terça-feira, 24 de maio de 2016

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Febre no coração da Europa


PAULO MOURA

23/05/2016 - 21:01


Quando escreveu Danúbio, em 1986, os cafés, lugares intermédios entre as esferas individual e colectiva, eram o símbolo da Europa – e as periferias mantinham os valores comuns mais vivos do que os grandes centros. Hoje, com as fronteiras ao rubro, tudo isso mudou, lamenta Claudio Magris.
Claudio Magris não reconhece na actualidade a Europa que descreveu em 1986: “Infelizmente, depois da Guerra Fria, a História não acabou, explodiu com uma intensidade ainda mais violenta” FOTO: ALEXANDRE RIBEIRO WAPA/NFACTOS




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Claudio Magris


Aos 77 anos, o italiano Claudio Magris (cujos livros estão publicados em Portugal pela Quetzal) é considerado um dos mais importantes intelectuais europeus. Escreveu romances, ensaios, peças de teatro e artigos em que reflecte sobre cultura alemã, identidade europeia, política, religião, cultura. Convidado pelo festival LeV (Literatura em Viagem), esteve no passado fim-de-semana em Matosinhos, onde conversou com o Ípsilon.



Danúbio



Autoria: Claudio Magris
Quetzal Editores




Na obra Danúbio, fala dos cafés de Viena, Budapeste ou Lviv como símbolos da Europa. Diz: “Os cafés são a Europa”. O que nos dizem os cafés de hoje sobre a Europa?
Antes de mais, deixe-me dizer que Danúbio é um romance disfarçado, não um livro de História. Não se pode tomar literalmente. Essas afirmações são metáforas, o que significa que são ao mesmo tempo verdades e mentiras. Nessa passagem transparecia um sentimento de decadência fascinante, mas também uma dimensão que não é só de solidão individual, nem do apagamento do indivíduo na multidão. É a relação do individual com a dimensão pública. Os cafés são uma versão moderna da ágora grega. Locais onde se misturam trabalho e lazer, onde nos entregamos a certas rotinas, a certa preguiça, a certa reflexão, e onde podemos ler, discutir, e depois escrever. Isto nem sempre existe nas cidades de hoje, com o ritmo de hoje.

As cidades já não são pontos de encontro entre essas dimensões individual e colectiva?
A maneira como vejo as cidades é, bem entendido, marcada pela minha educação sentimental. Que sempre me levou a procurar essa dimensão intermédia entre o que é histórico, cultural, público, e a vida, que é fugaz, mas que dá a atmosfera a uma cidade. É por isso que quando visito uma cidade não são os museus nem os monumentos que me interessam. Acredito que a verdadeira realidade de uma civilização e de uma cultura é a vida quotidiana. A importância dos livros que li, da música que ouvi, é dar-me uma forma de me aproximar dos outros, de viver o mundo que me rodeia, de intervir, ou não, nas coisas. Existe a dimensão dos compromissos colectivos, públicos, que constitui um dever, porque é preciso interessarmo-nos pelo que se passa, e existe o reflexo disso na vida quotidiana. O que me interessa é a dimensão intermédia, entre as duas. É por isso que aqui no Porto preferi andar pelas ruas, passear pela Ribeira, a visitar museus.

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