quarta-feira, 9 de setembro de 2015

PASSADIÇOS DO PAIVA- PORTUGAL


Passadiços do Paiva perderam 600 metros, reabrem em Outubro e com entradas pagas


SARA DIAS OLIVEIRA

08/09/2015 - 22:37


Incêndio consumiu quase 500 hectares de floresta em Arouca, prejuízo nos passadiços ronda os 130 mil euros.





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Depois do incêndio, passadiços do Paiva fecham à circulação
Construídos pelos homens, abençoados pela natureza


Quem desce a estreita rua para a praia do Vau, em Arouca, respira o cheiro a fumo, vê zonas totalmente destruídas pelas chamas, cruza-se com viaturas dos bombeiros, embate num cenário negro que, de repente, substituiu uma mancha verde. O incêndio que começou em Vila Cova, Espiunca, ao início da tarde de segunda-feira, consumiu perto de 500 hectares de floresta e destruiu 600 metros dos passadiços do Paiva entre a praia do Vau e Espiunca. O fogo ficou controlado pelas 8h30 desta terça-feira e durante a tarde combatiam-se pequenos focos que reacendiam. No terreno, estavam ainda 100 bombeiros e três meios aéreos.

Os passadiços do Paiva estarão fechados no próximo mês e meio, tempo para repor a parte destruída e tratar de questões que estavam em análise. Durante este período, o site oficial dos passadiços (www.passadicosdopaiva.pt) dará conta do desenvolvimento dos trabalhos e as visitas agendadas ao Arouca Geopark serão reorientadas. As contas estão feitas e os 600 metros consumidos nos passadiços significam um reinvestimento de 130 mil euros num equipamento que não tem seguro. A câmara local revela que é complicado tratar desta questão e insiste nos contactos.

O presidente da Câmara de Arouca, Artur Neves, chegou a temer o pior nos passadiços, que a dimensão da destruição fosse maior, que as chamas atingissem a escadaria de madeira na garganta do Paiva, um dos mais importantes cartões-de-visita desse percurso de cerca de oito quilómetros. Depois da avaliação dos estragos, e de uma noite mal dormida, o autarca mostrava-se optimista ao final da manhã de terça-feira. “Dentro de mês e meio, fica tudo reposto e vamos aproveitar para colocar em funcionamento o controlo de entradas e proteger, o mais possível, o arrastamento de pedras que podem acontecer com as chuvadas”, dizia ao PÚBLICO junto ao rio, perto da zona destruída. A autarquia está a estudar a criação de uma plataforma informática que permita controlar o número de entradas nos passadiços que ainda no último domingo receberam cerca de 10 mil pessoas. A intenção é ter, no máximo, 3500 visitantes por dia que terão de se inscrever previamente. A cobrança de entradas também avançará. Artur Neves fala num “valor simbólico”, mas não revela a quantia antes de ser aprovada pelos políticos locais. Há mais para fazer antes da reabertura. “Queremos restituir a galeria ripícola com as primeiras chuvadas para que o coberto original se desenvolva rapidamente”. E os parques de estacionamento serão redimensionados para dar resposta à procura. A vontade de duplicar a extensão dos passadiços e o desejo de criar, no seu percurso, um museu do complexo mineiro de Rio de Frades e uma quinta-museu da raça arouquesa, não esmoreceram com as chamas. Artur Neves quer concretizar o projecto, avaliado em cerca de quatro milhões de euros, durante o seu mandato autárquico.

Os passadiços do Paiva têm acessos para situações inesperadas. O presidente da câmara garante que há um plano de emergência para pessoas e até fogos, só que ninguém esperava um incêndio com tamanha proporção que chegou a mobilizar 229 operacionais, 72 viaturas e sete meios aéreos. “Não havia um incêndio desta dimensão há 15 anos. Aconteceu desta vez, logo no primeiro ano dos passadiços. Sabemos que é um equipamento de risco, mas não podemos desistir porque há algum risco”. Artur Neves mantém a confiança. “Temos de ver o lado positivo. O incêndio acabou por ser um bom teste e vamos virar este aspecto negativo em momentos positivos”.

Mostrar ou esconder?
Os passadiços foram inaugurados a 20 de Junho e Arouca nunca recebeu tantos visitantes no seu território. Há um impacto directo na economia local, há fins-de-semana que os restaurantes têm lotação esgotada e momentos em que a carne arouquesa não chega para os pedidos. As ruas de Arouca não estavam habituadas a tanto trânsito. O debate entre preservar ou mostrar em passadiços de madeira um troço de natureza que acompanha o Paiva tem alimentado muitas conversas. Artur Neves admite que há “sensatez” nessas discussões, mas não concorda com os que defendem que o espaço deveria manter-se afastado de olhares alheios. “A natureza tem de ser vivida, sentida. A fauna e a flora não rejeitam as pessoas, convivem bem com elas. Queremos alcançar o equilíbrio que desejamos e que sempre defendemos, não queremos massificar os passadiços”, refere. A verdade é que as melhores expectativas foram ultrapassadas e a afluência excedeu qualquer prognóstico. “O turismo de natureza não envolve massas, mas este envolveu e daí a nossa decisão de controlar as entradas”.

À hora de almoço, Joaquim Cunha, presidente da Junta da União de Freguesias Espiunca/Canelas, juntava-se aos homens que na rua observam o circuito do helicóptero que enchia água no Paiva para combater os reacendimentos. “Foram dias difíceis não só por o fogo ter atingido uma zona de mato muito grande, mas sobretudo pela obra magistral dos passadiços”. O autarca está satisfeito com a procura desse percurso, com o movimento que trouxe à terra, e concorda com a cobrança de entradas, uma vez que “os passadiços exigem uma manutenção muito grande”. “Isto é uma espécie de descoberta do paraíso. Arranjar um acontecimento que traga sete a oito mil pessoas por dia a um espaço é uma coisa do outro mundo”, comenta o autarca. Joaquim Cunha não duvida que o fogo tenha “origem criminosa” até por ter começado num sítio bastante ermo e que mais tarde, por acção do vento, chegaria aos passadiços e atingiria as duas margens do Paiva. “Foi muito triste. Agora é altura de aproveitar para se fazerem coisas de maneira diferente”.

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