O interior do Governo, a troika e os lóbis pelo olhar de Álvaro Santos Pereira
LUÍS VILLALOBOS
03/12/2014 - 08:39
O livro do ex-ministro da Economia é um testemunho da sua passagem pelo Governo, logo, uma visão unilateral que serve para passar a sua mensagem. Editado após o fim do programa da troika, mas ainda durante o mandato do Executivo do qual fez parte, mostra as desavenças com Portas e Gaspar, revela que não confiava nos contas oficiais do desemprego, e elenca os lóbis sectoriais.
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Poucos meses de ter sido nomeado ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira publicou Portugal na hora da verdade, e, por essa altura, este professor universitário, independente dos partidos, já estava ligado ao PSD, ajudando, nomeadamente, Passos Coelho nas negociações com a troika. Agora que saiu do Governo, e trabalha na OCDE, é a vez de, como ex-ministro, editar uma nova obra, intitulada Reformar sem medo, um independente no Governo. Editada pela Gradiva, chega esta semana às livrarias.
É um ajuste de contas com a história, e, através do seu olhar, das suas palavras, apontamentos e memórias, somos conduzidos ao interior do Executivo formado pelo PSD e pelo CDS, tendo como pano de fundo o plano de trabalhos que liderou enquanto ministro. Ao todo, são 420 páginas, que olham também para o futuro, o qual, diz, tem de passar por “um reescalonamento a longo prazo da dívida dos países europeus mais endividados”. Além disso, defende, “se não baixarmos os impostos das empresas e das famílias, o país nunca conseguirá atrair investimento significativo.”
Sobre o passado, revela os atritos com Vítor Gaspar, sublinha o seu desprezo por Paulo Portas, e elenca, embora de forma pouco aprofundada, a forma como lidou com os lóbis. Enquanto responsável pela pasta do Emprego, é também surpreendente saber que não confiava nas estatísticas oficiais, tendo compilado os seus próprios dados. Seguem-se excertos do livro, seleccionados pelo PÚBLICO, sobre alguns dos temas abordados por Santos Pereira.
Sobre ele próprio e o Governo
– "(…) o principal sacrifício dos dois anos de governação foi familiar. Houve muito menos atenção e muito menos tempo do que eu gostaria para passar com os meus filhos e a Isabel, de modo que eles ressentiram-se e o meu casamento ressentiu-se. Esse foi o verdadeiro custo, ou pelo menos o mais penoso, de dois anos de Governo.”
– “Reflectindo sobre o meu percurso na gestão do maior ministério da história da democracia, penso que parece óbvio que os primeiros meses acabaram por determinar um pouco o resto do meu período no Governo. O facto de ter sido um independente que entrou para o Governo sem experiência política e sem aliados políticos fez com que tivesse levado tempo a construir coligações e alianças.”
– "(…) como fazer um contraponto ao Ministro das Finanças mais poderoso desde Salazar seria sempre delicado, é de certa forma natural que houvesse uma grande impaciência nos primeiros meses em relação ao ministro da Economia e do Emprego.”
– “Como o ministro das Finanças era quase intocável, e como o líder do segundo partido da coligação preferiu não lidar com a troika e com as razões da crise, o descontentamento sobrou facilmente para aquele que vinha de fora (o "emigrante"), aquele que não conhecia a realidade do país (o "estrangeirado"), aquele que não tinha a força política (que, aliás, nenhum outro ministro tinha) para enfrentar as Finanças e a troika.”
– “É verdade, isso sim, que eu não tive peso político para travar a saída da AICEP do Ministério da Economia, um erro que viria a ser parcialmente colmatado com a minha saída e a correspondente entrada do CDS para o ministério... Sim, é verdade que eu não tive peso político para travar a subida do IVA da restauração, até porque a troika e outros eram a favor de tal subida. Sim, é verdade que não tive peso político para, durante largos meses, convencer a troika, o Banco de Portugal, e o Ministério das Finanças que a falta de financiamento das nossas empresas era o principal risco para o Programa de Ajustamento".
– "(…) É caso para perguntar: se, sem peso político, eu e a minha equipa conseguimos tanto, o que é que aconteceria se tivéssemos tido peso político? A resposta é relativamente simples: a reforma do IRC teria culminado na taxa mais competitiva da Europa, os impostos não teriam aumentado como aumentaram em 2012 e muito menos em 2013, as rendas da EDP teriam sido cortadas ainda mais, a AICEP não teria saído do Ministério da Economia e tínhamos tido mais e melhores mecanismos de financiamento das nossas PMEs.”
Sobre o desemprego
– “Quando tomámos posse em Junho de 2011, já era mais do que patente que o principal problema social que teríamos pela frente era o enorme aumento do desemprego”
– “(…) provavelmente ninguém, nem no Governo, nem na Oposição, pensaria que o desemprego iria subir tanto. Ou, pelo menos, tão depressa.”
– “Porque é que o desemprego aumentou tanto e tão rapidamente, então? Houve dois factores principais: a contracção do crédito (…) e a severidade da recessão”.
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