“A turma está bem revoltada com a Dilma, acham que ela tem sido ruim”
RITA SIZA (Saltinho)
19/10/2014 - 08:50
Numa pequena localidade do estado de São Paulo, dominado pelo PSDB, a Presidente do Brasil obteve a pior votação em todo o país. Nesse “lugarzinho bom”, os eleitores reclamam da corrupção no Governo, da qualidade da saúde e da educação. Para eles, a mudança é “tirar a cambada do PT do poder”.
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Luís Frederico tem 48 anos, 34 deles passados “em cima dessa terra trabalhando” – plantando, picando, cobrindo e recobrindo cana de açúcar numa das muitas parcelas que rodeiam o município de Saltinho, uma pequena localidade no estado de São Paulo, a duas horas de distância da maior metrópole brasileira. “De tanta palhaçada que já viu”, fez um juramento que, afirma, é para cumprir até cair para o lado. “Nunca mais na vida eu voto em ninguém. Se o meu pai estivesse se candidatando a alguma coisa, e precisasse do meu voto para ganhar, ele ia morrer de fome porque eu não ia votar nele não”, garante, numa breve pausa do trabalho de preparar a terra vermelha do alqueire que será semeado.
“Você convive com tanta sem vergonha na política que acredita em quem?”, explica o seu irmão e companheiro de trabalho Claudionor, que apesar de compreender os motivos que mantêm Luís Frederico afastado das urnas, não partilha do mesmo cepticismo. “Eu estou como o Tiririca, acho que pior não fica”, diz, referindo-se à situação do Brasil, “que é muito melhor hoje do que era na época do Governo do Sarney”. Por isso, Claudionor não pensa em penalizar o actual Executivo na segunda volta da eleição presidencial, dentro de uma semana. “Não troco o certo pelo duvidoso”, confessa. O seu será um dos poucos votos em Dilma Rousseff.
Na primeira volta das eleições brasileiras, no dia 5 de Outubro, Saltinho deu à Presidente brasileira e candidata à reeleição a sua pior votação em todo o país. A representante do Partido dos Trabalhadores (PT) não obteve mais do que 10,2% dos votos válidos do município, que tem um total de 6119 eleitores. Em território tradicionalmente conservador, e com o voto fidelizado, ninguém esperava que a candidatura governista fosse vingar. Mas, ao mesmo tempo, não se previa tamanha hostilidade à campanha da Presidente.
“O ser humano é muito insatisfeito. O pessoal nunca está contente. O problema até nem é tanto a Dilma, é um problema social”, aventura Nilsa, uma doceira da região que acaba de fazer a sua entrega na Padaria Central, na Avenida 7 de Setembro, a via principal da localidade. Zélia, atrás do balcão, diz que não entende o suficiente de política para poder explicar as razões para o mau resultado da Presidente no município. “A turma está bem revoltada com a Dilma, acham que ela tem sido ruim”, conta. No dia 26, aposta, a votação de Saltinho vai ser de sentido único no candidato do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB). “Dizem também que o Aécio tem um lado ruim”, mas pelo menos não é a Dilma.
Talvez seja a certeza de que a eleição está mais do que decidida em Saltinho que explique o facto de quase não haver propaganda eleitoral visível em todo o município. Os habitantes garantem que sim, as campanhas passaram por aqui, mas pelas ruas, construídas em quadrículas e ocupadas com moradias térreas numa paleta colorida, intercaladas por variados pequenos comércios, o PÚBLICO só encontrou um único cartaz: dos candidatos a senador e deputado estadual pelo Partido da República (PR), o número 22 na lista oficial das formações políticas do país. Duas pichagens, bastante desbotadas, comprovam que a localidade não vive imune à histórica polarização e rivalidade política brasileira entre o PT e o PSDB – num muro branco ainda se vê o número 13 desenhado a vermelho, a “marca” dos petistas, enquanto outra esquina ostenta o 45 que identifica os tucanos (o animal é o símbolo do partido, fundado pelo antigo Presidente Fernando Henrique Cardoso e também por Aécio Neves).
"É o Aécio"
“Aqui não tem a mínima dúvida”, repete um friso de mulheres, tranquilamente sentadas à conversa no pátio, vigiando as travessuras de uma menina de colo que enfrentava o calor só de fralda . “É o Aécio”, diz uma; “o Aécio vence”, diz outra; “não tem jeito, ele ganha de novo”, garante a próxima; “vamos ter um novo Presidente da República”, anuncia a da ponta. No outro lado, encostada ao muro que separa a moradia da casa vizinha, Clara Cassano completa: “A gente está torcendo muito”.
Sentados à conversa na praça, os dois aposentados Navínio e Agenor confirmam que “aqui em Saltinho não tem Dilma não, nem ninguém quer saber de ladrão do PT. Para votar nesse povo outra vez só se for louco. O pessoal aqui vota no Aécio”.
Na primeira volta, a votação no candidato presidencial do PSDB em Saltinho chegou aos 68%. Melhor do que Aécio Neves, só mesmo o recandidato ao cargo de governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do mesmo partido, que obteve 73% (o seu total no estado foi de 57%). As quatro mulheres Cassano – representantes de diferentes gerações – votaram nos tucanos com convicção. “A situação no país é horrível, é um absurdo o que está acontecendo”, começa a matriarca Ilda Cassano, a dona da casa e a mais comedida, ou diplomática, das interlocutoras. “O que temos no Governo é um veneno. Detesto a Dilma, o PT, essa turma toda”, vai dizendo a nora Adriana Taranto, de 45 anos. “A saúde é uma porcaria, a educação é uma porcaria, a economia é uma porcaria. E o Governo é um abuso total. Todo o mundo sente isso, mas fala nada: o brasileiro é assim.”
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