domingo, 19 de outubro de 2014

DO VATICANO...A IGREJA CATÓLICA CONTINUA A VIVER NA IDADE pré-MÉDIA.


Papa Francisco abriu portas que “dificilmente se voltarão a fechar”


NATÁLIA FARIA

19/10/2014 - 00:41


As propostas de acolhimento dos gays e do acesso à comunhão por parte de divorciados e recasados não foram aprovadas pelos bispos. Por outro lado, um dos mais ferozes críticos da abertura preconizada pelo Papa, o cardeal Raymond Burke, acaba de ser afastado do Supremo Tribunal Canónico. É a continuação das tensões no interior da IgrejaALESSANDRA TARANTINO/AFP




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Do acesso à comunhão por parte dos católicos divorciados e recasados ao acolhimento dos casais homossexuais: o Sínodo dos Bispos sobre a Família abriu portas na Igreja Católica que “muito dificilmente se voltarão a fechar”, segundo os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO.

No documento final votado este sábado, o relatio synodi, apenas três pontos não conseguiram os dois terços dos votos (123) necessários para serem aprovados. A questão é que eram precisamente os pontos que mais directamente aludiam à questão do acesso à comunhão por parte dos divorciados e recasados e ao acolhimento dos casais homossexuais.

O parágrafo em que se defendia a possibilidade de os divorciados e recasados acederem à comunhão depois de percorrido “um caminho penitencial” registou 104 votos a favor e 74 contra. Apesar de uma maioria de votos a favor, não reuniu os dois terços necessários à aprovação e por isso foi rejeitado. O mesmo aconteceu com a proposta de acolhimento dos homossexuais “com respeito e delicadeza”: 118 votos a favor e 62 contra. Apesar de estes pontos terem sido removidos da versão final, o Papa decidiu que a versão integral do documento deveria ser publicada. No discurso que proferiu após a votação, Francisco disse que teria ficado “preocupado e triste” se as questões lançadas sobre a mesa não tivessem sido discutidas abertamente e tivessem ficado reféns de “um acordo taciturno e de uma falsa paz”.

Tal esteve longe de acontecer. Depois da divulgação do relatório inicial, que reconhecia que os homossexuais têm “dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã”, o sector mais conservador da Igreja Católica (em que se incluem pesos-pesados como o cardeal alemão Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, mas também o cardeal norte-americano Raymond Leo Burke) apressou-se a criticar o teor do documento, negando que este espelhasse o teor das discussões havidas entre os bispos na primeira semana de trabalhos. Houve troca de acusações e farpas dirigidas ao Papa, de uma forma até agora inédita na Igreja Católica.

Curiosamente, confirmou-se no sábado a notícia de que Raymond Leo Burke foi afastado da presidência do Supremo Tribunal Católico, o que foi lido como um sinal de que o Papa está a escolher “ministros” mais predispostos à mudança na doutrina oficial da Igreja. Seja como for, o relatório que foi votado este sábado será apenas uma base para os trabalhos que se prolongarão pelos próximos 12 meses, até os bispos se voltarem a reunir, na assembleia ordinária marcada para de 4 a 25 de Outubro de 2015. E a palavra final caberá sempre ao Papa Francisco, do qual se espera a publicação de uma exortação pós-sinodal em princípios de 2016. Mas, independentemente das mudanças que vierem ou não a ser determinadas na forma como a Igreja acolhe divorciados, recasados e homossexuais, o Papa Francisco “abriu portas que vai ser muito difícil voltar a fechar”, segundo a teóloga Teresa Toldy.

Mudanças já começaram
Dizendo não esperar “milagres saídos deste sínodo”, Toldy considera que as mudanças já começaram. Desde logo pelo tom do documento que procurava sintetizar a primeira semana de discussões e “que não se limitava a repetir perspectivas dogmáticas mas que manifestava a existência de várias tendências”. “O facto de termos ouvido um cardeal tão importante como o de Viena a dizer que ele próprio é filho de divorciados é um indício de que se começa a poder ouvir vozes que estavam caladas há mais de trinta anos”, aponta Toldy.

As próprias divergências que marcaram uma semana de conferências de imprensa a partir do Vaticano (houve mesmo quem, como o cardeal guineense Robert Sarah, dissesse que o sínodo foi tomado por uma “nova ideologia do mal”) trouxeram para a praça pública “um pluralismo” que Teresa Toldy qualifica como muito saudável e um indício de que o Papa Francisco saiu vitorioso do braço-de-ferro com os sectores mais conservadores da Igreja. “Há pessoas que se revêm nas tendências de João Paulo II ou Bento XVI e para quem o reconhecimento da existência de várias tendências é um drama e um embaraço, mas este Papa tem o pluralismo como uma coisa saudável”.

Quanto aos passos seguintes, a incógnita é maior. “A perspectiva pastoral é muito importante mas, se não houver agora um mínimo de regulamentação desta abertura, pode acontecer que conferências episcopais que são muito reacionárias travem isto”. Neste quadro, em que “haverá já no Vaticano quem tenha a esperança de que este Papa não chegue a 2016”, Francisco enfrenta meses de difícil equilibrismo. “Ele está na posição difícil de puxar para a frente mas de não querer simultaneamente provocar rupturas. Não por uma questão de cobardia, mas porque a misericórdia que ele defende aplica-se a todos, isto é, ele não quererá fechar portas a uns por causa de as querer abrir a outros”, antevê a teóloga. Para quem uma coisa é certa: “Se essas portas se voltarem a fechar, a Igreja Católica será responsável pelo abandono de pessoas que hoje em dia se revêm com alguma esperança nesta possibilidade de respirar que o Papa trouxe”.

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