quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Artigo de Miguel Guedes no Jornal de Notícias


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Opinião

Voando sobre um ninho de notas
03.02.2016
MIGUEL GUEDES







Tráfego e tráfico confundem-se. O tráfico passou sónico e a voar na maior autoridade da aviação. Ficou claro como, neste tráfego, se pagam salários milionários e com retroactivos só para ver aviões: se não é em géneros ou mercadorias, que seja a soldos. No domínio dos "contos de crianças" de Passos Coelho, até conseguimos imaginar que a mesma troika que entrou com cortes a pés juntos Portugal adentro é a mesmíssima troika que a ex-PàF jura ter imposto unilateralmente um aumento superior a 150% nos vencimentos dos gestores da Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC), com o presidente a passar a alfândega com mais de 16 mil euros mensais retroactivos, sem nada a declarar. No domínio da esquizofrenia, até poderíamos imaginar que os burocratas de Bruxelas escolheram o mês de Outubro, véspera do fim da ex-PàF, para impor estes aumentos brutais a três mestres gestores da aviação civil, sem limites à vergonha. Na ANAC, tráfego e tráfico confundem-se.

Nesta teoria de ultraje e ligações directas ao ajuste, a troika teria obrigado Portugal a abrir as mãos com largura para adjuntos, assessores e directores ligados ao Governo de Passos/Portas enquanto fechava o país na espiral da dívida. É inaceitável que o presidente da Comissão de Economia, Hélder Amaral (deputado do CDS-PP), assegure, perante este escândalo, que a maioria de Direita tentou legislar para evitar os aumentos e que a troika não terá permitido. Sobretudo quando foi essa mesma maioria que - em Julho de 2013 - na votação em especialidade, recusou a limitação de vencimentos no âmbito da Lei-Quadro das Entidades Reguladoras. A mentira não tem só perna curta, devia ter consequências.

A maioria das pessoas internadas na instituição psiquiátrica que Milos Forman eternizou no filme "Voando sobre um ninho de cucos" está encarcerada por livre e espontânea vontade. Desinvestiu da personalidade, esfacelou a própria pele e assiste com fragilidade ao embate com a realidade exterior. Não resiste. É convencida a convencer-se. Para aquela psiquiatria dos anos 70, os abusos de poder até podiam ser encarados com a dose conveniente de desilusão mas nunca com uma reacção pelo sentido crítico ou pelo oposto. A vergonha sempre resistiu à despersonalização mas estamos num colete-de-forças. É imperioso sair deste filme mesmo quando o legado de Passos e Portas não facilita saídas mais fáceis do que aquelas que eram sucessivamente negadas aos novos amigos de McMurphy.

O autor escreve segundo a antiga ortografia







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