Obama declara falhanço do embargo e quebra isolamento de Havana
RITA SIZA
17/12/2014 - 22:01
Estados Unidos e Cuba anunciam mudança histórica no seu relacionamento. Líder norte-americano admite que a política para Cuba falhou e Raúl Castro pede o fim do bloqueio económico.
Obama: "Os EUA querem tornar a vida em Cuba um bocadinho mais fácil"
AFP/POOL/DOUG MILLS
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Obama: "Todos somos americanos"
Castro: "O bloqueio económico, comercial e financeiro deve cessar"
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O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o seu congénere cubano, Raúl Castro, inauguraram esta quarta-feira uma nova fase nas relações entre os dois países, afastados desde a década de 60 por um rigoroso embargo diplomático e económico que mantém a ilha governada em regime comunista debaixo de um estatuto de isolamento que muitos consideram uma “relíquia” da Guerra Fria.
“Os últimos 50 anos mostraram que essa política falhou, é tempo de experimentar uma nova abordagem”, declarou Obama, ao anunciar uma série de medidas destinadas a facilitar o acesso de pessoas e bens dos EUA para Cuba, que será oficialmente retirada da lista de países que apoiam o terrorismo coligida pelo Departamento de Estado.
Em discursos praticamente simultâneos, em Washington e Havana, os dois líderes fizeram referência à história conturbada entre os respectivos países, e ao mesmo tempo aos progressos recentes: o relaxamento de algumas restrições comerciais por parte dos EUA, ou as reformas económicas encetadas pelo Governo de Havana. Sem negar a existência de discordâncias e até tensões em diversas matérias, tanto Obama como Castro mencionaram uma intenção similar de “encontrar soluções” para ultrapassar os problemas entre os dois países. “Devemos aprender a arte de conviver, de forma civilizada, com as nossas diferenças”, sustentou Raúl Castro, na sua breve alocução televisiva.
Barack Obama, que já em 2009 defendeu um novo paradigma para o relacionamento entre os EUA e Cuba, justificou as suas decisões insistindo nas palavras “abertura”, “transformação”, “liberdade” e também “oportunidade” e “prosperidade”. “Todos somos americanos”, sublinhou o líder norte-americano em espanhol, argumentando (de novo em inglês) que a troca, livre e aberta, de informações, tecnologias e entre os dois países seria de benefício mútuo. “É um novo capítulo entre as nações das Américas”, considerou.
Pelo seu lado, Raúl Castro lembrou que apesar do restabelecimento das relações diplomáticas, e da boa-vontade para a discussão de matérias como os direitos humanos ou a política externa, o embargo económico permanece em vigor. “O principal continua por resolver. O bloqueio económico e financeiro, que causa enormes prejuízos ao nosso povo, tem de acabar”, defendeu.
No entanto, a Administração Obama não está preparada a ir tão longe na sua acção directa – as medidas económicas anunciadas ainda não põem termo ao embargo. O Presidente manifestou o desejo de trabalhar com os líderes do Congresso para mudar as restrições consagradas na legislação norte-americana: “Espero iniciar um debate sério e honesto com o Congresso”, que é o único órgão com competência para rever ou anular o embargo (através da redacção e aprovação de uma nova lei).
Ainda antes da declaração de Obama, vários legisladores republicanos vieram esvaziar o balão do optimismo e atirar um balde de água fria sobre essa possibilidade: o speaker do Congresso, John Boehner, antecipou uma movimentação em bloco dos conservadores para impedir qualquer iniciativa legislativa no sentido de pôr fim ao embargo. “As relações com o regime Castro não devem ser revisitadas e muito menos normalizadas antes que o povo cubano goze de liberdade”, declarou, classificando as medidas de Obama como “concessões impensáveis [feitas] a uma ditadura que brutaliza o seu povo e conspira com os inimigos” dos EUA.
O veterano senador da Nova Jérsia Robert Menendez censurou a decisão de “trocar três espiões condenados por um americano inocente”. Para o seu correligionário Marco Rubio, apontado como um dos putativos candidatos à nomeação republicana para as presidenciais de 2016, “a abertura manifestada com os irmãos Castros levará outros tiranos, de Caracas a Teerão a Pyongyang, a perceber que se podem aproveitar da inocência de Obama nos próximos anos”.
Em Miami, onde reside a maior comunidade de “exilados” cubanos (há cerca de dois milhões de cubanos nos EUA, 55% dos quais são cidadãos americanos), a reacção ao discurso de Obama também foi maioritariamente negativa, com os líderes da diáspora a rejeitarem qualquer iniciativa de reconciliação com o regime castrista. No início do mês, os cubanos de Miami aplaudiram entusiasticamente o antigo governador da Florida Jeb Bush, que anunciou a sua intenção de concorrer à Casa Branca em 2016, quando este disse que “em vez de levantado, o embargo [a Cuba] devia ser fortalecido”.
Porém, os números recolhidos em Fevereiro deste ano numa grande sondagem do Atlantic Council demonstram que esse não é o sentimento da opinião pública norte-americana. A nível nacional, 56% dos inquiridos mostraram-se a favor da “normalização de relações e do início de contactos directos entre os EUA e Cuba”, com 35% a oporem-se à mudança da actual política. As respostas à mesma pergunta, apenas no estado da Florida, balançam ainda mais o pêndulo a favor das mudanças: 63% são a favor da abertura e 30% são contra (a divisão é praticamente a mesma entre os hispânicos/latinos).
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