
Se o caos chegar à Turquia a Europa também tem culpas
por LEONÍDIO PAULO FERREIRAHoje
7 comentáriosUm artigo de opinião no The New York Times fala da "Perigosa aposta da Turquia na Síria". Um título que se podia aplicar à Arábia Saudita, ao Qatar e mesmo aos Estados Unidos. É que ninguém previu que Bachar al-Assad continuaria a resistir ao fim de três anos de guerra civil; pior, ninguém imaginou que a rebelião contra o regime de Damasco seria sequestrada pelos grupos ligados à Al-Qaeda ou, mais radical ainda, pelo Estado Islâmico. Só que sauditas e qataris (e americanos, claro) não têm de se preocupar com uma fronteira porosa com um país em guerra, nem com um milhão de refugiados, nem em ter de lidar com uma minoria curda que sente como sua a tragédia dos curdos da Síria às mãos do Estado Islâmico, a hidra jihadista que destabiliza todo o Médio Oriente.
Ora, se uma Síria em guerra e um Iraque à beira da implosão devem preocupar o mundo, que dizer da possibilidade de caos, por mínima que seja, na Turquia, país de 80 milhões de habitantes, única democracia islâmica com raízes sólidas, membro da NATO e candidato à adesão à União Europeia? E não vale a pena pensar demasiado em culpados, pois se o Presidente Recep Erdogan tem responsabilidades, também é verdade que desde as outras potências regionais até aos Estados Unidos, passando pelos europeus, há muito quem criticar.
"Com o Estado Islâmico a escassos quilómetros da sua fronteira, a Turquia enfrenta agora o seu maior desafio de segurança das últimas décadas. Em resposta, o governo turco tenta alcançar o impossível; Ancara quer combater o Estado Islâmico, levar até ao fim a mudança de regime na Síria e reverter a autonomia curda, tudo ao mesmo tempo", escreve, no tal artigo no NYT, Sinan Ulgen, presidente do Centro de Estudos Económicos e de Política Externa, baseado em Istambul. "O risco é que esta abordagem hiperambiciosa possa resultar em que nenhum dos objetivos seja conseguido, ao mesmo tempo que se desperdiça uma oportunidade para contribuir para a estabilização da região", nota o antigo diplomata. A polémica em torno do papel da Turquia surgiu nos últimos dias e é soma de vários fatores: o resgate de 49 diplomatas turcos e suas famílias em poder do Estado Islâmico acabou com a desculpa óbvia para a cautela na ação; depois o Parlamento deu luz verde para o país se juntar à coligação que bombardeia os jihadistas, mas mesmo assim Erdogan prefere esperar; por fim, o cerco de Kobane, cidade curda síria a tocar na fronteira, deixou em desespero os curdos da Turquia, que temem um massacre dos seus.
Ora, é a questão curda que assume aqui relevo. E é pertinente uma análise no jornal turco Hurriyet, que afirma que "os curdos e o governo estão a jogar um jogo perigoso". Se por um lado Ozgur Korkmaz critica a passividade de Ancara, defendendo que se responda ao Estado Islâmico caso o lado turco continue a ser alvejado e que se crie corredores que permitam aos curdos juntarem-se à defesa de Kobane, por outro aponta o dedo aos líderes curdos da Turquia, que fomentam protestos que acabarão por gerar uma reação xenófoba que porá em causa o processo negocial para dar direitos à minoria e acabar com o separatismo do PKK.
Com 30 milhões, o povo curdo é o maior sem Estado. E as revoltas no Irão, no Iraque, na Síria ou na Turquia sempre foram esmagadas. Mas o pós-Saddam no Iraque deu autonomia aos curdos e agora, 11 anos depois da invasão americana, são os peshmergas que ajudam Bagdad a resistir ao Estado Islâmico. Armados por americanos, franceses e alemães, os curdos iraquianos alargaram o seu território e é difícil imaginá--los a submeter-se de novo a um poder central em Bagdad, mesmo que os árabes xiitas o partilhem com eles e com os árabes sunitas que hoje fornecem o grosso dos jihadistas.
Sem comentários:
Enviar um comentário