Alemanha, o motor económico europeu é também o principal destino da imigração
ANA FONSECA PEREIRA
01/12/2014 - 18:04
A crise que fechou as portas da Europa acelerou a mobilidade na UE, revela a OCDE. 30% dos europeus que emigram fazem-no para a Alemanha
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Ilha de prosperidade num continente sangrado pela crise, a economia alemã está a absorver trabalhadores de boa parte da União Europeia: quase um em cada três cidadãos comunitários que deixa o seu país para trabalhar ou procurar emprego viaja para a Alemanha, que em 2012 se tornou o segundo principal destino migratório entre os 34 países que integram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), atrás dos Estados Unidos.
O poder de atracção do motor da economia europeia é um dos destaques do relatório anual da organização sobre a evolução das migrações, na qual continuam bem visíveis os efeitos da crise internacional iniciada em 2008 e da subsequente crise do euro, dois anos mais tarde. Os vistos de trabalho para a Europa continuam em declínio (-12% em 2012) e nos países do Sul, que na viragem do século registaram um afluxo sem precedentes de imigrantes, sai agora mais gente do que a que chega em busca de trabalho. Em 2012, o último ano do qual a OCDE tem dados completos, chegaram ao continente 950 mil imigrantes vindos de países terceiros, tornando longínquo o recorde de 1,4 milhões registado em 2007.
Mas se as portas do continente se fecham, nunca houve tanta mobilidade no espaço europeu. O relatório revela que, pela primeira vez desde o início da crise, a imigração para os países da OCDE aumentou em 2013 (+ 1,1% do que em 2012), uma ligeira subida que o relatório atribuiu ao facto de mais europeus estarem a usar a liberdade de circulação para procurar emprego nos países mais ricos da UE e da EFTA (a que pertencem a Suíça e a Noruega). Os dados finais de 2012 revelam que a imigração intracomunitária aumentou 12% face ao ano anterior e igualou, de forma inédita, o número de trabalhadores que chegam de fora do continente.
E a Alemanha foi o país que mais mão-de-obra captou. O relatório recorda que ainda em 2009 o país era apenas o oitavo destino de imigração da OCDE – os 200 mil imigrantes que recebeu nesse ano eram muito menos do que os que viajavam para o Reino Unido, Espanha ou Itália, que ocupavam então o pódio entre os europeus. Em 2012, o país recebeu quase 400 mil imigrantes, dois terços dos quais vindos de outros países da UE. Cerca de 30% dos cidadãos europeus que emigraram fizeram-no para a Alemanha, a maioria vindos dos países a Leste, mas também cada vez em maior número dos países do Sul.
A boa saúde da economia alemã explica a atracção, mas o relatório da OCDE destaca também as políticas de captação de mão-de-obra qualificada adoptadas por Berlim, num país onde o envelhecimento da população tem dominado o debate público.
Outros países do Norte da Europa, caso do Holanda, Áustria ou Suíça, registaram um forte aumento de entradas de trabalhadores comunitários. O mesmo sucede no Reino Unido, onde os europeus são os principais responsáveis pela subida no saldo migratório (diferença entre as entradas e saídas registadas). Mas apesar do tema dominar o debate político – sexta-feira, o Governo anunciou a intenção de só atribuir subsídios aos trabalhadores após quatro anos de descontos –, a OCDE indica que apenas 7% dos europeus que emigraram em 2012 foram para o Reino Unido. Adianta também que os níveis de imigração no país estão 15% abaixo do registado antes da crise.
E num recado a todos, mas que soa dirigido a Londres, a organização pede políticas públicas coerentes que “não sacrifiquem os benefícios de longo prazo em função de preocupações mais imediatas”, tais como “os ciclos políticos e a hostilidade da opinião pública”.
Na face oposta das migrações, está Espanha (onde em 2012 entraram menos de um terço dos 691 mil imigrantes registados cinco anos antes), mas também Portugal, Itália, Irlanda ou a Islândia, todos com saldos migratórios negativos ou próximos disso. Nos EUA, que continuam a ser o país da OCDE que mais estrangeiros acolhe, a imigração registou um ligeiro decréscimo e em 2013, pela primeira vez numa década, foram emitidos menos de um milhão de vistos.
O relatório destaca ainda um aumento de 20% no número de pedidos de asilo apresentados aos países da OCDE em 2013 face ao ano anterior, uma situação que atribui à crise humanitária que se arrasta na Síria, que é já o país de origem da maioria dos que pedem protecção. A Alemanha é novamente o país que mais pedidos recebeu (109 mil), mas a Suécia é proporcionalmente o país mais procurado pelos refugiados (5700 por milhão de habitantes, quatro vezes mais do que Berlim).
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