Primeiro-ministro islandês pode ser a primeira vítima política dos Panama Papers
PÚBLICO
04/04/2016 - 12:42
Oposição da Islândia exige explicações ao primeiro-ministro pela empresa num paraíso fiscal que chegou a estar no seu nome.
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Islândia
Panama Papers
É provável que o jovem primeiro-ministro islandês se torne na primeira baixa política do escândalo Panama Papers, o conjunto de documentos da firma de advogados Mossack Fonseca, com sede no Panamá, que fornecia aconselhamento para a utilização de paraísos fiscais. Sigmundur Davíð Gunnlaugsson e o seu ministro das Finanças estão implicados.
A Islândia terá pela frente uma semana de manifestações, que arrancam já na tarde desta segunda-feira, adianta a AFP. E o Parlamento irá debater se apresenta ou não uma moção de censura – nada garante que ela será aprovada, já que os dois partidos que compõem o Executivo contam com 38 deputados, enquanto a oposição tem apenas 25.
A ex-primeira-ministra Jóhanna Sigurðardóttir (do Partido Social Democrata) exige a “demissão imediata” de Gunnlaugsson, uma vez que o primeiro-ministro “provou que não confia na moeda e na economia islandesas, visto ter colocado o seu dinheiro num paraíso fiscal”, disse no domingo à noite. Sigurðardóttir exige do chefe do Governo uma “explicação clara sobre os factos”.
O ex-ministro das Finanças, Steingrímur Sigfússon, comentou aThe Guardian: “Não podemos permitir isto. A Islândia parecerá uma república das bananas. Ninguém está a dizer que ele usou o seu cargo de primeiro-ministro para ajudar esta empresa offshore, mas o facto é que não nos podemos permitir um conflito de interesses. Nem o podemos manter em segredo”.
“É triste que aqueles que deveriam dar o exemplo, dizem que é fundamental acreditar na Islândia, depois decidem que o melhor é colocar o dinheiro no estrangeiro”, comentou o historiador e intelectual Gudni Johannesson, ouvido pela televisão pública RUV.
Não está provado que Gunnlaugsson seja realmente culpado de evasão fiscal, mas politicamente a sua posição tornou-se insustentável, refere a AFP.
Segundo a investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI) que teve acesso aos 11,5 milhões de documentos, Gunnlaugsson era dono de metade de uma empresa chamada Wintris Inc., com sede em Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. Criada em 2007, a empresa era detida em partes iguais pelo actual primeiro-ministro e pela sua mulher, Anna Sigurlaug Pálsdóttir.
A Wintris Inc. terá sido comprada à Mossak Fonseca através da sucursal luxemburguesa do Landsbanki, um dos três grandes bancos islandeses. O casal usava-a para investir uma herança que recebera de vários milhões de dólares, de acordo com um documento assinado em 2015 por Anna Sigurlaug Pálsdóttir (filha de um negociante milionário da Islândia, ligado ao consórcio da Toyota no país). Durante mais de dois anos, 50% da empresa pertenceu também a Gunnlaugsson, que em 2009 vendeu a sua metade à mulher por um dólar.
O gabinete do primeiro-ministro adiantou agora que a sua propriedade tinha sido um erro e que “sempre tinha sido claro para ambos que era a mulher do primeiro-ministro quem possuía os bens”, cita o Guardian. E que quando lhes chamaram à atenção o erro foi corrigido (no final do ano). A “venda” foi concretizada no final de 2009.
Foi também em 2009, em Abril, que Gunnlaugsson regressou à Islândia e entrou para o Parlamento como líder do Partido do Progresso. Nem então, nem quando quatro anos depois se tornou primeiro-ministro, revelou a sua participação na Wintris no registo de interesses do Parlamento, adianta o jornal britânico, que teve acesso aos documentos. Quando o diário o interrogou se alguma vez tivera uma empresa offshore, a sua resposta foi: “Eu próprio? Não. Bem, as empresas islandesas com quem trabalhei tinham ligações a empresas offshore… Mas posso confirmar que nunca escondi nenhum dos meus bens”.
O chefe do Governo insistiu que a sua mulher cumpre todas as regras fiscais. “Ela nunca utilizou os paraísos fiscais, e também não podemos afirmar que esta empresa é uma empresa offshore, na medida em que pagaria mais impostos no estrangeiro do que na Islândia”, escreveu no seu site na Internet. O Guardian também adianta não ter quaisquer provas de evasão fiscal ou ganhos ilícitos por parte de Gunnlaugsson, Pálsdóttir ou da Wintris.
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