“O dono disto tudo passa a responsável disto tudo ou vítima disto tudo”?
CRISTINA FERREIRA , PAULO PENA e PEDRO CRISÓSTOMO
10/12/2014 - 01:23
Um banco falido, uma família dividida, repercussões internacionais, dilemas políticos. O dia em que Salgado e Ricciardi foram ouvidos pelos deputados foi longo. Mais de 16 horas seguidas de dialecto “financês” e uma questão: por que faliu o BES e o seu grupo?
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MULTIMÉDIA
"A minha responsabilização será apurada pelos tribunais"
"O Dono Disto Tudo é o povo português"
Salgado acusa Banco de Portugal sem medo do "raspanete"
"Estou de consciência tranquila, não há nada de que me arrependa"
"Considero-me um verdadeiro trabalhador"
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"Foi uma tristeza o que aconteceu à PT"
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Cavaco diz que matérias tratadas com Salgado "são reservadas"
Opinião: O criminoso foi obviamente o mordomo
Editorial: A culpa com Salgado não morre solteira
Carlos Costa refuta “veementemente” a versão de Ricardo Salgado
Salgado atira culpas para o Banco de Portugal e Governo: “O BES não faliu, foi forçado a desaparecer”
Ricardo Salgado: "O leopardo quando morre deixa a sua pele. E um homem quando morre deixa a sua reputação"
Ricardo Salgado ao minuto: "Se Ricciardi fez alguma denúncia ao BdP, deve ter tido alguma contrapartida por isso"
Ricciardi rejeita luta de poder e diz que esteve sozinho a denunciar ilegalidades
Intervenção de Ricardo Salgado na comissão de inquérito ao BES
A correspondência entre Carlos Costa e Ricardo Salgado
A comparação foi usada por Ricardo Salgado. E é sedutora. Tal como Dick Fuld, o CEO do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, em 2008, Salgado foi chamado para se explicar perante os eleitos do povo. Não tinha, ao contrário do banqueiro norte-americano, nenhuma manifestação à sua espera. Apenas uma enorme audiência, dentro e fora da sala 6, a última do corredor das comissões parlamentares.
Salgado entrou no Parlamento por um acesso reservado e na sala usou a porta secundária, que costuma ser de uso restrito para os deputados. Desde as 8h, uma hora antes da audição, já a azáfama se instalara no Parlamento. Não só com os mais de 50 jornalistas, repórteres fotográficos e de imagem que lotaram as inéditas três filas de cadeiras no fundo da sala, minutos depois dessa hora madrugadora. Mas a própria segurança do Parlamento dava sinais pouco comuns de movimento. Quando Salgado circula nos corredores, ninguém (excepto os deputados), pode circular.
Tudo isto concorre para dar a esta audição uma aura de acontecimento histórico. O poder económico submete-se ao escrutínio do poder político, ainda que os factos digam respeito ao passado, e o poder seja, hoje, mais simbólico que real.
Sabendo disto, Salgado deixou uma frase: “Para mim, ‘dono disto tudo’ é o povo português e os senhores deputados são os representantes do povo.” A expressão, que terá começado por ser uma alcunha simpática, posta por zelosos admiradores, acabou por perseguir Salgado. E por ser glosada de várias formas: “responsável disto tudo”, “vítima disto tudo”. Isto tudo, o país.
Mas foi preciso esperar oito horas para que a expressão surgisse, pela voz da deputada Mariana Mortágua, do BE. Salgado estava preparado para o embate. “Essa classificação de ‘dono disto tudo’ é irrisória.”
O ex-presidente do BES, funções que exerceu durante mais de 22 anos, começou por avisar que estava ali para dar a sua versão dos factos. “Durante semanas e meses a fio, a minha família e eu próprio fomos julgados sumariamente na opinião pública. Tudo histórias totalmente falsas, mas que acabaram por ocultar a verdade dos factos”. Ainda assim, o ex-banqueiro diz que se “remeteu ao silêncio” e esteve nos últimos meses “a trabalhar para defender a dignidade e a honra” da família e de si próprio. Uma das frases que trazia escrita, na sua intervenção inicial de mais de uma hora, para sublinhar a ideia, cita “um provérbio chinês”: “O leopardo quando morre deixa a sua pele e um homem quando morre deixa a sua reputação.”
A sua “interpretação” do que aconteceu ao GES e ao BES mostra as bases da sua defesa: a falência do GES e do BES foi ditada pela crise financeira internacional; houve uma intenção clara por parte das autoridades [Banco de Portugal (BdP) e Governo] de “liquidar o BES”.
Por explicar, ficaram outras questões, como o passivo de 6000 milhões da ESI, apurado em Novembro de 2013 (numa inspecção do BdP) que Salgado dizia ignorar apesar de ser administrador daquela holding. Cecilia Meireles, do CDS, registou: “Esta é a parte que não consigo de todo entender: como é que a holding de topo não era auditada, não tinha revisor oficial de contas, e porque é que ninguém se questionou sobre a ESI...”
O BdP foi um dos grandes alvos da audição. “Ouvi com surpresa as intervenções do senhor governador a dizer que tomou várias iniciativas para que deixasse a governação do BES”, afirmou Salgado. O ex-banqueiro garante: “O senhor governador nunca me disse [em Junho de 2014] que eu devia sair, mas que toda a família teria de deixar as estruturas do BES. Se o senhor governador me tivesse dito para eu sair, saía na hora. Mas na hora.” Sobre a declaração de Carlos Costa, nesta mesma comissão, sobre um “braço-de-ferro” entre o BdP e Salgado respondeu: “Se houve um braço-de-ferro com o governador do Banco de Portugal eu não senti.” O deputado Miguel Tiago, do PCP, que o interpelava, reagiu: “Tal é a força do Governador.”
Governador refuta
Carlos Costa estava longe da sala 6, mas não deixou de reagir ao que lá se disse. Logo que acabou a audição de Salgado, às 19h14, o governador enviou uma carta à comissão para “refutar veementemente” algumas das afirmações que lhe eram dirigidas. Salgado salientou também que no final de 2012 foi por sua “livre iniciativa ao BdP” falar da questão da idoneidade [na sequência da regularização por três vezes da sua declaração fiscal e da alegada comissão de 14 milhões de euros que recebeu do cliente José Guilherme], e que nunca mais o tema voltou a ser referido. Carlos Abreu Amorim, do PSD, foi o primeiro a intervir. E logo para acusar Salgado de “desonestidade intelectual”. A frase daria o tom para uma escalada, mas Salgado usou toda a sua fleuma, elogiando antes o “brilhantismo” do deputado. O duelo prosseguiria na segunda ronda, quando Amorim acusou o ex-banqueiro de “compor uma narrativa alindada”. Salgado refutou: “Se tivesse sido levantada a questão da minha idoneidade, eu tinha imediatamente pedido a demissão.”
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