quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Poema de Fernando Pessoa



Através de LIMA REIS(NET)




Natal... na província neva
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.


Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!







O poema "Natal... Na província neva" é um poema ortónimo de Fernando Pessoa publicado em 1928, no Diário de Notícias Ilustrado. Trata-se efectivamente de um poema evocativo da época natalícia, pois foi publicado em Dezembro de 1928, e como bem sabemos Dezembro é o mês do Natal.



Mas a evocação que Pessoa faz é triste e melancólica. Isto porque o Natal é o período por excelência das reuniões familiares e Pessoa está só e sem família. A primeira estrofe do poema reúne esses mesmos sentimentos tão estranhos ao poeta: os "lares aconchegados" e "os sentimentos passados". Ele imagina as famílias na província, reunidas, conseguindo na sua unidade familiar continuar as tradições natalícias.



A segunda estrofe, porém, é uma em que Pessoa já não consegue esconder o que ele próprio sente perante essa visão das famílias reunidas, em tranquilidade. O coração de Pessoa não se reconhece nesses sentimentos, ele está "oposto ao mundo", na medida que ele próprio está afastado dos outros, só e frio. Mas mesmo assim ele reconhece aquela verdade universal, que a "família é verdade". Trata-se afinal de uma confissão horrível que ele faz para si mesmo: que mais valia ter uma família do que as suas pesquisas, a sua poesia obscura.



Pessoa ao longo da sua vida perseguirá sempre a "Verdade". E ele aqui vê que existem vários tipos de verdade: aquela verdade solitária que ele persegue pelos seus estudos, e a verdade simples, da família, da tranquilidade natalícia e de todas as festas comunais.



Pessoa sozinho tem um pensamento profundo e está só. Está só e perante aquela "outra verdade"; que é a família.



No entanto, ele sabe que lhe está inacessível essa "outra verdade". Ele não pode estar com a família. A sua mãe morrera em 1925 e esse tinha sido o "golpe final" na sua esperança de ter uma família. Por isso mesmo ele expressa na última estrofe essa esperança perdida:



"E como é branca de graça / A paisagem que não sei, / Vista de trás da vidraça / Do lar que nunca terei!". A paisagem que ele não sabe, por detrás da vidraça do lar que nunca terá - tudo isto é um futuro que ele sabe nunca poderá ter. O poema acaba com esta consciência do impossível. Lá na província, há lares aconchegados onde tudo isto é uma realidade, em que tudo isto é "verdade". Mas esta é uma "verdade" inacessível a Fernando Pessoa. Para ele resta apenas a solidão, e a verdade oculta das suas pesquisas poéticas."


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