Opinião

TAP: os bons, os maus e o comprador
19.12.2014
PEDRO IVO CARVALHO
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Decretar uma greve de quatro dias na TAP para a época do Natal e do Ano Novo só podia dar nisto: por mais atendíveis que possam ser os argumentos dos sindicatos, o "timing" escolhido para contestar a privatização da empresa foi o pior possível. Este é o momento em que a TAP ganha efetivamente dinheiro, este é o momento em que a TAP consegue demonstrar que mantê-la no regaço do Estado faz todo o sentido, porque há, na sua vocação empresarial, uma evidente dimensão de serviço público.
Porém, aos olhos dos milhares de portugueses que, por estes dias, recorrem à companhia aérea para passar férias junto da família, esta greve geral é apenas um ato "terrorista", que eles tratarão de punir escolhendo outra empresa para voar. E aos olhos do comum dos cidadãos, que se servem ocasionalmente da TAP, esta paralisação tem apenas o condão de atirar o Governo para os braços de uma confortável inevitabilidade: a de ser "obrigado" a usar a figura da requisição civil, forçando os funcionários a comparecer ao serviço para assegurar os 1141 voos previstos para esse período. Por imperativo nacional.
As posições extremaram-se a tal ponto, que a discussão deixou de fazer-se em torno da eficiência na gestão da empresa e do retorno e importância que a sua manutenção na esfera pública podia representar para o país e passou a fazer-se em torno da ideologia. Da boa e da má. Os maus querem privatizar a TAP, os bons querem salvar a TAP.
O que sobra da contenda não é prometedor. No fim da linha, perdem todos: os sindicatos, porque radicalizaram argumentos e saíram chamuscados; o Governo, porque agarrou-se ao dogma da privatização e não impediu prejuízos; e a própria empresa, porque, mesmo com uma requisição civil, não é crível que se salve da fuga de milhares de clientes, que não quererão arriscar uma viagem sem a certeza absoluta de que não vão ficar com o bacalhau demolhado nas malas.
Choram os sindicatos, chora o Governo, choram os trabalhadores da TAP, choram os passageiros. Mas não suficientemente alto para abafar as gargalhadas de felicidade de quem vai comprar uma empresa cada vez mais em saldo. Para esse alguém, esta greve é uma dádiva. Dos céus.
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