terça-feira, 7 de outubro de 2014

Do Brasil...


A nova eleição tem a mesma polarização de sempre


RITA SIZA

06/10/2014 - 07:20


A votação na primeira volta não consagrou a possibilidade de uma terceira via na política brasileira.A terceira via eleitoral não vingou na votação do Brasil REUTERS/RICARDO MORAES




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Até hoje, só Luiz Inácio Lula da Silva tinha conseguido driblar as sondagens e as expectativas e disputar uma segunda volta presidencial quando já se esperava que ficasse pelo caminho. Aconteceu em 1989, depois de uma disputa épica e renhida com Leonel Brizola, o candidato do Partido Democrático Trabalhista (PDT): os dois estavam empatados no dia das eleições e Lula acabou por prevalecer com uma vantagem de um ponto – acabaria depois por perder para Fernando Collor de Mello.

A passagem de Aécio Neves à segunda volta das eleições presidenciais é, assim, uma “virada histórica”, como considerou o director do instituto de sondagens Datafolha, Mauro Paulino. “Em eleições presidenciais nunca tivemos um cenário parecido com esse de aproximação de dois candidatos na recta final”, notou Paulino, ao portal iG. O candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) chegou a andar 20 pontos atrás da sua adversária Marina Silva, que liderou a coligação Unidos pelo Brasil: na véspera da votação, uma nova pesquisa colocava Aécio pela primeira vez na segunda posição, pondo um ponto final nas esperanças da campanha de Marina e justificando o optimismo da candidatura tucana.

A eleição presidencial brasileira entra hoje numa segunda etapa, mas é como se voltasse ao princípio. E no princípio, o que havia era a tradicional polarização entre o Partido dos Trabalhadores (PT) de Dilma Rousseff e o PSDB de Aécio Neves – que se confrontam pela sexta vez consecutiva em 20 anos – e o favoritismo da Presidente candidata à reeleição. Ainda não é desta que se afirma uma terceira via na política brasileira.

Depois de tantas vicissitudes, idas e vindas da sorte e reviravoltas nas sondagens, o cenário da segunda volta carrega uma outra interrogação: afinal, que mudança era essa que quase 80% do eleitorado reclamava em cada sondagem de opinião? Como resumia o jornalista José Roberto de Toledo, doEstadão, olhando para os resultados das eleições estaduais, “essa onda da mudança vai quebrar na praia”.

A Presidente Dilma Rousseff, candidata da “continuidade”, inicia a segunda volta em situação de vantagem. Conquistou mais votos nas urnas e nunca abandonou a posição de liderança das sondagens. A sua candidatura – mote: “Governo novo, ideias novas” – tem mais “palanques” nos estados: o PT disputa a segunda volta em dez estados, e beneficia da aliança com o Partido Movimento Democrático do Brasil (PMDB), o partido do vice-presidente Michel Temer, à frente em sete estados e em segundo noutros sete. Mas a curta vantagem não aconselha grandes optimismos: será um combate duro até ao fim.

Para chegar à presidência, Aécio Neves terá de protagonizar uma nova reviravolta histórica: nunca nenhum dos concorrentes que chegou à segunda volta eleitoral em segundo lugar conseguiu vencer a votação. O candidato do PSDB tem ao seu dispor uma máquina partidária bem oleada e implantada em todo o Brasil, e certamente beneficiará do “embalo” da sua cavalgada recente: do ponto de vista emocional, é a sua campanha que tem o que os norte-americanos designam como o momentum na corrida.

O mineiro poderá capitalizar com o bom desempenho dos seus aliados em estados importantes – São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, mas também Pará, Goiás, Baía, Rio Grande do Sul. Beneficiará, ainda, de uma alteração “regulamentar” importante face à primeira volta: no horário eleitoral obrigatório na rádio e na televisão, os dois candidatos terão exactamente o mesmo tempo de antena para apresentar as suas propostas, fazer os seus ataques e rebater as críticas.

E sem descontar o efeito potencial do enorme número de eleitores que se opõe ao actual Governo, e que já manifestaram uma intenção de voto anti-PT e Dilma, um trunfo que Aécio Neves poderá explorar tem a ver com o actual desequilíbrio (ainda que ligeiro) da sociedade brasileira para a direita.

Um levantamento para a classificação ideológica do eleitorado, realizado pelo Datafolha do início de Setembro, antecipa uma certa primazia do centro-direita para a disputa da segunda volta. Os dados recolhidos apontavam para um crescimento de 10% para 13% do grupo de eleitores identificados como de direita, e um avanço de 29% para 32% do centro-direita (a comparação foi feita contra os valores do mesmo inquérito, em 2013). A parcela de eleitorado de centro ficou estável nos 20%. Os números confirmaram a ligeira queda da esquerda, que de 10% caiu para 7% e do centro esquerda, que agora representa 28% do eleitorado, quando há um ano andava nos 31%
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