sábado, 23 de abril de 2016

Artigo sobre Portugal



"Podemos agora ser um país normal?"
Excerto de um artigo do "Público", de 18/05/2014, da autoria de Paulo Moura e Rui Gaudêncio,in www.publico.pt, pesquisado na Net .
Passo somente as referências às ideias de Eduardo Lourenço.







...Eduardo Lourenço, ensaísta, filósofo, o grande teorizador dos mitos portugueses, acaba de publicar o último volume das suas obras completas, na editora Gradiva. É um conjunto de ensaios, alguns inéditos, sobre o colonialismo português, escritos na sua maioria antes do início da Guerra Colonial, em 1961. O título é Do Colonialismo como Nosso Impensado e reúne textos “que têm todos uma reflexão sobre nós, como nação colonizadora e colonialista”, disse Eduardo Lourenço. “Mas enquanto vivemos essa realidade, até ao início da rebelião africana, eu classificava esse colonialismo como uma espécie de colonialismo inocente. Não só inocente, mas também uma das dimensões do país que historicamente fomos, durante tantos séculos.”

Muita da reflexão surgia do confronto entre os ideais proclamados desse colonialismo e a realidade que se impunha a mudanças históricas que se tornavam inevitáveis. “Pela maneira como vivíamos a nossa própria História, como a líamos, eu pensava que a tragédia futura estava anunciada. Pensei que viesse a ocorrer mais cedo. Éramos uma nação que foi à Índia e se espalhou pelo mundo, e que teve a sorte de encontrar para esse momento um poeta de génio, cuja obra, Os Lusíadas, consubstanciou o discurso simbólico que temos enquanto portugueses para nós próprios, que nos dava uma tão boa consciência, que não permitia compreender o labirinto em que estávamos encerrados. Esses textos destinavam-se a tirar-nos um pouco, a cada um de nós, a venda que nos é comum e que tem séculos de existência e de espessura.”

Quando se deu o 25 de Abril, era tarde para se ter feito de outra maneira. A descolonização teve de fazer-se total e rapidamente. A incapacidade para encontrar uma solução “esteve no regime do Estado Novo, que em 13 anos não conseguiu resolver o problema, nem pela via militar, nem por outra qualquer”.

Mas, desde o 25 de Abril, “em todos os momentos importantes, as nossas referências continuam a ser as mesmas, as do Império perdido. Na Europália, o que levámos? A gesta dos Descobrimentos. Não temos mais nada para levar. É a nossa prata da casa. Todo o nosso problema é esse: como é que uma nação pobre e pequena pode, num dado momento, protagonizar uma acção tão grandiosa?”

A perda do Império, diz Eduardo Lourenço, é ainda um trauma demasiado profundo para que o possamos viver. “Eu ainda não fiz o luto. Sabia que ele era finito, mas escrevi isto para que ele não acabasse. Para que pudesse ter uma outra versão, que não fosse a pura opressão do Outro, a negação do Outro. Acreditava que isso teria sido possível. E continuo a acreditar que, no futuro, o que havia de verdade naquela mentira triunfe sobre o que havia nela de ilusão.”

Isso acontece hoje nos países onde se fala português, “onde ainda estamos sem lá estar. É uma constatação e um desejo. Uma espécie de utopia, falhada enquanto forma de relacionamento desigual entre os homens, mas que tenha algum cumprimento num futuro Quinto Império”. Apenas como um mundo de língua portuguesa, que “essa é a nossa identidade, como dizia Pessoa. Não temos outra”. E viver através dos outros, a quem amamos e que nos sobrevivem, é ainda viver”.

Falar do papel que cada povo tem no mundo também parece hoje a Eduardo Lourenço um exercício obsoleto. Aos 91 anos, preocupa-o mais o desvanecimento das entidades colectivas e o enfraquecimento do sentimento religioso, fenómenos que estão, na civilização actual, a deixar o indivíduo sozinho e indefeso perante a morte. “Eu posso senti-la, posso tocá-la e no entanto não acredito que vá acontecer. A nossa capacidade de ilusão é infinita. Tanto nos indivíduos como nos povos. A única forma que a morte tem de nos atingir é através da morte dos outros. A imortalidade seria isso, nunca nos separarmos daqueles que amamos.”

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