “Fiquei a tremer e com medo porque estava com a minha filha.”

A alternativa é o recurso ao mercado negro, onde os produtos são vendidos pelo triplo ou o quádruplo. “Muitas pessoas deixaram o trabalho porque era mais lucrativo estar nas filas e depois venderem os produtos muito mais caros”, diz a gestora de Maracay, cujos pais vieram do Algarve.

Mas agora até no mercado negro começa a haver escassez. “Coisas como leite, café ou açúcar já não há nas ruas. Eu tenho porque pude comprar em grande quantidade quando a situação começou a ficar feia. Temos as coisas guardadinhas, mas quando acabar… não há mais.”

Verónica diz ser optimista e nos últimos anos tem dito para si própria que a situação iria melhorar. Hoje não tem tanta certeza e teme que os seus compatriotas estejam a ficar acostumados a um novo normal. Recorda ter encontrado recentemente uma mulher contente por se estar a formar uma fila num supermercado — significava que estariam a chegar novos produtos. Não se conteve. “Eu disse-lhe: ‘eu lembro-me de poder comprar o que quisesse na quantidade que quisesse no dia que eu quisesse, isto não é normal’”, conta.

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