quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Artigo Em "Canal Moritz", de Valter Guerreiro



SE FORMOS CÚMPLICES NÃO SOMOS VÍTIMAS










Um poder transparente e meritocrático reclama uma sociedade civil forte. Não é o caso: somos fracos, apáticos, cúmplices e temos medo.

As revoluções socialistas foram decepcionantes e a democracia é um arremedo: o futuro adensa-se de sombras e a guerra anda por aí.

O desespero e a fome matam a alma, colocam o estômago no centro do mundo e os símbolos da cidadania consciente, inteligente e activa foram há há muito devorada pela cultura do consumo.

Desapareceram as filosofias alternativas totais ao estilo de Marx, o emprego deu lugar ao trabalho e a vida tornou-se uma criatura aleatória num mundo darwinista povoado de incertezas, de corruptos e de mentecaptos.

E tudo vai de mal a pior porque há filhos para sustentar, o crédito é uma forca, as finanças estão ávidas, os bancos são vampiros, o dinheiro roubado passa férias nos paraísos fiscais e muitos dos ladrões continuam à solta.

Silêncio, depressão e angústia portanto.

Salvam-se os notáveis e os seus séquitos.

Portugal é um antro de injustiça, imbecilidade e oportunismo: um pequeno esgoto onde os mesmos são presidenciáveis, ministeriáveis, empregáveis, viajáveis, europeizáveis, mediatizáveis, condecoráveis e fazedores da opinião pública.

Fora os milionários da bola, só os artistas de cordel adquirem semelhante estatuto, alcançam tamanho prestígio e partilham com igual abundância dos recursos e das oportunidades escassas de um país madrasto para milhões dos seus filhos.

O mercado, sempre o mercado, justifica que uns pontapés numa bola valham por minuto mais dinheiro que 2000 horas de aulas universitárias num ano.

O cinismo, a pesporrência e a impunidade tornam-se elementos estruturantes da cultura tecnocrática e neo-liberal que o socialismo, a social-democracia e a democracia cristã vão alimentando para benefício dos sócios e amigos.

Qual buraco negro, o centrão captura a luz, esconde-a e não mais a deixa sair : o país está às escuras.

Sob o chapéu da poderosa Europa não há nada a temer: qualquer abanão será estrangulado e todas as utopias serão cremadas na normalidade constitucional de uma existência vigiada pelos polícias do défice.

Pão e circo continua a ser o móbil escondido das organizações e das cabeças deslavadas que alternam ao leme dos poderes supranacionais e pátrios.

Ninguém parece ter alternativa e o homem das cavernas está aí: engravatado e técnico joga na bolsa, lança opas, teoriza a produtividade, clama pela eficácia e nem se lembra que a alma existe.

A esfera do espírito onde o homem é ou deixa de ser foi esmagada pela avidez do dinheiro e pelo sentimento de desorientação diante do êxito dos sentimentos mais primários.

Alienados como todos os outros, os portugueses perdem a consciência da sua dignidade e entregam-se à estúpida competição pelo sucesso individual sem perceberem que navegam no vazio!

E os mais frágeis dos lúcidos desesperançados desistem de si próprios e do mundo.

Derrotado o fascismo, a democracia confundiu a liberdade com o oportunismo, a corrupção e o compadrio!

Mas como a politica é um modo da moral no Estado e não uma técnica eu vou acreditando que nem tudo está perdido: se deixar-mos de ser cúmplices as vítimas serão ELES a bem da humanidade.

Bom Natal!

Valter Guerreiro

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