domingo, 21 de dezembro de 2014

DE NOVA YORK


Morte de dois polícias em Nova Iorque reacende debate sobre discriminação racial


PAULO PENA

21/12/2014 - 09:30


Bill de Blasio, o mayor da cidade, está no centro de um debate tenso entre os que protestam contra a violência policial sobre as minorias e os que o acusam de pôr em causa a autoridade da corporação. Obama pediu para que os americanos “rejeitem a violência”.





Bill de Blasio está a ser criticado pela polícia
REUTERS/STEPHANIE KEITH






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Numa esquina de uma movimentada zona comercial em Brookyin, no bairro Bedford-Stuyvesant, os agentes Wenjian Liu, 32 anos, e Rafael Ramos, 40, foram várias vezes baleados à queima-roupa, na cabeça e tronco, na noite de sábado, quando estavam dentro do carro-patrulha. O atirador, Ismaaiyl Brinsley, 28 anos, viajara nessa noite, de propósito, de Baltimore, para assassinar dois agentes (como anunciou a sua conta na rede social Intagram, citada pelo New York Times). Brinsley acabou por se suicidar, também a tiro, na estação de metro de Myrtle Wiloughby.

Os agentes Liu e Ramos foram completamente surpreendidos, e segundo o relatório preliminar da polícia, nem tiveram tempo de pegar nas suas armas para reagir. O assassino planeara a acção. “Eles levam um dos nossos, nós levamos dois dos deles”, escreveu no Instagram.

O Presidente Obama fez uma declaração, na noite de sábado, pedindo aos cidadãos que priviligiem as palavars e "rejeitem a violência".

A pretensa “vingança” aconteceu depois de meses de indignação pelo caso Eric Garner, morto nas ruas de Staten Island, Nova Iorque, por asfixia, por um grupo de agentes que o interpelam (na sequência de uma multa, anterior, por venda clandestina). Garner repete, num vídeo que mostra os acontecimentos, “não consigo respirar”, enquanto o agente Daniel Pantaleo o imobiliza, por trás, apertando-lhe o pescoço com o braço.

No início de Dezembro, um grande júri decidiu não acusar Pantaleo. Os protestos contra a violência policial, que estavam em escalada desde os acontecimentos de Ferguson, tomaram conta das ruas de Nova Iorque. E é aí que entra o mayor Bill de Blasio…

Como liberal, que é pai de um filho biracial, De Blasio tentou a quadratura do círculo: não comentou o arquivamento do processo, evitando questionar os métodos da polícia que tutela e, por outro lado, permitiu que os manifestantes expressassem a contestação à polícia nas ruas.

Por isso, uma das primeiras reacções às mortes dos dois agentes, neste sábado, foi para acusar o mayor de ter “sangue nas suas mãos”. Citado peloNew Tork Times, o presidente da Associação de Beneficência dos Polícias, Patrick Lynch, acusou os manifestantes anti-violência de “destruir o trabalho dos polícias”. E apontou a principal responsabilidade para De Blasio. Um vídeo, divulgado na madrugada de domingo, mostra dezenas de agentes a virar as costas a De Blasio, quando este se encaminhava para a conferência de imprensa em que reagiu às mortes de Liu e Ramos.

Aí, De Blasio, acompanhado pelo comissário da polícia, William J. Bratton, condenou o assassinato: “[Foi] um ataque a todos nós, e a tudo o que consideramos caro”. E adiantou que já tinha conversado com o filho de 13 anos do agente Ramos, “que não conseguia compreender a razão para o que aconteceu ao seu pai”.

Uma das principais queixas dos sindicatos da polícia contra o mayor surgiu quando De Blasio afirmou, na sequência do arquivamento do caso Garner, que teme que o seu próprio filho, Dante, venha a ser alvo de discriminação racial por parte dos agentes. O tratamento dado a uma criança branca, disse, “é diferente”: “Esta é a realidade neste país. E desde muito cedo, com o meu filho Dante, temos repetido: ‘Se um agente da polícia te abordar não te mexas, nem faças gestos bruscos, não tentes tirar o telemóvel do bolso’. Porque sabemos, infelizmente, que por ser um jovem de cor tem muito mais probabilidades de ser mal interpretado."

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